Prometem caneta a um povo que não tem comida
João Campos e Marília Arraes colocaram a caneta no centro da campanha. Nenhum dos dois colocou a comida. A pergunta que fica é simples e incômoda, e a resposta diz mais sobre a eleição do que sobre o remédio.
Uma médica gravou um vídeo analisando a promessa das canetas emagrecedoras e disse, em resumo, três coisas que merecem ser ouvidas com calma. A primeira é que a obesidade é uma doença grave, comparável a um câncer, e que não se distribui remédio para doença grave sem programa de tratamento. A segunda é que o remédio exige sobrecarga de proteína, e que a população brasileira é mal alimentada e não tem como comprar carne. A terceira é que a caneta no SUS não vai chegar, porque quem tem diabetes já não encontra insulina e quem precisa de um vidro de dipirona passa constrangimento.
Ela fez essa análise olhando para o anúncio federal. Mas o raciocínio não pertence a partido nem a Brasília. Transportado para Pernambuco, ele morde exatamente onde a campanha local dói.
O remédio exige carne. O povo não tem carne.
Esse é o ponto que a médica coloca no centro e que a campanha de João Campos e Marília Arraes não menciona em nenhum momento. O tratamento com esse tipo de medicamento reduz o apetite e, para funcionar sem destruir o corpo, exige de 1,2 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso por dia, com acompanhamento de nutricionista, treino de resistência e exames periódicos. Isso não é um detalhe do tratamento. É a condição para que ele não faça mal.
Pernambuco tem 35,3 por cento dos seus domicílios em insegurança alimentar, o quinto pior índice do país, segundo o IBGE. Entre as famílias de menor renda, sete em cada dez vivem essa situação de forma moderada ou grave. Uma em cada quatro crianças pequenas do estado tem anemia, o que mostra que o problema não é apenas a quantidade de comida, é a qualidade. A pergunta da médica cabe inteira aqui: como é que essa população compra carne.
A resposta é que não compra. E o efeito disso está descrito na própria análise. Quem usa o remédio sem proteína suficiente perde massa muscular, fica sem energia, fica sem vitamina, e a médica lembra que o cansaço profundo e a depressão aparecem exatamente por aí. Entre trinta e quarenta por cento do peso perdido com esse tipo de medicamento pode ser músculo, não gordura. Numa população que já come mal, o resultado é uma pessoa que emagrece na balança e enfraquece na vida.
Anunciar uma caneta que corta a fome para quem não tem comida não é uma política de saúde. É uma promessa que funciona no palanque e adoece na casa.
O SUS de Pernambuco não dá dipirona. Vai dar caneta.
A médica diz, com todas as letras, que ninguém vai tirar caneta emagrecedora do SUS, e a razão que ela dá é a mais concreta de todas. Quem tem diabetes não acha insulina na rede pública. Para conseguir um vidro de dipirona, o paciente passa por um constrangimento sem tamanho. Se o básico falta, o sofisticado não chega.
Isso deveria ser dito em cada palanque. Não existe protocolo clínico para obesidade no SUS, e sem protocolo não existe critério, não existe fila e não existe direito. A decisão que autorizaria o medicamento foi adiada e ficou para depois do primeiro turno. O anúncio dos dois candidatos, portanto, não entrega um remédio. Entrega a expectativa de um remédio, criada por quem não tem o poder de produzi-lo no sistema público nem de autorizá-lo.
E há o que a médica chama de ausência de programa. Onde estão as camas para pacientes obesos nos hospitais pernambucanos. Onde está o atendimento preparado para receber quem se interna com esse diagnóstico. Quantos nutricionistas existem hoje na rede estadual para acompanhar cada paciente que receberia a injeção. Nenhum desses números foi apresentado junto com os 100 milhões de reais da nova planta do Lafepe. Prometer a ponta de um programa sem construir o meio dele é o modo mais antigo de enganar eleitor.
Então por que eles não prometem comida?
Aqui está a pergunta que o eleitor deveria fazer em voz alta, e a resposta é política, não técnica.
Comida não dá foto. Uma promessa de garantir três refeições por dia para quem não tem nenhuma não tem produto com marca, não tem nome popular, não tem celebridade usando, não tem novela na televisão. Ela tem outra coisa, que nenhum candidato quer: ela obriga quem promete a admitir, publicamente e na frente da câmera, que hoje falta comida. Prometer caneta é dizer que o povo vai receber o que os ricos recebem. Prometer comida é dizer que o povo passa fome. A primeira frase elege. A segunda constrange.
Existe também o que a médica chama de lobby, e que ela resume dizendo que a caneta chega ao governo quando alguém encontra um caminho para vender o produto ao poder público. Não é preciso supor ilegalidade para enxergar o movimento. É um mercado novo, bilionário, que depende de compra pública para crescer, e que encontrou na eleição o seu melhor veículo de propaganda. O contribuinte paga a conta duas vezes, uma como paciente e outra como anunciante.
E existe a razão mais direta de todas, que é a que a médica chama pelo nome. É comprar voto. Comprar o voto de quem está acima do peso, comprar o voto de quem ouviu falar da caneta, comprar o voto de quem acredita que a solução chegou de graça. Quando uma promessa escolhe exatamente o público mais vulnerável e oferece a ele o produto mais desejado do momento, o alvo não é a doença. É a urna.
O que os dois estão escondendo
Escondem que a decisão não é deles. A autorização do medicamento está numa comissão federal, com reunião marcada para depois da votação, e em setembro do ano passado essa mesma comissão recomendou não incorporar o remédio por causa do custo e da falta de clareza sobre o tempo de uso. Escondem que o estado anuncia 100 milhões de reais e não diz quem paga a diferença, num cenário em que o custo estimado de incorporação é de bilhões em cinco anos.
Escondem o custo humano, que é o mais grave. Um paciente que começa esse tratamento e depois fica sem ele tende a recuperar o peso perdido, e não recupera o músculo que perdeu. Sai mais frágil do que entrou. Prometer uma doença crônica tratada por um fornecimento incerto é prometer um problema novo para quem já tinha um.
E escondem, sobretudo, a troca que fizeram. Ao escolher a caneta como bandeira, os dois candidatos retiraram do centro da campanha a única pergunta que define a vida de um terço dos lares pernambucanos, que é como colocar comida suficiente, variada e de qualidade na mesa todos os dias. Se a caneta entra no lugar da comida, o que sai da agenda é a comida. A fome continua exatamente onde estava, agora com um nome técnico, uma marca registrada e dois candidatos sorrindo ao lado da caixa.
Se a solução fosse boa para o povo, o compromisso seria de três refeições por dia. Como o compromisso é de uma injeção, o que está sendo comprado não é a saúde de Pernambuco. É o voto de quem tem fome, pago com um remédio que talvez nunca chegue.
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