Botafogo não passou rapidamente pela Prefeitura. Não foi um gestor de ocasião, nem teve apenas uma oportunidade de mostrar serviço. Foram quatro mandatos. Quatro chances de enfrentar os problemas históricos do município. Quatro oportunidades de deixar um legado sólido. E, mesmo assim, Carpina continua convivendo com velhas feridas sociais que nenhuma propaganda eleitoral consegue esconder.
A cidade segue marcada por dificuldades que pesam no dia a dia da população. Problemas na saúde, desafios na educação, carências na habitação, falta de perspectivas para muita gente, desemprego, pobreza e abandono em áreas que há anos exigem ação firme do poder público. É essa realidade que desmonta qualquer discurso fácil. Porque quem governou por tanto tempo não pode aparecer agora como se fosse novidade, como se não tivesse nada a ver com o que a cidade se tornou.
E, além do legado administrativo questionável, existe algo ainda mais forte na memória popular: a forma como Botafogo tratou o povo.
Em um dos episódios mais lembrados da vida pública de Carpina, durante a Semana Santa, ao ser perguntado sobre a tradicional distribuição de peixes para as famílias carentes, ele respondeu com uma frase que jamais foi esquecida:
“Vai ter muita distribuição de peixe no comércio, vocês preparem cada qual seus R$ 20,00. A prefeitura não deve nada a ninguém.”
A frase entrou para a história política da cidade não como sinceridade administrativa, mas como retrato de arrogância. Não foi apenas uma negativa. Foi deboche. Foi desprezo com quem mais precisava. Foi a demonstração de uma visão de poder insensível, distante e incapaz de compreender a dor do povo simples.
E é exatamente esse passado que agora volta a cobrar coerência.
Quem passou 16 anos no comando de uma cidade precisa responder pelo que fez, pelo que deixou de fazer e, principalmente, pela forma como exerceu o poder. Não basta aparecer em período pré-eleitoral com discurso renovado, tom moderado e promessa de representar a Mata Norte. Antes de pedir um novo mandato, é preciso explicar por que, depois de tanto tempo no poder, Carpina ainda carrega tantos problemas sem solução.
A pergunta é inevitável: qual é o grande argumento de Botafogo para pedir um prêmio político maior? Que transformação estrutural ele apresenta? Que marca administrativa capaz de convencer o povo de que merece subir mais um degrau? Que autoridade moral ele tem para se colocar como representante popular depois de ter tratado a necessidade alheia com tamanha frieza?
Política não pode ser exercício de amnésia coletiva. O eleitor não é obrigado a esquecer. Ao contrário: lembrar é um dever cívico. E Carpina tem razões de sobra para olhar para trás antes de olhar para a urna.
Não se trata de perseguição. Trata-se de prestação de contas. Quem governou por 16 anos não pode fugir do julgamento da própria história. Não pode fingir que o tempo passou em branco. Não pode pedir confiança nova sem enfrentar as cobranças antigas.
Botafogo quer ser deputado estadual. É um direito dele disputar. Mas é ainda mais direito do povo perguntar, sem constrangimento algum, com que cara ele pede esse voto.
Porque mandato não é prêmio por insistência.
Mandato é reconhecimento de legado.
E legado, em Carpina, não se mede apenas pelo tempo que alguém passou no poder.
Mede-se, sobretudo, pela cidade que deixou para trás.
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