O peso do nunca mais. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Nunca mais é uma expressão pequena para uma extensão tão difícil de imaginar, duas palavras que pronunciamos numa única expiração, embora o sentimento precise de muito mais tempo para percorrer aquilo que elas afirmam. Conseguimos compreender o fim de uma conversa, a mudança de um endereço, a separação de dois caminhos, mas existe alguma coisa em nós que hesita diante dessa medida sem bordas, desse futuro inteiro ao qual uma experiência já não pertencerá, porque pensar no dia seguinte é um exercício possível, pensar nos próximos meses exige algum esforço, e pensar em todos os dias que virão, sabendo que determinada presença estará fora deles, produz uma espécie de vertigem para a qual o corpo não foi preparado.
A razão costuma chegar primeiro e apresentar os fatos com uma precisão que quase nos constrange, enquanto o sentimento continua a trabalhar numa velocidade própria, examinando o que já foi compreendido, tocando outra vez os contornos de uma certeza que não se altera. Sabemos o que aconteceu, reconhecemos a realidade, conduzimos nossas escolhas de acordo com ela, mas esse conhecimento não determina a temperatura do que sentimos, assim como entender a distância entre duas cidades não encurta um único metro da estrada. Existe um trabalho íntimo nessa diferença entre saber e conseguir acomodar o que se sabe, um trabalho sem testemunhas, realizado durante a vida comum, entre a resposta a uma pergunta e a atenção que precisamos devolver ao assunto seguinte.
Por fora, os dias continuam inteiramente capazes de nos interessar, e seria injusto com a própria vida dizer que tudo perde o gosto ou que nenhuma alegria consegue nos alcançar. Um livro nos envolve, uma conversa nos diverte, o trabalho exige inteligência, encontramos prazer numa ideia, numa descoberta, numa tarefa bem realizada, e participamos de tudo isso com sinceridade, sem representar satisfação para esconder o que sentimos. Entretanto, no interior dessa existência que se movimenta, permanece uma região sensível, um ponto em que a experiência mais simples encontra uma resistência inesperada, como acontece quando o tecido de uma roupa toca exatamente onde a pele ainda não suporta a mesma pressão.
Às vezes, esse ponto se revela no impulso de repartir uma observação, alguma coisa engraçada que acabamos de ouvir, um pensamento que ainda está tomando forma e que, por um movimento espontâneo da intimidade, procura uma pessoa determinada. O impulso dura pouco, mas é suficiente para mostrar quanto do convívio se incorporou à nossa maneira de perceber o mundo, porque aprendemos a reconhecer certos acontecimentos já imaginando a expressão com que seriam recebidos, a pergunta que despertariam, o detalhe que chamaria atenção. Então a frase permanece conosco, e precisamos descobrir o que fazer com essa parte da experiência que nasceu acompanhada e agora nos pertence inteira.
Talvez seja isso que dê ao nunca mais uma espessura tão particular: ele alcança também os pequenos movimentos que antecedem o pensamento, os hábitos de percepção, as associações discretas pelas quais uma pessoa passou a participar da nossa inteligência e da nossa sensibilidade. Podemos reorganizar horários, mudar percursos, estabelecer outras rotinas, mas o íntimo não se modifica com a prontidão de uma agenda, pois ali as coisas se formaram por convivência, por repetição, por uma confiança que foi entrando nos gestos até parecer natural. Uma palavra ganha certo sabor porque alguém a pronunciava de um jeito particular, um assunto adquire relevo porque foi conversado com atenção, e seguimos reconhecendo essas marcas enquanto acrescentamos ao mundo outras maneiras de olhar.
O mais difícil de conceber é essa simultaneidade de existências que prosseguem separadas, cada uma entregue aos seus compromissos, às suas escolhas, às pequenas contrariedades e satisfações de uma terça-feira qualquer. A outra pessoa continua a conhecer lugares, a mudar de opinião, a se interessar por assuntos que talvez nunca tenham passado pelas conversas compartilhadas, e tudo isso acontece fora do nosso conhecimento, assim como a nossa própria vida se amplia em direções que ela desconhece. Aos poucos, a familiaridade encontra seu limite: aquilo que sabemos pertence a um período preciso, enquanto a pessoa continua sendo alguém em transformação, tão real no presente quanto inacessível à intimidade que um dia nos permitiu conhecê-la.
É preciso delicadeza para aceitar esse limite sem reduzir ninguém à lembrança que conservamos, sem imaginar que o nosso sentimento nos concede acesso à vida alheia ou autoridade sobre os seus caminhos. O afeto que permanece exige de nós uma responsabilidade silenciosa, porque sua intensidade pertence a quem a experimenta, e cabe a essa pessoa encontrar uma forma de conduzi-la. Podemos sentir profundamente e ainda assim respeitar a distância, reconhecer a importância do que vivemos sem fazer dessa importância uma cobrança, preservar a verdade de uma experiência sem exigir que ela continue produzindo a mesma verdade em outra pessoa. Essa compreensão custa, às vezes custa muito, mas também faz parte da seriedade com que se ama.
O tempo participa desse trabalho de maneira irregular, e talvez por isso as explicações fáceis sobre ele nos pareçam tão insuficientes. Certos dias passam com uma naturalidade que nos surpreende, e então uma associação imprevista altera por alguns instantes o equilíbrio que julgávamos estabelecido, sem que isso signifique ter voltado ao começo ou perdido tudo o que aprendemos. Sentir possui variações que nenhum calendário consegue organizar, e podemos estar mais firmes, mais atentos ao presente, mais disponíveis para o que fazemos, conservando uma sensibilidade que reaparece em ocasiões específicas. A medida da nossa transformação talvez esteja na maneira como atravessamos esses instantes, no cuidado com que os reconhecemos e na possibilidade de continuar depois deles.
Desconfio da exigência de sair inteiramente modificado de tudo, sempre mais forte, sempre pronto a apresentar uma lição que justifique o que foi difícil. Algumas experiências nos tornam sobretudo mais precisos, capazes de perceber o esforço escondido numa resposta tranquila, a complexidade de alguém que trabalha, conversa e sorri enquanto procura acomodar dentro de si uma realidade definitiva. Passamos a julgar menos depressa, a compreender que a compostura pode conter um exercício imenso, e que uma pessoa não precisa contar a própria história para merecer delicadeza. O que aprendemos, quando aprendemos, aparece assim, na maneira de tratar os outros, na paciência que antes nos faltava, na atenção concedida a uma frase que quase passou despercebida.
O peso do nunca mais se distribui por essa vida concreta, recebe o contorno dos nossos dias, muda de intensidade conforme o tocamos, e nós vamos encontrando maneiras de carregá-lo sem lhe entregar todas as nossas forças. Fazemos planos que podem ser realizados, aceitamos convites que nos interessam, dedicamos atenção a quem participa do presente, permitimos que uma manhã seja agradável por aquilo que ela oferece. Em algum momento, no meio de uma conversa, surge uma observação que teria encontrado naquela pessoa uma escuta particular; sentimos o movimento íntimo, reconhecemos sua direção e permanecemos ali, acompanhando quem está diante de nós, até que a conversa nos envolve outra vez e respondemos com interesse verdadeiro, ainda com aquele sentimento em nós.
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