Hoje vivo no exílio de você. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Hoje vivo no exílio de você, e essa talvez seja a formulação mais exata, menos ornamental e mais cruel do que me aconteceu, porque não se trata apenas de ter ficado longe de alguém, nem de ter atravessado uma separação como tantas que o tempo, com seu ofício indiferente, costuma espalhar sobre a vida dos homens, mas de ter sido deslocado do único lugar afetivo em que a minha alma, sem alarde e sem teoria, havia finalmente aprendido a repousar com alguma inteireza, como se até então eu tivesse vivido em quartos provisórios de mim mesmo, em geografias interiores alugadas, em países emocionais onde a linguagem servia, os gestos serviam, os dias serviam, mas nada verdadeiramente me pertencia, até que você, sem saber e talvez sem querer, tornou habitável em mim uma região que eu ignorava existir.

Há um tipo de afastamento que não se mede em quilômetros, nem em calendários, nem nas pequenas pedagogias sociais que ensinam o mundo a chamar de fase aquilo que em certos espíritos se instala como condição definitiva, porque o amor, quando descoberto tarde, não chega como descoberta apenas, chega também como acusação, como leitura atrasada da própria vida, como súbita compreensão de que o essencial esteve diante de nós sem que tivéssemos, naquele momento, a lucidez necessária para reconhecê-lo em toda a sua gravidade. O que me fere, com uma delicadeza quase insuportável, não é somente o fato de você já não caber no meu presente, é saber que o nome verdadeiro do que eu sentia só me foi revelado quando já era inútil nomeá-lo, quando o coração, sempre mais lento que a vertigem e mais honesto que o orgulho, chegou atrasado ao próprio destino.

É estranho continuar vivendo depois de ter sido apartado da única pessoa diante de quem a existência, em vez de parecer uma sucessão de tarefas, assumia a forma mais rara de uma permanência interior. Não digo felicidade, porque essa palavra, de tanto uso, já não alcança certas regiões da experiência humana. Digo pertencimento, que é mais fundo e menos festivo, mais silencioso e mais decisivo. Havia em você uma espécie de chão moral do meu afeto, uma ordem secreta que reorganizava o meu modo de olhar o mundo, de escutar o rumor dos dias, de suportar o peso daquilo que em geral se suporta sem convicção. E o mais duro no exílio não é a lembrança do que se viveu, mas a mutilação discreta daquilo que a nossa presença junto de alguém era capaz de produzir em nós. Quando fui afastado de você, não perdi somente uma companhia, perdi também o homem que em sua presença deixava de ser dispersão e ensaio.

Talvez toda grande ruptura amorosa contenha um elemento político da alma, porque nos destitui de uma cidadania íntima, nos expulsa de um território onde nossos gestos tinham valor corrente e onde a linguagem não precisava pedir visto para atravessar o outro. Com você, até o silêncio era uma forma de residência. Havia repouso até nas pausas, porque nenhuma delas parecia ameaça, nenhuma delas parecia o prenúncio de um desencontro. Hoje, ao contrário, tudo em mim carrega a burocracia amarga do desenraizamento. Eu me movo, trabalho, falo, respondo ao mundo, cumpro as obrigações discretas que mantêm um homem aparentemente inteiro diante dos outros, mas por dentro experimento a estranheza de quem continua circulando por ruas conhecidas depois que sua verdadeira pátria foi riscada do mapa privado. Nada é exatamente hostil, mas nada mais me reconhece.

O mais severo dessa condição é que você continua existindo, respirando o mesmo tempo histórico, atravessando os mesmos meses, talvez olhando certas tardes com a mesma demora com que eu as olho, talvez ouvindo alguma canção sem saber que ela me devolve a você com a precisão de uma sentença, e, no entanto, essa continuidade da sua presença no mundo, em vez de consolar, aprofunda o desterro. Porque o amor suporta melhor a ideia do irreal do que a evidência do inacessível. O que me desconcerta não é o desaparecimento, é a permanência vedada. Você segue em algum ponto da vida, inteira em sua distância, concreta em sua impossibilidade, e eu preciso aprender, todos os dias, a disciplina quase absurda de coexistir com aquilo que não se perdeu de fato, mas já não pode ser alcançado por nenhuma fidelidade, nenhuma coragem tardia, nenhum arrependimento que tenha chegado depois da hora.

Há amores que terminam no instante em que acabam, mas há outros, e destes poucos se fala com a gravidade necessária, que apenas mudam de regime dentro de nós. Deixam de ser convivência e passam a ser clima, deixam de ser acontecimento partilhado e se tornam estrutura secreta do pensamento, deixam de ter casa no mundo e passam a ocupar, em nosso interior, um lugar sem jurisdição, onde nada pode ser resolvido porque nada, de fato, se encerrou. É por isso que o exílio amoroso é tão diferente da simples distância. A distância ainda supõe dois pontos do mapa. O exílio é mais fundo, porque altera o próprio sujeito da travessia. Não sou apenas alguém longe de você, sou alguém deslocado de si pela ausência do único encontro em que a própria identidade havia parado de vacilar.

