A última estação da esperança. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existem sorrisos que não se restringem à topografia dos lábios, que não se limitam ao arco breve de músculos contraídos. Eles emergem de uma zona invisível da alma, como água inesperada jorrando do fundo de um deserto antigo, e ao brotar, tingem o ar de uma ternura que não se define por palavras, mas se reconhece na pele, como um arrepio de eternidade. São sorrisos com cor de alvorada, com som de riacho oculto, com cheiro de terra molhada após a primeira chuva. Não fazem alarde, mas ao acontecerem, alteram a densidade do tempo, como se o próprio instante suspendesse sua marcha para contemplar, em reverência, a luz rarefeita que se acende no rosto de alguém.
Falo desse sorriso que não apenas suaviza as feições, mas redesenha o mundo ao redor, como se pincelasse esperança sobre a tela pálida da realidade. Um sorriso que, ao acontecer, é como uma flor solitária que ousa desabrochar em pleno inverno, subvertendo estações, desafiando ausências, inaugurando primaveras onde antes só havia silêncio.
Outro dia me ocorreu que talvez o paraíso não seja uma promessa adiada, nem um horizonte inalcançável entre nuvens imaculadas. Talvez o paraíso, com sua nudez desarmada, esteja contido naquele segundo ínfimo e imenso em que alguém nos sorri com inteireza, com a verdade crua de quem nada esconde. Um sorriso encarnado, rubro como sangue e flor aberta, que carrega em si o ardor tranquilo do desejo em paz. Um gesto que, mesmo sem verbo, é capaz de regar os jardins secretos que em nós secaram sob o sol impiedoso das pressas cotidianas.
A alma humana é esse campo instável, território entre o deserto e a floresta. Às vezes, basta um olhar sem medo, uma presença que se demora, para que tudo reverdeça. Há pessoas que chegam como estações rebeldes, como primaveras clandestinas, atravessando os invernos da alma sem pedir permissão. Tocam com uma delicadeza que fere, com uma ferocidade que cura, e semeiam leveza como quem planta girassóis nas frestas da escuridão. Elas não obedecem ao calendário do cinismo, nem às regras áridas do desencanto. Enquanto o mundo se consome em colapsos políticos, ruídos sociais e desalentos existenciais, essas criaturas raras insistem em trazer sol nos olhos e pássaros na voz.
Não falam sobre esperança como um conceito distante. Elas são a esperança em carne e presença, caminhando entre nós com a serenidade dos que já entenderam o abismo, mas ainda escolhem flor. Possuem o dom estranho de encontrar claridade mesmo nos subterrâneos da vida. Porque, sim, há primavera nas trevas, e basta um gesto simples de ternura, ainda que breve, para que os galhos ressequidos da fé comecem, mais uma vez, a florir.
Tenho pensado que amar, esse verbo cansado de tanto ser mal usado, talvez seja, na essência mais pura, uma forma ancestral de jardinar. Amar é permanecer, é regar com presença atenta, é podar com mansidão, é confiar no tempo da flor, mesmo quando tudo parece adverso. E sorrir com autenticidade para alguém, assim, sem defesa, é como lançar uma semente ao deserto e crer, com a alma feita de poesia, que a vida sempre encontra um modo secreto de brotar.
Vivemos dias em que a velocidade desaloja raízes, e a indiferença transforma o afeto em concreto. Mas ainda há pequenas insurreições do belo. Uma delas é o sorriso de quem acredita. O gesto miúdo de quem, ao olhar o outro, decide pintar flores no seu jardim interior, como quem diz, sem dizer, que está aqui — e enquanto estiver, haverá cor, perfume e sentido.
Talvez seja isso, no fim, que nos salva do naufrágio: a coragem de manter vivas, dentro de nós, as flores que ainda não desistiram de nascer. Porque onde houver amor — ainda que frágil, ainda que hesitante — haverá sempre, sussurrando entre os escombros, a promessa de uma primavera.
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