A luz que ela deixou acesa. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – O fim da tarde tem um modo particular de dourar as coisas, como se o sol soubesse que está de saída e quisesse, antes de ir, tingir o mundo com a cor mais generosa que conhece. Foi nessa hora, nessa claridade mansa que entra pelas janelas sem pedir licença e pousa sobre as mesas como quem não quer nada, que ele a viu pela primeira vez — sentada do outro lado do salão com aquela postura de quem aprendeu desde cedo a ocupar o espaço sem precisar chamar atenção, e com os olhos claros que puxavam para o verde, o tipo de olho que não pertence a nenhuma cor definitiva mas habita com elegância essa zona de imprecisão, como certos momentos da vida que não são alegria nem tristeza mas algo que fica entre os dois e é exatamente por isso que permanecem.
Ele não sabia ainda, naquele instante, que aquela tarde estaria entre as que a memória decide guardar com cuidado, como se soubesse antes de nós o que merece ser preservado do esquecimento. Apenas sentiu uma coisa indefinível, daquelas que o corpo registra antes de o pensamento formular, uma espécie de atenção que se acende por dentro sem que se saiba ao certo por quê, e que não tem nome preciso mas que qualquer pessoa que já passou por isso reconheceria imediatamente se lhe perguntassem.
Ela era elegante da maneira mais bonita que a elegância pode ser, não aquela elegância construída e vigiada de quem teme escorregar, mas a elegância de quem simplesmente é assim, de quem carrega a própria presença com leveza, como se não custasse nada ser daquela forma, e talvez não custasse mesmo, ou talvez custasse muito e ela tivesse aprendido a não mostrar o esforço, que é uma das formas mais sofisticadas de beleza que existem. Havia nela também uma doçura que não era ingenuidade, mas sim aquela qualidade rara das pessoas que chegaram à gentileza por escolha e não por falta de conhecer o mundo em sua aspereza, que conhecem bem a dureza das coisas e ainda assim decidem ser suaves com as pessoas que encontram pelo caminho.
A conversa começou da forma mais simples, como começam as conversas que depois se revelam extraordinárias, sem que nenhum dos dois pudesse saber no primeiro minuto que aquelas palavras iniciais eram o vestíbulo de algo que duraria horas e deixaria um rastro longo. Ela era inteligente do jeito que mais importa, não a inteligência que exibe a si mesma e que cansa, mas aquela outra, mais rara, que sabe ouvir com a mesma qualidade com que fala, que pergunta de verdade, que se interessa pelo que o outro diz sem que isso seja performance, que habita a conversa com uma presença completa que hoje em dia se tornou quase um luxo, porque o mundo ensinou as pessoas a estarem sempre em dois lugares ao mesmo tempo e ela parecia ter recusado essa lição. Falavam e o restaurante em volta deles ia perdendo importância gradualmente, como cenário que cumpre sua função mas que ninguém mais precisa ver depois que o que acontece no palco é suficientemente bom.
As horas passaram com aquela velocidade traiçoeira que o tempo reserva para os momentos em que estamos realmente presentes, essa crueldade gentil que ele tem de correr exatamente quando gostaríamos que andasse devagar, como se soubesse o valor daquilo que está acontecendo e cobrasse por isso na moeda mais escassa que existe. O garçom reaparecia de tempos em tempos com a discrição dos que aprenderam a ler o ambiente, trazendo o que precisava ser trazido e retirando o que precisava ser retirado sem interromper o fio invisível que se havia formado entre os dois, esse fio que não tem peso nem cor mas que se percebe quando existe e se percebe mais ainda quando rompe.
Em determinado momento ela disse que precisava resolver pequenas coisas do lado de fora, coisas da vida ordinária que não param porque a tarde está bonita e a conversa está boa, e que queria comprar doces para levar para a filha que a esperava em casa, e havia ternura real nessa explicação, a ternura de quem menciona a filha não como desculpa mas como parte natural de si mesma, como quem diz sem dizer que tem uma vida inteira além dali e que essa vida inteira merece os doces certos. Disse que voltaria. Disse isso com a naturalidade de quem não precisa jurar porque não imagina que a palavra poderia ser interpretada de outro modo, e saiu primeiro, com aquela passada calma de quem não foge mas também não hesita, deixando para trás o cheiro suave que ele só percebeu quando ela foi embora e o ar voltou a ser apenas ar.
