O dia em que o abraço parou o tempo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Existe algo no gesto que antecede toda linguagem, que habita um território anterior às palavras e sobrevive intocado mesmo quando a memória começa a se desfazer como açúcar na chuva, e esse algo tem a forma de dois braços que se fecham ao redor de um corpo, tem o peso de um silêncio que ninguém precisou ensinar, tem o calor específico de uma promessa que não foi proferida em voz alta mas que todos nós, em algum momento de clareza verdadeira, já compreendemos como se fôssemos capazes de ler a mensagem escrita na própria carne do outro.

O abraço é um idioma, e como todo idioma verdadeiro, tem timbres, tem sotaques, tem entonações que mudam o sentido sem mudar a forma. O mesmo gesto dado por dois corpos diferentes diz coisas completamente distintas, como a mesma palavra pronunciada com afeto ou com ironia deixa de ser a mesma palavra, e entre o abraço curto de quem está com pressa e o abraço que não sabe quando terminar existe um vocabulário inteiro que a pele compreende antes que o pensamento organize qualquer interpretação. Não é um ornamento da relação humana, não é o laço decorativo que envolve o presente depois que o presente já está completo, mas é, ao contrário, a própria substância do que nos une, o idioma que aprendemos antes de aprender qualquer outro e que teimamos em esquecer à medida que o mundo nos vai convencendo de que o tempo é uma moeda escassa demais para ser gasta com paradas, com pausas, com o gesto lento de receber alguém nos braços como se aquele instante merecesse existir fora da corrente dos acontecimentos, suspenso e inteiro como uma gota que não decide cair.

O abraço é também um caminho, e como todo caminho, ele leva a algum lugar, atravessa território, prepara o corpo e o espírito para o que virá adiante. Existe nele uma estrada que alcança o beijo e o amor, não como atalho, mas como travessia necessária, porque o beijo que não passou pelo abraço tem uma qualidade diferente, como uma frase que começa no meio, sem o tempo necessário para que a confiança se instale, e o amor que não sabe abraçar com atenção é um amor que ainda não aprendeu a habitar o outro, que ainda confunde a intensidade com a profundidade e não percebe que profundidade é outra coisa, é lentidão, é permanência, é a capacidade de ficar. Quando dois corpos se abraçam com verdade, o que acontece entre eles não é apenas contato, é uma forma de negociação silenciosa, uma conversa conduzida inteiramente pela pele, em que cada ajuste de pressão e cada respiração que se acomoda no ritmo da outra é uma frase desse idioma antigo que todos falamos e poucos reconhecemos como linguagem.

Quando se pensa em tudo o que o homem moderno carrega, na velocidade que foi transformada em virtude e na distância que se tornou norma, é quase desconcertante perceber que o abraço persiste, que ele continua acontecendo nas plataformas de trem e nas salas de hospital e nos aeroportos onde as chegadas e as partidas se confundem como dois rios que dividem a mesma margem, e que ninguém precisou decretar o Dia do Abraço para que as pessoas sentissem a necessidade de se segurar umas às outras, embora talvez seja útil que um dia exista para nos lembrar de que a urgência cotidiana não nos autoriza a abandonar o que é fundamental.

Recordo a minha avó, que tinha nos braços uma força que a velhice não conseguiu diminuir, como se o afeto fosse capaz de conservar os músculos melhor do que qualquer exercício, e quando ela me abraçava na tarde de verão eu sentia que havia ali uma transferência de algo que não tem nome preciso na ciência, uma passagem de um estado para outro, como quando o ar frio de uma tarde de outono atravessa a janela aberta e reorganiza tudo dentro do quarto, os papéis, o cheiro, a disposição do espírito, e de dentro daquele abraço eu saía diferente, não transformado de modo visível, mas reorientado, como uma bússola que encontrou o norte depois de ter ficado girando sobre si mesma por muito tempo.

O que há de mais singular nesse idioma do corpo é a sua dimensão de consentimento, o abraço como um sim pronunciado com toda a carne, uma declaração em que dois corpos dizem ao mesmo tempo eu te quero em mim e eu em ti, e essa declaração não pode ser falsificada por muito tempo sem que o outro perceba, porque o abraço vazio é sentido quase de imediato, com aquela percepção imediata e um pouco triste de que os braços estavam lá mas a pessoa não estava, que o gesto aconteceu mas o idioma ficou mudo, que a forma existiu sem a substância que lhe dá sentido. É curioso que um gesto tão simples carregue tanto peso ontológico, que a simples sobreposição de dois corpos seja capaz de conter em si a noção inteira de pertencimento, de dizer ao outro que ele não está solto no universo, que existe pelo menos um ponto de ancoragem, pelo menos uma coordenada segura no mapa da existência, e que esse ponto é você, agora, aqui, neste momento que não precisa de nenhuma outra justificativa para existir além da sua presença e da minha.

O mundo que construímos na pressa tem medo do abraço, não de forma consciente, mas de um modo estrutural, como se o sistema inteiro soubesse que qualquer parada longa o suficiente para que dois corpos se toquem com verdade seria capaz de questionar tudo, de revelar que a velocidade não passa de uma forma sofisticada de evitar a pergunta mais simples de todas, que é a pergunta sobre o que de fato importa quando o barulho para, e o barulho sempre para, às vezes na beira de uma cama de hospital, às vezes num corredor escuro de madrugada, às vezes na claridade surpreendente de uma manhã comum em que o café esfria sobre a mesa e alguém que você ama está do outro lado da cozinha e você percebe, de repente, que nunca abraçou essa pessoa com a atenção que ela merecia, nunca falou com ela nesse idioma antigo com a fluência que o amor deveria ter ensinado.

O abraço tem memória, e essa memória é mais confiável do que qualquer arquivo, porque ela não está escrita em nenhum lugar que possa ser apagado, está inscrita na pele, está guardada no sistema nervoso como uma resposta que o corpo sabe dar mesmo quando a mente já esqueceu as circunstâncias, e é por isso que às vezes um abraço num momento de dor é capaz de destampar algo que estava lacrado faz anos, não porque quem abraça seja especial, mas porque o gesto em si porta uma verdade que antecede a identidade de quem o faz, uma verdade que é nossa antes de ser de qualquer pessoa em particular.

Neste dia que o calendário destina ao abraço, e que o calendário precisou criar precisamente porque a vida moderna o tornava raro o suficiente para merecer comemoração, o que me parece necessário não é o abraço performático, o gesto executado porque o dia assim determina, mas sim o abraço em que alguém para completamente, em que os ombros descem, em que a respiração encontra o ritmo do outro como dois rios que concordam em seguir na mesma direção, e nesse tipo de abraço o tempo não corre, o tempo simplesmente fica ali parado, olhando para nós com uma espécie de reconhecimento silencioso, como se soubesse que por um momento encontramos algo maior do que a pressa que ele costuma impor.

Não é pouca coisa, afinal, ser abraçado com atenção, sentir que os braços do outro disseram sim, que o corpo do outro disse aqui, que a presença do outro disse você importa e eu quero que você saiba disso através de algo mais antigo e mais verdadeiro do que qualquer palavra que eu poderia escolher, porque as palavras são belas e às vezes suficientes, mas o abraço é outra coisa, o abraço é o lugar para onde as palavras vão quando percebem que não são suficientes, e nesse lugar, finalmente, elas ficam em paz.

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