A crônica domingueira. Por Magno Martins
Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor – De vez em quando, o programa Sextou, musical de entrevistas com estrelas da MPB e artistas regionais que apresento pela Rede Nordeste de Rádio, me proporciona fortes emoções, momentos inesquecíveis.
Eu gostaria que papai estivesse ainda no nosso convívio para ter ouvido o Sextou com Os Demônios da Garoa, que foi ao ar no dia 8 passado.

Papai adorava! Era o grupo campeão lá em casa ouvido numa radiolinha das antigas. De todas, a que ele mais gostava era “Iracema”, do Adoniran Barbosa, mestre-estrela do grupo. “Iracema, eu nunca mais eu te vi /Iracema, meu grande amor, foi embora/ Chorei, eu chorei de dor porque / Iracema, meu grande amor foi você/ Iracema, eu sempre dizia/ Cuidado ao travessar essas ruas/ Eu falava, mas você não me escutava, não/ Iracema, você travessou contramão”.
“A vida é dura, mas com samba fica mais leve”, dizia Adoniran, que retratou um samba paulistano, todo próprio da cidade. Sua maior proeza foi transformar arranha-céus cinzentos e poluição da atmosfera em poesia. E ironizava quem insultava São Paulo. “Dizem que é selva de pedra, mas eu chamo de lar”, reagia.
Com atuação no Brasil há 84 anos, Os Demônios da Garoa continuam um símbolo vivo em tudo: representatividade, identidade, resistência e a tradição do samba paulistano. De pai para filho! Entrevistei Sérgio Rosa, percussionista, filho do Arnaldo Rosa, o fundador, que Deus já chamou. Serginho mantém a tradição familiar e seu filho Ricardo, também na percussão, já atua no grupo.
A formação original tinha o fundador Arnaldo Rosa (ritmo e vocal), Waldemar Pezuol (violão), Zezinho (violão tenor), os irmãos Antônio e Benedito Espanha (tantã e afoxé) e Bruno Michelucci (pandeiro).
Hoje, a formação dos Demônios da Garoa é a seguinte: Sérgio Rosa (pandeiro e afoxé), Roberto Barbosa, o canhotinho, (cavaquinho), Ricardo Cassimiro Rosa (percussão) e Dedé Paraizo (violão de 7 cordas).
Os Demônios da Garoa carregam uma história bastante curiosa, principalmente pela origem do nome. O que muita gente não sabe é que, a princípio, a banda se chamava “Grupo do Luar” e eles surgiram em 1943, quando participaram de um programa de calouros chamado A Hora da Bomba, transmitido pela Rádio Bandeirantes.
O grupo venceu o concurso de calouros, ganhando a oportunidade de se apresentar duas vezes por semana na rádio. Por iniciativa do locutor Vicente Leporace, um concurso foi aberto para que os ouvintes mandassem ideias de novos nomes para a banda, entre eles, surgiu “Demônios da Garoa”.
Até hoje não se sabe quem foi o ouvinte que sugeriu o nome, mas, segundo o grupo, “Demônios” surgiu porque o locutor Vicente Leporace se referia aos integrantes da banda como “esses endiabrados”, tendo em vista que o grupo era formado por indivíduos no auge da adolescência, que tinham entre 13 e 14 anos.
Já o termo “Garoa” surgiu porque naquela época a cidade de São Paulo era conhecida como “Terra da Garoa”. Em 1949, surgiu uma grande parceria que foi essencial para a consolidação do sucesso do grupo.
Os Demônios da Garoa conheceram o compositor Adoniran Barbosa durante as gravações do filme “O Cangaceiro” (1953). O contato do compositor com os meninos rendeu muitas composições que fizeram grande sucesso e contribuíram para a expansão e o reconhecimento nacional do grupo.
Um fato curioso sobre eles é que foram funcionários da Rádio Record durante os anos 50. “O conjunto foi funcionário da Rádio Record por mais de 15 anos, e foi uma época muito especial. Fazíamos parte do casting de grandes nomes da MPB. Uma época de muito aprendizado, amadurecimento, do qual temos muita saudade, disse Serginho na entrevista ao Sextou.
Os Demônios da Garoa são amplamente homenageados e respeitados por serem um dos maiores pilares do samba paulistano, construindo uma trajetória de mais de 80 anos que se mistura com a história da música brasileira. Desde 1994, o grupo é reconhecido pelo Guinness World Records (livro dos recordes) como o conjunto vocal mais antigo do Brasil e da América Latina em atividade.
O grupo consolidou sua reputação ao interpretar e eternizar as composições de Adoniran Barbosa, tornando-se os principais difusores do samba paulista e da crônica social da cidade de São Paulo. Eles personificam a cultura de São Paulo, Sucessos como “Trem das Onze” (o maior deles), “Samba do Arnesto”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro” marcaram gerações de brasileiros.
Notabilizaram-se por vozes afinadas, arranjos vocais característicos e um humor marcante nas interpretações. Mesmo com a mudança de integrantes ao longo das décadas, o grupo manteve sua essência, muitas vezes através da continuidade familiar, como o caso de Ricardo Rosa (3ª geração) e Sérgio Rosa, mantendo o legado vivo.
Quem não se emocionaria em entrevistar um personagem vivo e autêntico dos Demônios da Garoa? Só quem não tem alma, sensibilidade e sentimento! Afinal, Sérgio deu voz no Sextou a um grupo considerado uma lenda viva do samba, unindo tradição e qualidade musical há oito décadas.
Quem não assistiu ao Sextou com o Demônios da Garoa, clique aqui agora e ouça. Está incrível!




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