Escritor: O trabalhador do silêncio. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc –  Escrever é a única profissão em que o silêncio conta como hora trabalhada.

Nenhum escritor ignora o ritual de sentar diante da folha e pressentir que aquele retângulo vazio contém tudo o que ainda não se disse e talvez nunca se diga com a inteireza que a vida cobra. O escritor não é dono das palavras; é o que aceita, todos os dias, o risco de ser traído por elas. A palavra chega sempre atrasada para o que sentimos, e escrever é essa perseguição incansável, quase absurda, de alcançar com tinta o que o coração já viveu em silêncio muito antes.

Neste dia em que se celebra o ofício, vale lembrar que ninguém se torna escritor por vaidade. Torna-se escritor por uma incapacidade incurável de viver sem examinar o que viveu. Existe quem atravesse o mundo e o mundo escorre por ele como água em superfície lisa, sem deixar vestígio. O escritor é o avesso disso. Nele, cada gesto alheio, cada palavra ouvida na fila do mercado, cada silêncio mal disfarçado numa mesa de família se deposita como sedimento. Até que um dia, sem aviso, sobe à superfície e pede nome. Escrever, no fundo, é essa obrigação silenciosa de batizar o que os outros preferem esquecer.

Houve um tempo em que escrever parecia coisa de quem tinha horas sobrando, um luxo de quem podia se dar ao prazer de ficar diante de um caderno enquanto a vida prática pedia outras urgências. Foi preciso se render ao ofício para entender que escrever não é o oposto de viver. É a forma mais honesta de habitá-lo. Quem escreve não foge do mundo. Mergulha nele com o pulmão mais fundo e a respiração mais controlada, porque sabe que precisará trazer alguma coisa de lá de baixo antes de voltar à superfície.

O escritor vive de uma matéria estranha, que não se compra nem se ensina inteiramente em escola nenhuma: a atenção. Atenção ao modo como a luz entra pela janela às cinco da tarde e muda de cor sem que ninguém perceba. Atenção ao jeito como um velho segura o guarda-chuva antes de a chuva começar, como se soubesse de algo que o céu ainda hesita em confirmar. Atenção à voz que treme ao telefone, mesmo quando a pessoa jura que está tudo bem. O mundo está cheio de sinais que a maioria atravessa apressada, achando que é apenas ruído de fundo. O escritor para. É dessa parada, desse instante de suspensão diante do banal, que nasce a página.

Existe também um preço para isso. Porque quem escreve carrega uma solidão que os outros não entendem bem, uma solidão que não é ausência de gente, mas excesso de escuta. É difícil explicar a quem não escreve que a escrita não é fuga da dor, é o único jeito encontrado de sobreviver a ela sem se render por completo. Escrevemos sobre pais que se foram cedo demais, sobre casas que carregamos dentro do peito mesmo quando já não existem em lugar nenhum do mundo, sobre mães que resistiram no silêncio quando resistir era a única forma possível de amor. Escrevemos não para explicar essas dores, mas para que elas deixem, finalmente, de nos possuir sozinhas.

Talvez por isso o escritor nunca termine de escrever o mesmo livro. Cada palavra nova é uma tentativa de reescrever a primeira ferida, com outra luz, outro ângulo, uma paciência que a própria escrita ensina. Existe quem pense que o escritor inventa histórias. Não é bem assim. O escritor decifra a própria história, devagar, ao longo de uma vida inteira, e o que os outros chamam de ficção é apenas o disfarce elegante que encontramos para dizer verdades que, ditas de frente, doeriam demais.

E ainda assim, apesar de tudo isso, existe uma alegria secreta em escrever, uma alegria que não se confunde com felicidade fácil, mas que sustenta o ofício quando tudo o mais parece pesado demais. É a alegria de encontrar, depois de muitas tentativas, a frase exata. Aquela que não sobra nem falta. Aquela que, lida em voz alta, soa como se tivesse sempre existido, esperando apenas que alguém tivesse a paciência de tirá-la do ar e pousá-la no papel. Quem já sentiu isso sabe que não há dinheiro nem elogio que substitua essa satisfação quieta, quase secreta, de ter dito, enfim, o que precisava ser dito.

Vivemos num tempo apressado, que celebra a velocidade e desconfia da demora. Escrever é um gesto contra essa pressa. É insistir que existe valor em parar, reler, cortar, refazer, buscar a palavra certa mesmo quando a errada já resolveria o parágrafo. Num mundo que fala demais e escuta de menos, o escritor é aquele que ainda acredita que as palavras merecem ser escolhidas com cuidado, porque cada uma delas vai morar na cabeça de alguém depois de lida, e essa hospedagem silenciosa é uma responsabilidade que não se deve tratar com leviandade.

Se você nunca escreveu nada além de uma lista de compras ou um bilhete apressado, talvez pense que este texto não fala com você. Mas fala. Porque todo mundo carrega dentro de si um escritor que não teve coragem de começar. Está ali a memória que você nunca contou, a carta que nunca enviou, o nome do avô que ninguém mais lembra de pronunciar. Escrever não pede talento extraordinário. Pede apenas a disposição de olhar para dentro sem pressa e a coragem de admitir que o que dói também merece ser dito com beleza.

No fim, ser escritor não é uma profissão que se escolhe pela manhã e se abandona à noite. É uma forma de estar no mundo, de atravessar os dias recolhendo o que os outros deixam cair pelo caminho. E quando a vida parecer curta demais para conter tudo o que vivemos, restará sempre essa certeza modesta e definitiva: enquanto houver alguém disposto a transformar silêncio em frase, a memória do mundo continuará tendo onde morar.

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