A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor –  No poema “O tempo”, Mário Quintana diz que a vida é o dever que trazemos para fazer em casa. Fala sobre a velocidade do relógio e nos adverte que, infelizmente, o tempo nunca mais voltará. Meu pai Gastão Cerquinha nunca brigou com o tempo. Era marioquintano!

Mário Quintana exprime a sua visão madura e sábia sobre a vida. Reflete sobre temas como a passagem do tempo, a memória, a existência, a velhice e a morte. “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas…Quando se vê, já é sexta-feira… Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado… E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio / seguia sempre em frente…”.

Para não ser atropelado pela velocidade da vida, a sapiência do meu pai estava numa caderneta amarelada pelo tempo, encontrada por um dos seus nove filhos e exposta ontem no grupo familiar. Emocionou a todos nós, seus herdeiros, por um simples motivo: foi como se tivéssemos achado nela o tesouro das nossas vidas.

Com tamanha filharada, para não se perder no tempo papai usou a mesma caderneta, que batizo de a caderneta do amor, para anotar a data de nascimento dos filhos pela ordem numérica. Na imagem acima, fui o sexto, está lá devidamente anotado com a caligrafia dele. Tarso, o primogênito, com o número 1; Denise, a caçula, com o número 9. Papai também fazia o controle das vacinas obrigatórias: poliomielite, sarampo, caxumba, rubéola, hepatite, entre outras.

Em Afogados da Ingazeira, sertão euclidiano, onde mamãe Margarida pariu seus nove filhos, morria-se muito por falta de vacinas. O isolamento geográfico, a falta de estradas e a ausência de uma rede estruturada de saúde faziam com que epidemias de doenças hoje controladas ou erradicadas fossem devastadoras, elevando drasticamente a mortalidade infantil na região.

Papai cuidava dos filhos como se rega uma planta pela manhã, com muito amor. Alicerçou o nosso porto seguro pelas suas mãos calejadas, sempre com o sorriso paciente. Nos ensinou que ser pai não é apenas estar presente. É ser refúgio, ensinar pelo exemplo e cuidar com o coração.

A caderneta do meu pai funcionou como um espelho silencioso do cotidiano, onde o simples ganha a eternidade do registro. Vai muito além de números e contas. Ela guardou a nossa história, nos deixou as marcas do tempo, as coisas efêmeras da vida. Papai era um sábio! Para ele, a evolução dos seus descendentes não estava riscada na parede, mas copiada no papel.

Na caderneta do meu pai o papel amarela, a tinta desbota, mas o sentimento registrado permanece intacto contra o tempo. É filtro natural da memória, tom dourado de velhas lembranças. Nela encontrei uma poesia silenciosa nas anotações antigas, onde o passado sussurra através do papel envelhecido, o rastro visível do tempo eternizando o invisível da alma.

Descobri nela que tempo muda a cor do papel, mas purifica a essência daquilo que foi escrito com o coração. Papai era movido pelas emoções do seu coração derretido pelos filhos. Com suas linhas tortas em páginas amarelas nos deu os mapas que mostram de onde viemos e quem costumávamos ser. Revisitar anotações antigas do meu pai foi como abrir uma cápsula do tempo feita de celulose, tinta e saudade.

Cada mancha do tempo na caderneta do meu pai é o eco de um coração que insistiu em registrar a vida antes que ela virasse vento, um mapa de afetos que o tempo não conseguiu apagar. É como abrir uma janela para o peito de alguém que o tempo já levou, mas que a escrita dele eternizou.

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