Amanhecer é um gesto de quem não desiste. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Há caminhos que parecem selados por dentro. Portas invisíveis que se fecham ao toque da esperança. Às vezes, tudo o que se tem é uma vontade imensa e um mundo surdo. Você quer traduzir uma obra, quer fazer nascer um livro, quer fazer valer a travessia inteira da alma, e o que recebe de volta é silêncio, recusa, ou cifras inalcançáveis. É aí que muitos desistem. Mas é também aí que nascem os que persistem.

Traduzir o impossível foi o nome secreto de tantos que vieram antes. Luís de Camões escreveu Os Lusíadas com um só olho, naufragado na própria vida. Mozart, já moco, compunha melodias para a eternidade, como se os limites do corpo não tocassem a partitura da alma. Jorge Luis Borges, cego, continuou escrevendo livros inteiros de luz. Eles não tinham todas as ferramentas. Tinham decisão. E essa é a diferença entre sonhar e erguer um sonho.

Quem caminha com pouco, caminha com mais verdade. A falta se torna cinzel. A escassez, combustível. Quando tudo falha, o gesto de continuar se transforma em escritura. Um livro que nasce de quase nada, nasce com outra densidade. Não é produto, é resistência.

Foi assim, certa vez, com alguém que buscava traduzir sua obra para o inglês e ouviu de inteligências artificiais que não seria possível, que o tom, a filosofia e a poética escapariam às máquinas. Procurou tradutores humanos e só encontrou cifras impagáveis. A dor fez silêncio dentro. Mas não por muito tempo. Um amigo, desses que pressente quando a alma treme, ofereceu uma nova direção. E por outro caminho, o improvável se fez tradução. E mais: foi reconhecida, validada, selada em sua inteireza. O que parecia fim virou começo. Aquilo que era travo virou travessia.

Quantas vezes a vida é assim? O mundo fecha todas as portas formais e, quando você quase desiste, uma fresta abre onde ninguém imaginava janela. Mas não é mágica. É a fidelidade ao que se veio fazer. É continuar quando ninguém vê. É escrever mesmo sem editor. É traduzir mesmo sem aplauso. É amar a palavra como quem ama alguém que adoeceu: com zelo, com paciência, com presença.

Essa crônica não é apenas sobre tradução. É sobre criação em tempos duros. Sobre pequenos gestos que se tornam monumentos secretos. Sobre livros que nascem em madrugadas de ausência, onde não há editora, nem promotor, nem aplauso, mas há alma. E basta.

Muitos desistem por não verem caminhos. Outros criam caminhos por não saberem desistir. E esses deixam rastros. Talvez não vendam milhões, talvez não tenham marketing, talvez não estejam nas vitrines. Mas chegam. Porque toda obra fiel encontra um destino justo. Pode demorar, pode dar voltas, mas encontra.

Como escreveu Rilke: “A única pátria é o gesto”. E quem tem um gesto inteiro, uma palavra sincera, uma obra construída mesmo no escuro, já pertence à eternidade das coisas que não se curvam.

Amanhecer não é só o que o céu faz. Amanhecer é o que alguns gestos são.

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