O último brilho terno do mármore. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – A tarde no Recife Antigo tem uma preguiça que só os paralelepípedos molhados pelo calor entendem, e é nessa hora em que o sol se derrama pelas frestas das janelas coloniais que o velho boteco da esquina acende suas lâmpadas amareladas como quem acende uma lembrança. A mesa de mármore, aquela que fica rente à calçada e já viu tantos copos de cana suarem sobre sua superfície fria, estava ali, imóvel, com suas bordas lascadas que mais parecem rugas de um ancião que se recusa a contar seus segredos, e foi sobre ela que meus olhos encontraram o homem de cabelos já pintados de sal e gestos contidos, sentado sozinho, com as mãos envoltas em torno de um copo cujo líquido permanecia intocado enquanto seus dedos traçavam círculos lentos sobre o mármore gasto. Não havia pressa em seus movimentos, e não havia também aquela tristeza vulgar que se vê nos bares quando alguém bebe para esquecer, havia sim uma quietude de quem está em missão, de quem voltou a um lugar sagrado para rezar com os olhos, e foi nessa quietude que eu me permiti observar, não por curiosidade malsã, mas por aquela intuição que nos avisa quando estamos diante de uma história que merece ser ouvida.
Ele parecia esperar alguém, mas a espera nele não tinha o desespero de quem ainda acredita no encontro, tinha a serenidade de quem já aprendeu que o amor verdadeiro não precisa da presença física para continuar batendo no peito, e foi justamente essa serenidade que me fez aproximar e pedir licença para sentar à mesma mesa, um gesto que ele recebeu com um aceno de cabeça que valia mais do que qualquer palavra, como se a solidão compartilhada fosse melhor do que a solidão absoluta. O garçom, um senhor negro de olhos cansados e mãos calejadas pelo tempo, trouxe-lhe um segundo copo sem que ele pedisse, e foi nesse gesto de intimidade que entendi que aquele homem era um frequentador antigo, daqueles que o boteco já incorporou à sua própria alma, e foi então que ele, sem tirar os olhos do mármore, começou a falar, não para mim, mas para a pedra que testemunhava sua história, como se o mármore fosse o único confessionário capaz de absolver os anos perdidos.
Ele contou que, quarenta anos atrás, naquela mesma mesa, ele e uma moça de vestido azul e sorriso de frevo haviam selado o amor mais bonito que suas vidas poderiam conhecer, e que o mármore, naquela época, era liso e brilhante como a superfície do mar em dia de calmaria, exatamente como os olhos dela quando ela olhava para ele por cima das bordas do copo. Eles eram jovens e tolos, disse ele com um sorriso que não alcançou os olhos, e a tolice deles era achar que o amor bastava para vencer o mundo, mas o mundo, esse velho senhor de garras afiadas, tinha outros planos para eles, porque a família dela exigia que ela partisse para a Europa em busca de estudos e de um futuro que o Recife, naqueles anos, não podia oferecer a uma mulher de sua posição, e ele, filho de um pescador e neto de um operário, não tinha nem o dinheiro da passagem para acompanhá-la, muito menos o orgulho de pedir que ela abrisse mão de seus sonhos por um amor que ainda não tinha provado seu valor.
A despedida deles aconteceu exatamente naquela mesa, numa noite em que a lua parecia ter descido para beber com eles a última cana, e ele se recorda até hoje do cheiro do mar que entrava pela porta aberta e se misturava ao perfume de jasmim que ela usava, uma combinação que até hoje, quarenta anos depois, faz seu coração disparar quando algum vento mais ousado lhe traz essa lembrança olfativa. Ela pegou as mãos dele sobre o mármore frio e disse que o amava, que o amaria para sempre, mas que precisava ir, e ele, com a garganta apertada e os olhos marejados, respondeu que a amava tanto que preferia vê-la feliz longe dele do que vê-la infeliz ao seu lado, e foi nesse instante que eles fizeram um pacto silencioso, um pacto que nenhuma palavra poderia quebrar, e se beijaram com a intensidade de quem sabe que aquele era o último beijo, mas também com a doçura de quem sabia que aquele beijo atravessaria os continentes e os anos como uma mensagem em uma garrafa que nunca afunda. Ele a levou até o cais na manhã seguinte, e quando o navio se afastou e ela acenava do convés com um lenço branco, ele sentiu que algo se partia dentro de si, mas não era o amor, era apenas a forma física do amor, porque a essência, aquela coisa etérea e indestrutível, ficou plantada ali, no peito dele, como uma árvore de raízes profundas que nem o tempo mais severo consegue arrancar.