Durante muito tempo, pensei que o erro maior de um homem fosse amar menos do que devia. Hoje suspeito que há erro mais devastador, que é compreender tarde demais a medida exata do que se amou. Existe uma hora para o reconhecimento, e quando essa hora passa, a verdade já não se transforma em redenção, mas em condenação silenciosa. Eu não ignorava que você me era importante, seria simplório dizer isso, como se o coração fosse incapaz de perceber a gravidade do que o atravessa. O que eu ignorava era o caráter absoluto da sua presença na minha arquitetura interior, a extensão com que você já havia se confundido com a ideia de casa, a forma como a minha vida, em seus compartimentos mais discretos, começava a se ordenar ao redor da sua existência. Descobrir isso tarde foi como voltar a um país depois de anos e perceber, na alfândega, que já não se possui documento válido para entrar.

Por isso certas memórias suas não me visitam como nostalgia, mas como jurisdição perdida. Não são recordações decorativas, dessas que o espírito abre em tardes sentimentais para confirmar a própria delicadeza. São matérias de constituição. Lembro da precisão de um gesto seu, da maneira como você inclinava o rosto para escutar, da inteligência calma com que certas frases saíam da sua boca sem a arrogância de querer parecer definitivas, e tudo isso não me enternece apenas, desorganiza-me com compostura, porque cada detalhe reabre a consciência de que aquilo que mais me afinava por dentro não me foi arrancado do mundo, apenas retirado do meu alcance. Essa é a forma mais difícil de lucidez, a que não permite fantasia, a que não oferece o consolo fácil da idealização, porque sabe que o real continua real, apenas inacessível.

Eu poderia dizer que sigo adiante, e em alguma camada superficial isso seria verdade, como são verdadeiras as estações, as contas pagas, as janelas abertas pela manhã, os compromissos aceitos por hábito ou necessidade. Mas a palavra seguir, quando usada por quem vive esse tipo de desterro, costuma esconder mais do que revela. O que se chama de continuidade, nesses casos, não é superação, é administração. Aprende-se a administrar o dia para que ele não desabe sobre a própria alma com todo o peso da evidência. Aprende-se a repartir a lembrança ao longo das horas como quem distribui uma febre para não queimar inteiro de uma vez. Aprende-se, sobretudo, que há dignidade também em não profanar o que foi grande com o vocabulário utilitário da recuperação. Nem todo amor precisa ser vencido para que a vida prossiga. Alguns apenas deixam de encontrar lugar onde pousar, e então permanecem em nós como aves sem chão, fatigadas e altivas, recusando tanto o esquecimento quanto o espetáculo.

O exílio de você não me tornou um homem amargo, o que já seria uma simplificação vulgar do sofrimento. Tornou-me mais atento ao modo como certas verdades chegam tarde e, por isso mesmo, chegam com um peso maior que o suportável. Há uma severidade quase ética em amar alguém na exata medida em que já não é possível recomeçar com essa pessoa a história que o coração, agora lúcido, sabe que deveria ter vivido de outra maneira. E talvez seja essa a forma mais adulta da dor, não a que grita, não a que se dramatiza, não a que pede ao mundo testemunho ou absolvição, mas a que se senta dentro de um homem com uma discrição irreversível e passa a olhar com os seus olhos.

Às vezes penso que a verdadeira crueldade do amor não está no desengano, mas no destempo. O destempo é a tragédia sem ruído dos sentimentos profundos. Não nos fere porque mente, fere porque chega certo quando já não serve. Você foi, para mim, a revelação madura daquilo que eu deveria ter compreendido antes, e viver depois dessa revelação é aceitar que a alma pode encontrar sua pátria quando já foi posta para fora dela. Desde então, carrego em mim essa duplicidade exausta e serena, estou no mundo e, ao mesmo tempo, fora do único lugar em que o mundo fazia sentido sem esforço.

Talvez seja isso que eu tenha tentado dizer desde o começo, ainda sem coragem para a frase inteira. Hoje vivo no exílio de você. Vivo, note bem, e é justamente nisso que a experiência se torna tão funda, porque continuar existindo não resolve o afastamento, apenas o prolonga em outra gramática. Há dias em que pareço adaptado, como certos estrangeiros que aprendem a língua local, conhecem os costumes, sorriem no momento oportuno e até conseguem ser gentis com a paisagem. Mas por dentro permanece intacto o sotaque da pátria perdida, essa inflexão íntima que não se corrige, esse modo antigo de reconhecer o mundo que só fazia pleno sentido quando a sua presença, ainda ao alcance, dava morada ao que em mim sempre esteve à procura de lugar.

E talvez algumas separações sejam justamente isso, não um encerramento, não uma página virada, não uma lição assimilada com nobreza, mas uma longa permanência fora daquilo que um dia nos abrigou por inteiro, como se o amor, tendo descoberto tarde demais seu nome verdadeiro, nos condenasse a continuar vivendo com a mala por dentro, sem partida possível e sem regresso.

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