As pequenas coisas que nos seguram no mundo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC  –  Naquela tarde, entrei na padaria com o cansaço de quem passou o dia inteiro respondendo perguntas e terminou sem encontrar uma palavra que servisse para si mesmo, enquanto a cidade recolhia das calçadas os últimos pedaços de sol e as pessoas voltavam para casa carregando sacolas, preocupações e alguma esperança embrulhada entre as compras. Eu procurava o dinheiro no bolso, distraído com essas ausências que às vezes caminham conosco e sabem de cor o endereço de todas as nossas tristezas, quando a moça do balcão ergueu um pequeno pacote e disse que havia separado o pão de que eu gostava, porque ele estava acabando e ela estranhara a minha demora. Disse aquilo enquanto ajeitava outros sacos sobre a bancada, com a naturalidade de quem ignora que suas mãos acabam de tocar uma região dolorida da vida de alguém, e eu, que trazia tantas palavras guardadas, só consegui agradecer, receoso de que a voz denunciasse o que meus olhos já não sabiam esconder.

Fiquei alguns instantes diante dela, tentando acomodar dentro de mim aquela notícia tão pequena, a notícia de que alguém havia percebido que eu ainda não chegara. A moça conhecia apenas meu rosto, o horário aproximado das minhas visitas e aquela preferência tão modesta por um pão mais tostado, mas, enquanto eu atravessava as horas convencido de que minha presença pouco alterava o desenho do dia, ela reservara alguma coisa para mim. Talvez tivesse olhado para a porta quando a fornada começou a diminuir, talvez houvesse pensado que eu me atrasara no trabalho, e essa possibilidade me comoveu de uma maneira para a qual eu não estava preparado. Existia, do outro lado da rua que eu percorria quase sem enxergar, uma pessoa capaz de me incluir na sua tarde, de guardar entre tantas encomendas um pacote que ficaria à minha espera.

Saí levando o pão junto ao peito, e o calor atravessou o papel com uma delicadeza que me fez diminuir os passos, como se eu precisasse proteger da pressa aquilo que acabara de receber. Na esquina, um ônibus passou levantando poeira, alguém chamou uma criança pelo nome, uma porta de ferro desceu com estrondo, e, no meio daqueles ruídos, lembrei-me da cozinha de minha mãe, onde sempre parecia restar alguma coisa para quem chegasse depois. Ela podia estar cansada, podia trazer nas costas um dia de afazeres e nos olhos uma preocupação que nós, filhos, demorávamos a compreender, mas, quando eu entrava, suas mãos encontravam um prato e sua voz me perguntava se eu já tinha comido. Hoje penso no tempo que ela gastava cuidando para que a comida não esfriasse, no ouvido atento ao portão, naquele pequeno adiamento do próprio descanso até ter certeza de que eu estava em casa.

Durante muitos anos, sentei-me àquela mesa acreditando que as mesas, as mães e os lugares reservados aos filhos pertenciam à ordem permanente das coisas, como o chão debaixo dos pés, e comi sem perceber que também me alimentava de um trabalho silencioso contra a minha solidão futura. A gente cresce, aprende o nome de cidades distantes, atravessa aeroportos, conhece pessoas que parecem capazes de mudar a nossa história, mas continua sem aprender a olhar demoradamente para quem põe um prato diante de nós. Eu gostaria de voltar a uma dessas noites sem importância, uma noite em que nada aconteceu além do jantar, para reparar melhor no rosto de minha mãe enquanto ela me ouvia, para não me levantar tão depressa, para perguntar se também estava cansada e se queria que eu ficasse mais um pouco. Trocaria tantas horas que julguei extraordinárias por aquela cozinha acesa e pelo direito de demorar à mesa.

