Joaquim Lapa, Manoel Botafogo, Carpina e o jogo da conveniência
JORNAL GAZETA PERNAMBUCANA – Há alianças que nascem da convergência de ideias. Outras, da maturidade política. E há aquelas que parecem brotar diretamente do velho manual da conveniência eleitoral. O que Carpina assistiu neste sábado, 17 de maio, durante a visita do pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos, pertence claramente à terceira categoria.
De um lado, Joaquim Lapa. Do outro, Manoel Botafogo. Dois nomes que durante mais de duas décadas protagonizaram uma das rivalidades políticas mais intensas da história recente de Carpina. Eram ataques públicos, críticas mútuas, discursos inflamados e uma disputa que dividiu grupos, famílias e paixões políticas na cidade. Durante anos, parecia impossível imaginar os dois no mesmo palanque sem tensão. Pois o tempo, e principalmente a necessidade política, resolveu operar seu milagre mais conveniente.
Lado a lado, sorridentes, os antigos adversários agora falam em união, compromisso com Carpina e esperança de dias melhores. A cena teria algo de emocionante, não fosse um detalhe impossível de ignorar: juntos, os dois somam 28 anos no comando político da cidade. Joaquim Lapa governou Carpina por três mandatos. Manoel Botafogo, por quatro. Quase três décadas de poder concentrado nas mãos de dois grupos que agora reaparecem unidos prometendo justamente corrigir problemas que atravessaram seus próprios períodos de gestão.
E é aí que a memória do povo merece mais respeito.
Porque se toda essa experiência administrativa tivesse produzido a transformação prometida ao longo dos anos, Carpina hoje deveria ser referência regional em desenvolvimento urbano, educação, cultura e qualidade de vida. Mas a realidade insiste em cobrar coerência dos discursos. A cidade ainda convive com desigualdades históricas, dificuldades estruturais, carências sociais e a sensação permanente de que o futuro sempre foi prometido para depois da próxima eleição.
A união dos antigos rivais não soa como reconciliação histórica. Soa como estratégia. Um pacto de sobrevivência política embalado no discurso da estabilidade. O velho teatro da conveniência, onde adversários de ontem descobrem afinidades repentinas quando percebem que separados podem perder espaço para novas forças políticas.
E talvez esteja justamente aí um dos pontos mais preocupantes dessa aliança: o efeito sufocante sobre o surgimento de novas lideranças. Durante décadas, Carpina viu os mesmos grupos dominarem o debate político, ocuparem espaços de poder e conduzirem a narrativa da cidade. Enquanto isso, nomes novos seguem encontrando dificuldade para romper a barreira dos velhos acordos e dos tradicionais círculos de influência.
A fotografia do sábado carrega simbolismos profundos. Não porque represente paz política, mas porque expõe uma lógica antiga da política brasileira: rivalidades históricas podem desaparecer rapidamente quando o objetivo maior é a preservação do poder.
Como escreveu Caetano Veloso em “Sampa”, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Em Carpina, a frase ecoa com força desconfortável. Porque aquilo que deveria ser mais belo na política, a coerência, a renovação, a confiança popular, muitas vezes acaba soterrado sob alianças improváveis e discursos cuidadosamente ensaiados.
Os dois antigos adversários agora dividem o mesmo palanque, os mesmos sorrisos e o mesmo projeto eleitoral. Dizem estar unidos pelo bem da cidade. O eleitor, naturalmente, tem o direito de ouvir, observar e tirar suas próprias conclusões.
Mas uma pergunta continuará pairando sobre Carpina: depois de quase 28 anos alternando poder, por que somente agora surge essa urgência em “salvar” a cidade?
Enquanto os velhos rivais dançam a mesma valsa política, o povo segue esperando algo mais raro do que alianças de ocasião: resultados reais.
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