Bartolomeu Fragoso e o gesto crítico de José Paulo Cavalcanti Filho. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Em tempos de crescente esvaziamento do rigor intelectual e rarefação dos gestos de erudição autêntica, impõe-se o necessário reconhecimento àqueles que, com paciência de arqueólogo e discernimento de historiador, se lançam à tarefa de revisar os alicerces da cultura nacional com olhos críticos, mãos firmes e respeito absoluto às evidências documentais. É nesse espírito que se deve acolher e celebrar a recente obra de José Paulo Cavalcanti Filho, publicada pela Academia Brasileira de Letras, sob o título sereno, mas profundamente subversivo em seu conteúdo, “Bartolomeu Fragoso, Primeiro Poeta do Brasil”. A importância deste trabalho excede em muito o valor de uma descoberta filológica; trata-se de um gesto fundador de releitura da memória literária do país, com todas as implicações que esse reposicionamento de marco inicial pode produzir na consciência nacional.
Durante séculos, o nome de Bento Teixeira figurou nas antologias escolares, nas histórias da literatura brasileira e nos compêndios de referência como o precursor da poesia produzida em solo nacional, uma posição que lhe fora atribuída quase que por tradição inercial, sem a devida inquietação crítica que caracteriza os espíritos mais agudos. Ao colocar Bartolomeu Fragoso no lugar inaugural que lhe cabe por direito histórico e literário, Cavalcanti não apenas corrige uma atribuição equivocada, mas propõe uma reconfiguração de paradigma: convida-nos a repensar o início de nossa expressão poética, deslocando o eixo da tradição e expondo as fragilidades metodológicas de uma historiografia por vezes cristalizada em versões apressadas ou acríticas.
A força do argumento de José Paulo Cavalcanti não repousa sobre ilações frágeis ou suposições temerárias. Ao contrário, o autor sustenta sua tese com impressionante aparato documental, resgatando arquivos inquisitoriais, reconstruindo trajetórias biográficas, interpretando manuscritos esquecidos e reconstituindo o ambiente cultural da segunda metade do século XVI com notável riqueza de detalhes. O livro não é apenas uma reavaliação histórica, mas também um tributo ao ofício da pesquisa séria, à perseverança diante do obscurantismo dos arquivos e à coragem de desafiar consensos, mesmo quando estes se apresentam sob a roupagem da tradição consagrada.
Bartolomeu Fragoso, nascido em 1566 em Lisboa, figura até então obscurecida pela névoa do tempo e pela severidade do Santo Ofício, emerge das páginas deste livro não como uma sombra à margem da história, mas como sujeito de sua época, poeta que verteu versos em pleno século XVI, aprisionado não apenas pelas grades da Inquisição, mas também pela posteridade que lhe negara o reconhecimento. Sua obra, embora fragmentária, carrega o sopro inaugural da lírica produzida no contexto do Brasil colonial, antes mesmo da consolidação de uma identidade literária brasileira, e sua voz ressoa como testamento de uma sensibilidade que, mesmo diante da perseguição e da marginalização, encontrou forma estética no poema.
O gesto de José Paulo Cavalcanti, portanto, não é apenas o de um pesquisador que resgata um nome apagado. É o de um intelectual que compreende que a história da literatura é, antes de tudo, a história dos sentidos que uma sociedade atribui às suas origens simbólicas. Ao devolver a Bartolomeu Fragoso o lugar que lhe foi usurpado pela negligência da crítica e pela seletividade da memória, ele não apenas reescreve o passado, mas também amplia o presente, oferecendo ao Brasil uma nova maneira de pensar a si mesmo desde o berço de sua produção escrita.
A repercussão que essa proposta deve provocar no campo da crítica literária e dos estudos culturais será, sem dúvida, de ampla reverberação. Não se trata de mera revisão de nomes ou datas, mas de uma reconsideração da gênese de nossa voz poética, o que implica reavaliar cânones, questionar narrativas hegemônicas e permitir o florescimento de outras leituras, outras inclusões, outras genealogias possíveis. Em tempos de disputa pela memória e por espaços de fala, a elevação de Bartolomeu Fragoso à condição de poeta inaugural ecoa também como um gesto de justiça histórica e de democratização do passado literário brasileiro.
Cabe ainda ressaltar que esse trabalho, como tantos outros na trajetória multifacetada de José Paulo Cavalcanti Filho, é fruto de um pensamento que se recusa à superficialidade. Jurista de formação e atuação respeitada, intelectual de largo fôlego e notável presença nos debates nacionais, ele tem sido uma das vozes mais lúcidas e comprometidas com o pensamento crítico no Brasil contemporâneo. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa cadeira com a dignidade dos que não a usam como ornamento, mas como tribuna de ideias, José Paulo transita com igual desenvoltura pelos corredores do Direito, da literatura, da ética pública e da cultura nacional. Sua figura simboliza um Brasil que ainda acredita na força da palavra bem escrita, na persistência da verdade documentada e na beleza da erudição acessível, sem arrogância, mas também sem concessões ao modismo ou à ignorância intelectualizada.
Neste momento em que a sua obra se debruça sobre um tema tão crucial e simbólico, o verdadeiro marco inicial da poesia no Brasil, é dever daqueles que partilham da fé na inteligência e no espírito crítico render homenagem não apenas ao conteúdo revelador do livro, mas também à atitude de seu autor, que mais uma vez reafirma a função transformadora da cultura, da literatura e da memória. Que este ensaio, que ora se oferece ao público leitor, possa servir como eco dessa reverência, como convite à leitura e à reflexão, e como prova de que há, sim, entre nós, aqueles que sabem lapidar a pedra da história até que ela brilhe como merece.
Bartolomeu Fragoso, por fim, não é apenas o primeiro poeta. É o primeiro silenciado. E graças ao trabalho monumental de José Paulo Cavalcanti Filho, passa agora a ser também o primeiro redimido pela literatura.
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