De 36% a 18%: a decadência da candidatura de Marília Arraes ao Senado
Na reta final, Marília Arraes já não se pergunta como manter a liderança. E sim como parar de cair.
Recife. Se a política é uma maratona, Marília Arraes (PDT) vive, na eleição para o Senado de 2026, um dos mais visíveis apagões de sua trajetória.
A mais recente pesquisa Datafolha (protocolo PE-04411/2026) mostra a pedetista com apenas 18% das intenções de voto, empatada tecnicamente com Humberto Costa (PT), que aparece com 16%, e Mendonça Filho (PL), com 12%. No início da corrida, Marília chegou a marcar 36%. Ou seja, metade da vantagem construída na pré-campanha evaporou em poucos meses.
Para uma política que já liderou pesquisas em 2020 (Prefeitura do Recife) e em 2022 (Governo de Pernambuco) e acabou derrotada nas duas ocasiões, a trajetória atual acende um alerta vermelho.
A curva descendente em números
A trajetória de Marília Arraes é, essencialmente, uma linha em queda.
Em setembro de 2025, quando a pré-campanha engatinhava, pesquisas como a Conecta a colocavam com 28% no cenário estimulado e 34% no espontâneo. Em maio de 2026, o Datafolha ainda apontava 39% de preferência em cenário pré-eleitoral, com vantagem de 7 pontos sobre Humberto Costa.
Mas a partir de setembro, o momento decisivo da campanha, os números despencaram. A Quaest divulgada em 8 de setembro mostrou o total de votos da pedetista caindo para 17%. Três dias depois, o Datafolha confirmou a tendência: 18% de votos totais, com a diferença para os perseguidores encolhendo de dois dígitos para apenas 2 pontos percentuais, dentro da margem de erro de 3 pontos.
O dado mais preocupante: com 22% de brancos, nulos ou nenhum e 10% de indecisos, o teto de Marília parece ter chegado mais cedo do que o esperado.
O problema dos dois majoritários
A dificuldade de Marília não pode ser analisada isoladamente. No Brasil, e especialmente em Pernambuco, a eleição para o Senado não é uma corrida solitária. Ela depende diretamente da gravidade política da chapa majoritária.
E aí está o nó: os dois nomes que sustentam essa chapa vivem momentos complicados.
Como aliada do governador João Campos (PSB), Marília deveria se beneficiar da popularidade do ex-prefeito do Recife. O Datafolha de maio chegou a mostrar que, entre eleitores de João Campos, ela tinha 53% de preferência, contra 43% de Humberto Costa.
Mas João Campos não decolou como se esperava. Ele enfrenta a governadora Raquel Lyra (PSD), que segundo o Paraná Pesquisas tem 65,7% de aprovação de governo. Apesar de a equipe de João Campos alegar recuperação após o vídeo de Lula, o cenário geral da disputa estadual segue embolado e, em alguns levantamentos, desfavorável.
Quando o puxador de votos da chapa não corre o suficiente, os demais candidatos não ganham tração. O efeito João Campos que Marília esperava está sendo neutralizado pela realidade da disputa majoritária.
Um roteiro conhecido
O currículo político de Marília Arraes carrega um padrão que preocupa aliados: liderar pesquisas e perder eleições.
Em 2020, ela liderou a corrida pela Prefeitura do Recife e perdeu no segundo turno para João Campos. Em 2022, apareceu à frente na disputa pelo Governo de Pernambuco e foi derrotada por Raquel Lyra no segundo turno. Como resumiu um deputado estadual à época ao JC: “Ela começa na frente, mas em eleição majoritária, quando é para valer, ela acaba perdendo.”
A eleição de 2026 para o Senado não tem segundo turno, mas tem duas vagas em disputa, o que é ao mesmo tempo uma oportunidade e uma armadilha. A multiplicidade de escolhas permite ao eleitor optar por um segundo nome além de Marília, e essa dinâmica de voto disperso está corroendo sua dianteira.
Na reta final, Marília Arraes já não enfrenta a pergunta “como manter a liderança?”. Ela enfrenta a pergunta “como parar de cair?”. E, numa eleição sem segundo turno, com duas vagas em jogo e adversários colados, qualquer oscilação pode definir o resultado final.
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