Ele nunca mais a viu, e soube por cartas esporádicas que ela se casou com um diplomata e teve filhos, e que a vida dela foi confortável e segura, mas ele sempre soube, por uma intuição que o amor concede aos seus fiéis devotos, que o coração dela guardava um quarto vazio exatamente com a decoração daquele boteco, com a luz amarelada e o cheiro de cana e jasmim, e que nesse quarto ela também sentava para lembrar dele nos dias em que a solidão batia à porta da mansão europeia. Ele, por sua vez, nunca se casou, não por falta de oportunidades ou de afeto, mas porque seria desonesto entregar a outra mulher um coração que já estava ocupado por inteiro, um coração que aprendera a viver na saudade como quem vive em uma casa antiga e confortável, onde cada móvel é uma memória e cada janela é uma lembrança do rosto amado. Ele conta que voltou a esta mesa em todos os aniversários da partida dela, não com a expectativa de reencontrá-la, mas com a necessidade de reafirmar para o mármore que o amor ainda está ali, pulsante e vivo, e que a distância não é uma medida geográfica, mas uma condição da alma, e que a alma dele, por mais que os anos tivessem enrugado sua pele e embranquecido seus cabelos, continuava tão jovem e apaixonada quanto naquela noite em que ela segurou suas mãos sobre a pedra fria.
O garçom trouxe mais dois copos de caldo de cana, e o homem pegou um deles e ergueu para o céu, num brinde silencioso que eu entendi ser dedicado a ela, onde quer que ela estivesse naquele momento, e foi então que ele tirou do bolso interno do paletó uma fotografia desbotada, onde uma moça de vestido azul e sorriso de frevo posava ao lado de um rapaz de cabelos negros e olhos cheios de futuro, e ele colocou a fotografia sobre o mármore, exatamente no centro, como quem coloca uma vela em um altar, e eu pude ver que o mármore, naquele ponto específico, tinha um brilho diferente, um brilho que não vinha da luz do poste nem do reflexo do copo, mas que parecia vir de dentro da própria pedra, como se o material tivesse absorvido ao longo dos anos a energia daquele amor e agora a devolvesse em forma de um lampejo dourado. O homem olhou para mim, e seus olhos estavam secos, mas havia neles uma umidade profunda que não era lágrima, era a própria essência da emoção contida, e ele disse que aquela fotografia o acompanhava todos os dias e que, todas as noites, antes de dormir, ele beijava o rosto da moça e pedia a Deus que a abençoasse, porque amar alguém, mesmo na distância, mesmo no silêncio, mesmo na ausência total de contato, é a forma mais pura de manter a chama acesa, é a forma de dizer que o amor não exige posse, exige apenas fidelidade, e ele foi fiel, tão fiel que o mármore daquela mesa se tornou a testemunha de uma devoção que poucos santários poderiam igualar.
Quando ele se levantou para ir embora, já com a noite instalada sobre o Recife e os primeiros tambores do frevo ecoando ao longe, ele guardou a fotografia de volta no bolso, pagou a conta com uma nota antiga que parecia guardada há décadas, e antes de virar as costas para a mesa, ele passou a mão sobre a superfície do mármore com uma carícia tão terna que eu jurei ver a pedra estremecer sob seus dedos. Ele foi embora sem olhar para trás, e eu fiquei ali, sentado, olhando para aquele pedaço de pedra que agora parecia respirar, e entendi que o amor verdadeiro não acaba quando a pessoa vai embora, o amor verdadeiro se transforma em uma substância mais densa e mais resistente, uma substância que se aloja nos objetos e nos lugares e nos espera, paciente, até que a morte ou o reencontro venham buscar o que é seu. Eu levantei e, antes de pagar minha conta, toquei também o mármore com a ponta dos dedos, e senti um calor que não vinha do sol, um calor que vinha da história daquele homem e daquela mulher que, mesmo separados por oceanos e por décadas, continuavam amando um ao outro com a intensidade dos primeiros dias, e eu saí do boteco com a certeza de que o Recife é feito desses amores silenciosos que não cabem em crônicas, mas que precisam ser contados para que o mundo não se esqueça de que o coração humano é um oceano onde os navios partem, mas as âncoras, essas ficam para sempre no fundo, firmes e brilhantes, esperando o dia em que as marés do destino as tragam de volta à superfície.
Share this content:




Publicar comentário