O teu nome é lembrança de carnaval, que dança em mim. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  O Carnaval, para quem só vê por fora, é barulho, é fantasia, é multidão em estado febril. Mas para quem já amou como eu amei, com o corpo inteiro, com a alma exposta, com a ternura de quem se entrega ao outro como se oferece um samba-canção ao silêncio, o Carnaval é outra coisa. É memória acesa em ritmo de frevo. É saudade vestida de lantejoula. É uma dança que continua mesmo depois que a música acaba.

E foi nesse compasso sem fim que teu nome ficou. Gravado, sutil e profundo, como marca de serpentina em pele suada. Como batida de tambor que não cessa dentro do peito, mesmo quando tudo à volta já silenciou. Você foi o desfile mais bonito que passou por mim, e nunca foi embora de verdade.

Recordo de ti com os olhos fechados e o coração aberto. Lembro da forma como teus passos riscavam o chão com leveza de quem parecia flutuar sobre as cinzas de fevereiro. Tua presença era melodia sem partitura, improviso que soava como se sempre estivesse destinado a acontecer. E eu, ao teu lado, deixava de ser ilha para me tornar continente. Um território inteiro de afetos, um mapa desenhado à mão com as cores do teu sorriso.

Havia em você um jeito de me puxar para a vida que nenhuma outra pessoa teve. Como se teus gestos contivessem a própria lógica da alegria. Como se tu soubesses, desde o começo, que o amor não se diz, se dança. Que o carinho não se prova, se encosta. Que a presença, quando é inteira, se faz mais pelo toque do que pela palavra.

Você me resgatou de mim mesmo sem dizer nada. E me levou para aquele bloco invisível onde só desfilam os que sabem amar com verdade, com doçura, com coragem. E ali, naquele salão que talvez só tenha existido dentro da minha memória, tu foste minha serpentina mais bonita. Aquela que me enlaçou com doçura, mas com firmeza. Aquela que me fez entender que viver é, acima de tudo, deixar-se tocar. Mesmo que doa depois.

O tempo passou. As estações mudaram. O mundo rodopiou muitas vezes sem nós dois no centro da mesma dança. Mas tua lembrança… ah, tua lembrança ainda gira dentro de mim como estandarte levado pelo vento. E quando fevereiro se insinua no calendário, é o teu nome que começa a bailar no meu pensamento. Teu nome, que virou saudade com cheiro de confete molhado. Teu nome, que é verso que não envelhece. Teu nome, que é Carnaval que nunca desmonta o palanque.

Eu vejo os foliões, as ruas pintadas, as músicas estourando dos alto-falantes, mas é por dentro que a festa acontece. No silêncio do quarto. Na curva da memória. No pequeno estalo de um sorriso que escapa quando alguém, sem querer, cruza a avenida do meu pensamento com o mesmo brilho que você carregava nos olhos.

Porque amar você foi um desfile inteiro. Foi um cortejo de dias bons, de noites acesas, de mãos dadas que queriam durar além do tempo permitido. Foi um frevo de emoções rasgadas que dançavam até mesmo na tristeza. E mesmo depois que o tempo passou e a vida nos levou por caminhos que não previ, o que ficou em mim não foi o fim.

Foi o ritmo.

Foi a dança.

Foi você inteira dentro do meu sonho, entregue.

Foi a música do teu nome, tocando baixinho no coração, como se cada batida dissesse que o amor, o amor verdadeiro, não se apaga.

Ele apenas se transforma em lembrança de Carnaval.

E dança em mim.

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