Os escritores invisíveis. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Escrever é a única profissão em que o silêncio conta como hora trabalhada.Escrever é uma das mais antigas tentativas do ser humano de impedir que o tempo tenha sempre a última palavra. Desde que alguém descobriu ser possível guardar uma lembrança, registrar um afeto ou confiar uma esperança ao papel, escrever deixou de ser apenas um exercício da linguagem para tornar-se um gesto de permanência. Talvez por isso o Dia do Escritor nos convide, todos os anos, a celebrar aqueles que transformam palavras em livros, artigos, poemas e crônicas. A homenagem é justa. Mas, quanto mais a vida me ensina, mais me convenço de que ela ainda está incompleta.
Durante muito tempo também pensei que escritor fosse apenas quem publicava livros ou ocupava uma cadeira diante de uma folha em branco para enfrentar o silêncio das palavras. Hoje já não penso assim. Descobri que a vida está cheia de escritores invisíveis. Homens e mulheres que jamais assinaram um romance, nunca conheceram uma editora e talvez nem imaginassem que escreviam. Ainda assim, deixaram páginas inteiras gravadas na memória de quem teve o privilégio de encontrá-los.
A primeira escritora que conheci foi minha mãe. Ainda hoje, quando procuro a origem das palavras que mais permaneceram em mim, encontro a sua voz, a sua letra e a delicadeza com que transformava os gestos mais simples em manifestações de amor. Num velho caderno de receitas, ela parecia registrar apenas ingredientes, medidas e o tempo do forno. Hoje sei que escrevia muito mais do que isso. Escrevia a memória da nossa família, o perfume dos almoços de domingo, o café repartido sem pressa, o riso dos filhos, a generosidade da mesa sempre posta e uma forma de amar que nem o tempo conseguiu apagar. O caderno envelheceu. A tinta perdeu um pouco da cor. Mas o afeto continua perfeitamente legível.
Também me lembro da professora que segurava a mão de uma criança enquanto ela desenhava, pela primeira vez, as letras do próprio nome. Talvez ela acreditasse que ensinava apenas o alfabeto. Não ensinava. Naquele instante ajudava um pequeno ser humano a descobrir que também podia ocupar um lugar no mundo. Existem nascimentos que acontecem na maternidade. Outros acontecem diante de um caderno aberto, quando alguém percebe que já é capaz de escrever o próprio nome e, sem saber, começa a escrever a própria história.
Entre esses escritores invisíveis, guardo um carinho especial pelo velho projecionista dos cinemas do interior. Enquanto todos aguardavam ansiosos que as luzes se apagassem, ele subia silenciosamente para a cabine de projeção, conferia a película, ajustava a máquina e esperava o momento exato de acender a luz. Pouca gente conhecia o seu rosto. Quase ninguém pronunciava o seu nome. No entanto, bastava que o feixe luminoso atravessasse a pequena janela da cabine para que uma cidade inteira começasse a sonhar. Quantos amores nasceram durante uma sessão de Dio, come ti amo? Quantas lágrimas desceram discretamente diante de Romeu e Julieta? Quantas jovens saíram daquele cinema levando no coração uma esperança nova, enquanto tantos rapazes descobriam que o amor também podia ter o rosto da coragem? Enquanto todos olhavam para a tela, aquele homem permanecia escondido atrás da luz. Nunca apareceu na história que ajudava a contar. Mas escreveu emoções inesquecíveis na vida de muita gente.
Penso também no velho carteiro, que caminhava de rua em rua carregando uma bolsa de couro repleta de cartas. Dentro daqueles envelopes viajavam pedidos de casamento, notícias aguardadas durante meses, fotografias enviadas por filhos distantes, palavras de amor, promessas de reencontro, despedidas e esperanças. Bastava o som da bicicleta dobrando a esquina para que muitas casas respirassem de maneira diferente. Havia quem corresse até o portão tomado pela alegria da expectativa. Havia quem permanecesse imóvel, tomado pelo receio da notícia que poderia chegar. O carteiro não escrevia aquelas cartas. Mas fazia parte de todas elas. Sem jamais violar um segredo, conduzia a alegria de uns, a saudade de outros e, às vezes, a dor que mudaria uma família para sempre. Poucos ofícios conheceram tão de perto a intimidade humana sem nunca pedir lugar dentro dela.
Talvez seja esse o maior equívoco que cometemos ao pensar na escrita. Imaginamos que apenas as palavras escrevem. Não. Os gestos também escrevem. Um abraço pode permanecer vivo por muito mais tempo do que um discurso inteiro. Um perdão pode salvar uma existência sem precisar de nenhuma página. Existem despedidas entre pessoas que continuam se amando e para as quais nenhuma frase jamais será suficiente. Quando isso acontece, o silêncio começa a escrever aquilo que a voz já não consegue dizer. A cadeira que permanecerá vazia, a fotografia sobre a estante, uma xícara esquecida na cozinha, um perfume que ainda insiste em morar numa roupa guardada, tudo continua escrevendo aquela história quando já não existe mais ninguém para narrá-la.
Talvez seja por isso que penso menos na profissão de escritor e muito mais na escrita da própria vida. Os livros são indispensáveis. Eles preservam ideias, iluminam consciências e impedem que muitas verdades desapareçam. Mas existem escrituras que nunca caberão entre duas capas. São aquelas que um pai grava no caráter do filho, que uma mãe deixa na delicadeza dos seus gestos, que um mestre deposita na inteligência de um aluno, que um amigo escreve na coragem do outro quando a esperança parece querer desistir.
No fim das contas, talvez ninguém seja lembrado apenas pelos livros que publicou ou pelos textos que escreveu. Seremos lembrados, sobretudo, pelas palavras que devolveram ânimo, pelos gestos que impediram uma desistência, pelas presenças que aliviaram uma dor e pelos afetos que permaneceram quando tudo o mais parecia destinado ao esquecimento.
Talvez essa seja a mais bonita definição de escritor que a vida um dia me ensinou: escritor não é apenas quem escreve livros. É todo aquele que, sem perceber, escreve um pouco de si no coração de alguém.
E enquanto existirem pessoas capazes de deixar esse tipo de escrita na vida dos outros, o tempo jamais conseguirá apagar por completo aquilo que realmente importa.
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