A conversa secreta entre as luzes da cidade e o crepúsculo. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Perfeito, o mapa do tempo. O relógio definiu e escolheu a hora mais generosa do dia, aquela em que o sol, já cansado de ser soberano, abaixa a guarda e permite que as luzes da cidade, ainda tímidas, comecem a sussurrar suas primeiras confidências. É nesse entremeio, nesse quase-nada entre o clarão que se despede e o brilho que se anuncia, que a cidade revela sua alma mais verdadeira, e eu, que sou apenas um escriba de ocasião, tentarei capturar essa conversa que ninguém escuta, mas que todos sentem na pele quando a tarde desaba no colo da noite.
Pois bem: chega a hora em que o azul do céu parece adoçar-se, perdendo aquele tom seco e exigente das onze da manhã, para se tingir de um laranja meio pêssego, meio saudade, e é nesse exato instante, quando a luz natural hesita, como uma atriz que não quer deixar o palco para a substituta, que os postes da avenida principal acendem seus primeiros lampejos. Não de maneira ostensiva, não senhor; eles acendem com a discrição de quem pede licença, um facho amarelo primeiro, depois outro mais adiante, e assim vão se estendendo numa corrente que parece costurar a calçada com pontos de ouro. As luzes artificiais, nesse início de serviço, não competem com o crepúsculo; ao contrário, elas o homenageiam, como aprendizes que reconhecem a maestria do mestre e só ousam brilhar por inteiro quando o mestre, enfim, se recolhe nos bastidores do horizonte.
E então, a conversa começa, e é das mais delicadas que se pode imaginar, pois se dá no idioma das cores e das sombras, naquele código secreto que só os poetas e os apaixonados conseguem traduzir. O crepúsculo, todo melancólico e majestoso, derrama sobre os telhados e as fachadas o seu manto de tons quentes, e as luzes da cidade respondem com um tremor elétrico e baixinho, como se dissessem: “Vai, amigo, descansa; eu cuido daqui.” E é essa troca generosa que transforma o entardecer de uma sexta-feira num espetáculo quase sagrado: os faróis dos carros que se acendem não são meros dispositivos de segurança, são olhos que se abrem para admirar a despedida do sol, e as vitrines das lojas, com suas lâmpadas de led frio, parecem querer imitar as estrelas ainda inexistentes, num esforço comovente de ser céu mesmo quando o céu ainda está ali, presente, mas já virando as costas.
Já reparou, nesse diálogo silencioso que acontece nas esquinas mais movimentadas? Preste atenção: o poste da farmácia, aquele que tem a base meio enferrujada e um casal de pombos que insiste em empoleirar-se no topo, acende-se exatamente quando o último raio de sol beija o para-brisa do ônibus estacionado. E parece um combinado antigo, desses que a gente faz com o melhor amigo na infância e nunca mais precisa repetir. A luz do poste não diz “estou aqui”; ela diz “eu te esperei o dia inteiro”, e o crepúsculo, que já está sumindo na curva do rio, responde com um brilho mais intenso, como um adeus que se alonga além do necessário, porque, convenhamos, as despedidas mais bonitas são sempre as que demoram um pouquinho mais do que a indiferença permite.
E nesse vai-e-vem de luminosidades, eu vejo as pessoas, ah, as pessoas, que passam apressadas, com os olhos fixos no telefone ou no relógio, e não percebem que estão atravessando um dos poucos momentos verdadeiramente mágicos do dia. Elas caminham sobre as calçadas onde a luz amarela disputa palmo a palmo com a luz que se apaga, e seus rostos vão se tingindo alternadamente de ouro e de prata, como se fossem telas vivas que um pintor maluco decidisse colorir às pressas. Cada rosto, nessa hora, é uma pequena crônica andante: a moça que sai do escritório com o casaco no ombro e um sorriso cansado, o senhor que empurra o carrinho de feira com a lentidão de quem já não tem pressa nenhuma, a criança que aponta para o céu e diz algo que a mãe não ouve. Todos eles são personagens involuntários dessa ópera de luzes, todos eles emprestam ao crepúsculo um pedaço da sua pressa e à cidade um pedaço da sua solidão.
Mas o mais belo, e aqui peço licença para me estender como a sombra que se alonga no asfalto, o mais belo é perceber que essa conversa, embora secreta, não é exclusiva. Ela está ali para quem quiser escutá-la, estampada nos reflexos das poças d’água que sobraram da chuva da manhã, ou no brilho tênue que se forma no vidro do restaurante da esquina, onde um casal se senta para jantar e, sem saber, ilumina o próprio rosto com a chama trêmula de uma vela. O crepúsculo e as luzes não falam de grandes feitos, não; eles conversam sobre o efêmero, sobre a beleza que dura apenas o tempo de um suspiro, e essa é a maior lição que a cidade nos dá todas as tardes, a de que a vida, no fundo, é feita desses instantes de transição, dessas frestas entre um cansaço e outro, onde a gente pode, se quiser, parar por um segundo e apenas contemplar.
E quando a noite finalmente se impõe, e o céu escurece de vez, as luzes da cidade já não pedem mais licença; elas ocupam o espaço por inteiro, triunfantes e necessárias, como quem diz: “Cumpri minha parte.” Mas eu juro que, se prestar atenção bem no fio do horizonte, ainda verá um resto, um traço, uma cicatriz luminosa do crepúsculo que se foi, porque, amigo, as coisas realmente belas nunca vão embora por completo; elas apenas se disfarçam de memória para continuarem vivas dentro da gente. E é essa memória que nos faz olhar para os postes, para os faróis, para as janelas iluminadas dos prédios, e enxergar, em cada uma delas, o eco daquela tarde dourada que já não está mais aqui, mas que deixou, em cada facho de luz artificial, um pouquinho do seu calor emprestado.
Assim, termina o percurso, ou melhor, não a termina, apenas a deixa-se em suspenso, como a luz que ainda hesita antes de se firmar. Porque a conversa entre o crepúsculo e a cidade não tem fim; ela se renova a cada entardecer, a cada sexta-feira, a cada esquina onde um coração sensível decide parar para escutar. Fique com esse esplendor no peito, e amanhã, quando acordar, lembre-se de que a cidade já está guardando o seu melhor tom de laranja para esperá-lo novamente, pontual, silenciosa, eterna como só as coisas que nascem da alma sabem ser.
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