A crônica domingueira. Por Magno Martins
Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor – Tucano, a cidade, não a ave, está viva no meu imaginário desde garoto. Em Afogados da Ingazeira, cresci ouvindo Jocelina, a Joça, irmã de criação de minha mãe Margarida, enaltecer o município baiano e, mais do que isso, por várias vezes, juntar seus apetrechos e pegar a estrada em busca do seu paraíso.
Na verdade, não era tão paraíso assim. Joça praticou um êxodo sem fim para Tucano, mas sempre fazendo o caminho de volta. Não tenho a mínima noção das suas idas e voltas. Também não lembro se havia parentes seus por lá. Só lembro ela comentando comigo e minha família: “Estou de partida para Tucano. Aqui, não dá mais para viver”.
Eu não tinha a menor noção da localização da cidade. Só sabia que ficava em território baiano, porque ela me dizia. Essas recordações mexeram comigo nas férias com um sentimento e uma emoção fortíssimos. Vi com meus olhos a Tucano de Joça. Não sabia, mas estava escrito no roteiro para as cidades históricas de Minas a passagem por Tucano.
Parei o carro e fotografei a placa indicativa. Ninguém do meu grupo de férias entendeu, nem muito menos minha Nayla. Acharam estranho apenas. Por que fotografar uma placa de cidade? A pergunta ficou no ar. A resposta deixei para dar nesta crônica. Tucano faz parte da minha vida, mesmo sem nunca ter ido lá. Eu ia na imaginação. Como deve ser essa Tucano, que tanto a saudosa Joça amava?
Para mim, Tucano era apenas uma ave colorida, linda, de bico longo. Não uma cidade. A Tucano de Joça era um eldorado, seu mundo de prosperidade. No meu Sertão, o único êxodo que conheci era feito pelos deserdados da seca rumo a São Paulo. Mas Joça nunca conheceu São Paulo, provavelmente porque era analfabeta, sem profissão definida e sem sonhos.
Seu sonho era procriar. Vivia com menino na barriga, mas com a sina de perdê-los para uma doença muito comum que pobre não superava por falta de assistência médica no sertão: diarreia. Perdeu uma meia dúzia de filhos. Da maldita sina só escaparam dois: Zezinho e Toinho. Aliás, um, porque Zezinho era filho de criação.
A perda de filhos pequenos para doenças evitáveis, como a diarreia, está ligada à falta de água potável e desnutrição. É uma das faces mais cruéis da seca no sertão nordestino. Esse drama é recorrente na literatura regionalista e na memória. No sertão, a seca não mata só a terra; ela seca o sangue da gente, levando as crianças na diarreia, num adeus que a mãe nunca esquece. O flagelo não é apenas a falta de chuva, é ver o filho secar por dentro, desidratado, enquanto o açude só tem poeira.
Joça era uma mulher guerreira. Na casa de mamãe, quando se arrependia de mais uma aventura em Tucano e regressava desiludida, fazia de tudo: cozinhava, lavava pratos, fazia faxina e outros afazeres, entre eles detinha a arte de matar as galinhas de capoeira criadas por papai com uma facada certeira no pescoço. Depois, depenava com as mãos em água fervendo.
Existem cidades que guardamos no mapa do coração, lugares que nunca pisamos, mas cujas ruas conhecemos de cor nos nossos sonhos. Assim, para mim é Tucano. Nunca fui, avistei de longe agora, arrastando e acolhendo em mim a saudade de Joça. O nome da cidade era um poema chamado Tucano, e eu preferia imaginá-la como um verso perfeito a conhecê-la como uma prosa comum.
A verdadeira beleza daquela cidade com nome de uma ave tão linda é o mistério de nunca ter sido visitada por mim, permanecendo intocada na galeria das minhas fantasias passadas pelas histórias de Joça. Na verdade, só hoje tenho a exata noção de que o nome da cidade Tucano soava como música, prometendo esquinas que nunca encontrei e rostos que nunca vi.




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