Ele ficou. Pediu vinho com a ternura silenciosa de quem é feito de sonhos e sabe que o sonho, às vezes, precisa de uma companhia que não faça perguntas, e o vinho não faz perguntas, apenas aquece por dentro e suaviza as bordas do que a gente está sentindo sem saber exatamente nomear. A garrafa foi sendo diminuída devagar, copo a copo, com o respeito que se deve às coisas que acompanham momentos importantes, e ele olhava de vez em quando para a porta com aquela mistura específica de esperança e delicadeza que não é ansiedade porque não tem pressa, mas que tampouco é indiferença porque importa, importa de um jeito suave e fundo que ele não saberia explicar se alguém perguntasse mas que sentia com toda a clareza.
O garçom se aproximou em determinado momento, não para trazer nada mas apenas para dizer, com a convicção tranquila de quem a conhecia de outras tardes naquele lugar, que ela voltaria, que a tinha ouvido dizer isso, que ela era assim, uma pessoa que diz o que vai fazer e faz o que disse. Havia no rosto do garçom algo que não era simplesmente informação, mas uma espécie de solidariedade masculina e silenciosa, o reconhecimento entre dois homens de que certas mulheres merecem ser esperadas e de que a espera, quando feita assim, com vinho e com presença, não é fraqueza mas uma forma elegante de dizer que aquilo valeu, que aquela tarde valeu, que a pessoa vale.
Mas ele foi embora antes das dezenove horas, antes que a noite chegasse para mudar o caráter da luz e transformar o restaurante em outro lugar, diferente do que era quando ela estava. Não foi por dúvida dela, nem por impaciência consigo mesmo, nem por nenhuma daquelas razões que se explica facilmente. Foi por uma mistura de encantamento e insegurança silenciosa, por aquela delicadeza emocional de quem aprendeu a proteger os momentos bonitos de si mesmo, de quem teme que o continuado possa diminuir o que o breve deixou intacto, de quem prefere guardar a tarde como era do que correr o risco de que a noite a reescreva. Deixou o dinheiro sobre a mesa, agradeceu ao garçom com um aceno que carregava mais coisas do que um aceno normalmente carrega, e saiu para a rua que já começava a esfriar.
Do lado de fora, a cidade seguia com a indiferença habitual das cidades grandes, que não param porque alguém dentro de um restaurante acabou de viver algo pequeno e imenso ao mesmo tempo. Ele caminhou sem destino definido por alguns minutos, com aquela sensação estranha e boa de quem saiu de um lugar levando mais do que trouxe, sem que isso pese, ao contrário, como se tivesse ganhado algo que não tem volume mas tem presença, que não vai caber em nenhuma gaveta mas vai aparecer de tempos em tempos, sem avisar, nos momentos mais insólitos, trazido por um perfume parecido ou por olhos que puxam para o verde ou por um fim de tarde que dora as coisas do mesmo jeito que aquele.
Há pessoas que não chegam para ficar. Chegam para outra coisa, algo que talvez seja mais importante e que a vida às vezes conhece melhor do que a gente, que é a capacidade de devolver ao coração a habilidade de se maravilhar, de lembrar que ainda existe dentro de si um lugar onde a surpresa é possível, onde um encontro inesperado pode ser suficiente para que um dia comum se converta em algo que a memória decide honrar com permanência. Ela talvez não soubesse disso ao sair pela porta com a intenção de voltar e os doces da filha na cabeça. Ele provavelmente não soubesse ao ir embora com o gosto do vinho e a tarde inteira dentro do peito. Mas as coisas mais importantes que acontecem entre as pessoas raramente são sabidas por quem as vive. São sentidas, guardadas, compreendidas muito depois, quando a poeira baixa e o que fica não é o acontecimento mas a luz que ela deixou acesa.
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