O café e as coisas que não dizemos. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  O cheiro chega antes de tudo, quente e antigo, subindo pela casa como certas lembranças que nunca aprenderam a ir embora. Ainda está escuro quando alguém acende a luz da cozinha e coloca água para ferver, não porque saiba exatamente o que fazer da vida, mas porque existem manhãs em que preparar café é a única maneira de impedir que o coração desmorone antes do dia nascer por completo. O mundo pode estar em ruínas do lado de fora, as contas podem continuar sobre a mesa, o amor pode ter ido embora na noite anterior, mas enquanto a água esquenta e o pó recebe os primeiros fios quentes daquele pequeno milagre cotidiano, alguma coisa dentro da pessoa volta lentamente para o lugar.

Talvez por isso o café esteja presente em quase todas as lembranças importantes que sobrevivem ao tempo. Não porque ele tenha resolvido as dores humanas, mas porque esteve ao lado delas. Porque acompanhou silenciosamente a vida enquanto ela acontecia sem ensaio, sem aviso e sem misericórdia.

Nas cozinhas simples, onde o piso gasto conhece o caminho cansado de quem acorda cedo há décadas, o café é sempre o primeiro gesto de amor do dia. A mãe que o prepara ainda de madrugada para não acordar os filhos talvez nem perceba que naquele movimento repetido existe uma forma profunda de cuidado. Ela separa o açúcar, aquece a água, sopra devagar a primeira fumaça que sobe da xícara e bebe em pé, olhando para o quintal ainda escuro, como quem tenta reunir forças antes de voltar a ser tudo para todos outra vez.

E quantas vidas começaram diante de um café.

O rapaz nervoso que chamou a moça para uma padaria pequena no centro porque não tinha dinheiro para um restaurante bonito, mas passou a noite inteira ensaiando o que diria. Ela chegou usando perfume demais para quem fingia tranquilidade, sentou diante dele segurando a bolsa no colo e os dois passaram vários minutos mexendo o café já sem açúcar porque nenhuma coragem nasce imediatamente. Anos depois, quando a vida já havia gasto parte do brilho da juventude, ainda era daquele café simples que os dois se lembravam quando alguém perguntava onde tudo tinha começado.

O café conhece o amor de um jeito que poucas coisas conhecem.

Conhece o amor jovem, que fala demais e deixa o café esfriar porque está ocupado fazendo promessas. Conhece o amor cansado dos casais que já atravessaram doenças, dificuldades e boletos atrasados, mas continuam sentando juntos no fim da tarde enquanto um pergunta ao outro se o café ficou forte demais. Conhece o amor antigo, aquele em que quase não se fala porque o silêncio já aprendeu o idioma inteiro da convivência. E conhece também o amor que um homem nutre pela cadeira vazia, o aposentado que prepara duas xícaras todas as manhãs antes de lembrar que já não precisa da segunda, e mesmo assim a serve, deixando-a diante da cadeira vazia como quem se recusa a permitir que o amor desapareça completamente da casa.

E conhece também as despedidas.

Amores que terminam diante de uma xícara morna numa mesa pequena onde duas pessoas ainda se tratam com delicadeza porque sabem que estão enterrando uma história que um dia foi bonita. Ninguém levanta a voz. Ninguém bate na mesa. Apenas chega um momento em que os dois entendem, ao mesmo tempo, que o futuro não virá mais para aquela relação. Então o café vai esfriando entre eles enquanto tentam conversar sobre assuntos pequenos porque certas dores só conseguem entrar na vida devagar.

Talvez o café tenha aprendido a permanecer justamente por isso. Porque ele nunca exige felicidade para existir. Acompanha tanto quem celebra quanto quem suporta.

Nas mesas de padaria, homens cansados reorganizam a vida antes do expediente começar. O caminhoneiro decide que não aguenta mais a estrada. O pedreiro cria coragem para pedir a filha em casamento. Mas o café também esteve em outras mesas, menos humildes e igualmente decisivas. Esteve nas salas onde o poder se negociava entre homens de gravata afrouxada e olhos vermelhos de insônia, onde um assessor entrava com xícaras fumegantes porque sabia, com a sabedoria prática de quem serve sem ser notado, que homens exaustos decidem melhor quando têm algo quente nas mãos. O que foi acordado nessas tardes afetou muita gente que nunca soube que o café também esteve na sala. A história oficial guarda os discursos. O café guardou os bastidores.

