GAZETA PERNAMBUCANA – Nara Leão: A doçura que enfrentou o país de frente
Em 19 de janeiro de 1942, nasceu em Vitória, capital do Espírito Santo, uma menina de fala baixa, olhar firme e sensibilidade à flor da pele. Nara Leão, nome que se confundiria com a história da música brasileira e com a alma inquieta de um país em ebulição.
Neste mês de janeiro, celebramos o seu nascimento. E mais do que recordar a data, é preciso compreender a dimensão de quem ela foi: muito além da musa da bossa nova, Nara foi consciência crítica, foi coragem serena, foi arte em estado de atenção.
Transferida ainda criança para o Rio de Janeiro, cresceu na Avenida Atlântica, em Copacabana, onde sua casa virou ponto de encontro de jovens que, sem saber, estavam prestes a inventar um novo som. Ali, entre almofadas e ideais, surgia a bossa nova, e Nara, com seu violão no colo e sua voz leve como brisa, tornava-se símbolo e presença central daquele movimento.
Mas ela não se acomodou. Quando percebeu que a estética elegante escondia também silêncios incômodos, virou o rosto para a zona sul e olhou para o morro. Gravou Cartola, Zé Kéti, João do Vale. Fez do palco uma trincheira poética. Incomodou, denunciou, rompeu.
Nara Leão enfrentou a ditadura com suavidade firme. Participou do Festival da Canção, aproximou-se do tropicalismo, foi exilada, voltou, resistiu. Sua música era como ela: delicada na forma, contundente no conteúdo.
Mesmo doente, quando o câncer a desafiou, não se escondeu. Gravou seu último disco em casa, cercada pela família, como quem sabia que o fim não apaga a beleza do caminho. Sua despedida foi também um gesto artístico, discreto, mas eterno.
Nara Leão nos ensinou que a verdadeira coragem não precisa gritar. Basta dizer. Sua voz ainda vive, como semente lançada no tempo. E neste janeiro, em que se comemora mais um ano de seu nascimento, a melhor homenagem que se pode fazer é ouvi-la, com o mesmo respeito com que se ouve uma verdade dita em tom baixo, mas impossível de ignorar.
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