A crônica domingueira. Por Magno Martins

Os antigos gregos chamavam de eudaimonia, termo ainda usado em ética. Para as emoções associadas à felicidade, os filósofos preferem utilizar a palavra prazer. É difícil definir, rigorosamente, a felicidade e sua medida. Investigadores em psicologia desenvolveram diferentes métodos e instrumentos, a exemplo do Questionário da Felicidade de Oxford, para medir o nível de felicidade de uma pessoa.

Esses métodos levam em conta fatores físicos e psicológicos, tais como envolvimento religioso ou político, estado civil, paternidade, idade, renda, etc. Sentimento mais importante da vida, a felicidade está presente fortemente e emocionalmente na música. Na clássica “A noite mais linda do mundo”, Odair José contraria os gregos e os filósofos em geral, quando diz que a felicidade não existe, o que existe são momentos felizes.

“Vamos fazer dessa noite/ A noite mais linda do mundo/ Vamos viver nessa noite/ A vida inteira num segundo”, canta Odair. Ouvi Odair na minha adolescência em Afogados da Ingazeira nos anos 70, quando era estouro de sucesso. Recentemente, gravei um Sextou, programa musical que ancoro na Rede Nordeste de Rádio, e me emocionei com suas histórias.

Me contou que num show no Recife Antigo uma senhora chegou ao seu camarim, extremamente emocionada, para contar que uma música dele a impediu de cometer suicídio. “A vida é feita de momentos, cada momento representa um sentimento, por isso devemos fazer com que esse sentimento momentâneo seja a felicidade”, disse Odair, ao se referir ao episódio da fã que sua música salvou.

A felicidade povoa corações e mentes do universo fantástico da MPB. Marcelo Jeneci, com quem também gravei um Sextou, tem uma composição em parceria com Chico César (famosa na voz de Jeneci e também gravada por Elba) que diz que “felicidade é só questão de ser”. Tom Jobim e Vinícius de Moraes também gravaram sobre a efemeridade e a beleza da felicidade, comparando-a a uma pluma que voa no vento.

Seu Jorge, Gabriel Moura e Leandro descrevem a felicidade nas coisas simples do cotidiano, como tomar um café, ir à praia ou estar na companhia de quem se ama. Martinho da Vila, com quem também tive a grande emoção de gravar um Sextou e que está vindo para um show no Recife, tem um samba aconchegante que reflete sobre os bons momentos e a leveza de viver, chamado “Felicidade”.

Voltando ao tema de Odair José, que a felicidade não existe e que o que existe são momentos felizes, ele, na verdade, nos provoca ao debate de que a ideia central é que a felicidade contínua não existe como um estado fixo de espírito. O que temos são pedaços de alegria, surpresas boas e sorrisos que acontecem no dia a dia.

Sua canção nos ensina que devemos aproveitar o momento presente sem sofrer pelo futuro. Por volta do século VI a.C., na China, dois filósofos apontaram dois caminhos para se atingir a felicidade: Lao Tsé defendeu que a harmonia na vida podia ser alcançada através da união com o tao, ou seja, com as forças da natureza. Já Confúcio enfatizou o dever, a cortesia, a sabedoria e a generosidade como elementos que permitiriam uma existência feliz.

Para o filósofo grego Aristóteles, a felicidade é uma atividade de acordo com o que há de melhor no homem. O homem, diferente de todos os outros seres vivos, é dotado de linguagem (logos), e a atividade que há de melhor no homem deve ser realizada de acordo com a virtude. Quem organizar, portanto, os seus desejos de acordo com um princípio racional terá uma ação virtuosa e a vida de acordo com a virtude será considerada uma vida feliz.

Deixo aqui, ao final, algumas reflexões, porque, para mim, não existe caminho para a felicidade, porque a felicidade é o caminho. Viver é a única forma de ser feliz. Foi Carlos Drumond de Andrade que disse que ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.

A vida é só essa coisa atropelada, que passa muito rápido e as únicas pessoas felizes são as que atravessam o tempo entregues ao amor. Nos meus filhos, entrego e recebo amor. Minha Nayla multiplica a entrega do amor e por isso sou feliz. Recorro a Érico Veríssimo: felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade, que está nas coisas simples que o amor rega. O amor evita males e prolonga a vida.

Foi Charles Chaplin quem nos ensinou: “Não espere por um dia perfeito para ser feliz. A felicidade está nas pequenas coisas, nas pequenas atitudes e nos pequenos momentos”.

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