Há também o café dos velórios.

Ninguém combina, mas ele sempre aparece. As pessoas se servem em xícaras emprestadas de vizinhos, porque na casa do morto nunca há xícaras suficientes para a dor toda que aparece, e ficam de pé segurando essas xícaras com as duas mãos como se fossem objetos que precisam de amparo, conversando sobre o finado em voz baixa e misturando memória e saudade com o vapor que sobe. O café nos velórios tem sempre um gosto diferente, mais fundo, mais escuro, como se soubesse onde está e tivesse ajustado o sabor para a ocasião. Ele não consola. Mas ocupa as mãos de quem não sabe o que fazer com o corpo diante da perda, e isso, em certas horas, é mais do que suficiente.

Há também o café das madrugadas difíceis.

Aquele feito às duas da manhã quando o apartamento parece silencioso demais e a solidão cresce pelos cantos. O café não cura ninguém. Mas obriga a pessoa a continuar. Acender a luz. Procurar a colher. Esperar a água ferver. Segurar algo quente entre as mãos enquanto o coração tenta sobreviver a mais uma noite. E às vezes a esperança começa exatamente assim, pequena, quase invisível, dentro de uma cozinha vazia às duas da manhã, quando a única companhia disponível é o barulho da água chegando à fervura.

Mas existe um café ainda mais raro do que o primeiro amor e mais difícil do que a despedida.

O café do reencontro.

Ela apareceu numa manhã chuvosa muitos anos depois de ter ido embora. O tempo havia mudado os dois em quase tudo, menos na maneira como se olhavam, e isso era ao mesmo tempo uma alegria e uma dificuldade, porque certas afinidades que não desaparecem nos lembram de tudo que se perdeu enquanto a vida seguia em frente sem nos perguntar se estávamos prontos. Ele abriu a porta sem saber o que fazer com as próprias mãos, sem encontrar nenhuma frase inteligente, porque certos sentimentos voltam tão grandes que deixam a linguagem pequena demais. Então fez o que as pessoas fazem quando o coração transborda e as palavras não ajudam: foi para a cozinha e passou café.

Ela ficou sentada à mesa ouvindo os sons antigos da casa, o barulho da colher na xícara, a água fervendo, a chuva batendo baixo na janela, e percebeu que às vezes o amor não acaba. Apenas espera em silêncio dentro daquilo que continua familiar. Quando ele colocou a xícara diante dela, os dedos dos dois se tocaram por um instante breve, e havia tanta vida acumulada naquele pequeno toque que nenhum dos dois ousou falar imediatamente. Não porque tivessem chegado a algum lugar. Mas porque ainda não sabiam se o que restava era suficiente para reconstruir ou apenas bonito demais para enterrar de vez.

Tomaram café olhando a manhã chuvosa sem pressa alguma. Como fazem as pessoas que ainda não sabem o que vem a seguir, mas que entenderam que o amor não mora nos grandes acontecimentos. Mora nas coisas simples que permanecem depois que todo o resto passou.

O café sabe disso.

Passou discretamente por todas as estações da vida humana sem nunca pedir importância. Esteve na mesa das reconciliações, das notícias difíceis, das esperas intermináveis e das manhãs felizes que ninguém imaginava que um dia virariam saudade. Escutou risos, choros abafados, promessas, silêncios e pedidos de perdão ditos quase sem voz. Viu gente partir e viu gente voltar. Esteve no primeiro beijo e no último adeus, na manhã do casamento e na madrugada do divórcio, na infância que ainda não entendia seu amargor e na velhice que já não conseguia imaginar o dia sem ele.

E talvez seja por isso que, muitos anos depois, quando quase tudo desaparece da memória, ainda reste com uma nitidez dolorosamente bonita a lembrança de alguém colocando café numa xícara para nós numa manhã qualquer.

Porque no fundo, quase todo amor verdadeiro passou um dia pela cozinha. E ficou para sempre morando no cheiro do café.

Share this content:

Publicar comentário