Continuei andando, com a impressão de que o pacote pesava mais agora, embora contivesse os mesmos poucos pães, e pensei nas pessoas que atravessam os dias sem ouvir uma pergunta cuja resposta alguém esteja disposto a esperar. Pensei no homem que leva tempo demais escolhendo uma fruta porque ainda não deseja voltar para o apartamento, na mulher que puxa conversa na fila e se desculpa por falar tanto, nos velhos que se vestem cedo para uma visita que talvez só venha no domingo seguinte. Todos eles têm uma história que não cabe naquele instante em que os julgamos demorados, inconvenientes ou distraídos, e talvez alguns tenham saído de casa apenas para oferecer ao acaso a possibilidade de lhes dirigir a palavra. Eu próprio, naquela tarde, comprara pão e recebera uma espécie de abrigo, pequeno o suficiente para caber entre as mãos, necessário o bastante para mudar meu caminho de volta.

Não era a primeira vez que alguém me fazia um bem assim, mas certas dores nos deixam tão ocupados com o que perdemos que já não reconhecemos o cuidado quando ele chega usando roupas comuns. Lembrei-me de um amigo que certa vez me ligou sem assunto e permaneceu comigo até que o assunto aparecesse, de uma pessoa que percebeu meu silêncio numa mesa cheia e, ao se despedir, apertou meu ombro por um instante a mais, de tantas presenças que me ajudaram a atravessar períodos dos quais hoje recordo sobretudo o sofrimento. Senti vontade de procurá-las, de corrigir ao menos um pouco aquela ingratidão involuntária da memória, que conserva com tamanha nitidez a palavra que feriu e deixa se apagarem as vozes que nos acompanharam até a dor ceder. Algumas dessas pessoas ainda estavam ao alcance de uma chamada, e essa constatação me trouxe uma urgência tranquila, quase uma vergonha de ter esperado tanto.

Quando abri a porta de casa, o silêncio habitual me recebeu, mas eu ainda trazia nos ouvidos a voz da moça dizendo que estranhara minha demora, e por isso acendi a luz da cozinha antes de qualquer outra coisa. Coloquei os pães sobre a mesa, tirei um prato do armário e fiquei olhando para o telefone, onde se acumulavam conversas interrompidas por promessas de nos falarmos com mais calma. Era curioso perceber quantas vezes eu escrevera aquela promessa, como se a calma fosse uma estação futura à qual todos chegaríamos juntos, com saúde, disponibilidade e o mesmo número de pessoas para abraçar. Procurei o nome de um amigo com quem não falava havia meses, alguém de quem eu gostava e a quem vinha oferecendo, sem querer, apenas os restos de um tempo que nunca sobrava, e apertei o botão antes que outra desculpa me convencesse a deixar para amanhã.

Ele atendeu depois de alguns toques, com uma surpresa que logo se transformou em preocupação, perguntando se estava tudo bem, se havia acontecido alguma coisa, e me entristeceu um pouco saber que o nosso afastamento tornara o afeto inesperado a ponto de parecer anúncio de uma notícia ruim. Respondi que estava em casa, que acabara de comprar pão e me lembrara dele, e então ouvi sua respiração do outro lado, aquele breve silêncio em que duas pessoas procuram o caminho de volta a uma intimidade que o tempo cobriu de folhas. Aos poucos, vieram as perguntas, as notícias da família, uma lembrança que cada um guardava de um jeito, até que sua voz recuperou uma liberdade antiga e ele me contou que vinha atravessando dias difíceis. Escutei sem olhar as horas, sentado diante do pacote aberto, enquanto a noite crescia na janela e o pão perdia o calor.

Quando ele perguntou se eu tinha mesmo tempo para ouvir o restante, puxei a cadeira para mais perto da mesa e pedi que continuasse, porque eu queria saber. Sua voz foi ficando menos cautelosa, como se finalmente pudesse pousar em algum lugar aquilo que carregara durante o dia inteiro, e eu permaneci ali, acompanhando cada palavra, com uma das mãos sobre o papel da padaria. Lembrei-me de minha mãe à espera do barulho do portão, da comida guardada, da moça que reservara meus pães, e, enquanto meu amigo falava, parti um deles devagar, recolhendo com os dedos as migalhas que caíam sobre a mesa. Mais tarde, quando ele disse que ainda não havia jantado, olhei para o que restava no pacote e perguntei se queria vir, pois eu podia passar um café e ficaria esperando.

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