Qual é o peso da solidão? Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Toda solidão tem geologia própria, camadas que se depositaram ao longo dos anos como sedimento no leito de um rio, e por isso nenhum homem carrega a mesma solidão que outro, ainda que ambos usem a palavra igual para nomear coisas tão diferentes. Existe a solidão que se deposita como lama, pesada, escura, que suja as mãos de quem tenta atravessá-la e deixa vestígio em tudo que toca depois. E existe a solidão que se deposita como calcário, lenta, silenciosa, que com o tempo vira gruta, vira catedral subterrânea onde a água escorre e desenha no teto formas que ninguém planejou mas que se tornam, com os séculos, mais belas que qualquer projeto humano. O peso, veja, nunca está na quantidade de silêncio que cai sobre um homem, está no que esse silêncio se transforma depois de anos de convivência íntima e obrigatória.
Conheci homens que carregam a solidão como quem carrega uma pedra amarrada ao tornozelo, arrastando-a pelas ruas, pelos velórios sociais que são os almoços de domingo em família, pelos escritórios cheios de vozes que não escutam nada além de si mesmas, e para esses homens toda solidão é náufrago, é homem em alto mar sem bússola, sem terra à vista, apenas água e mais água repetindo o mesmo horizonte cinza até a exaustão da alma. Mas conheci outros, poucos, raros como pedra preciosa em cascalho comum, que carregam essa mesma solidão como quem carrega uma chave antiga no bolso, sabendo que existe uma porta em algum lugar da própria casa interior que só aquele metal específico consegue abrir, e para esses homens o silêncio não é naufrágio, é cartografia, é o mapa desenhado a mão que finalmente revela onde ficam os cômodos secretos que a vida social jamais permite visitar.
Recife me ensinou que toda ponte nasce primeiro como ausência. Antes de existirem as pontes que atravessam o Capibaribe, existiam apenas duas margens separadas gritando uma para a outra através da água, e foi exatamente essa separação, esse vazio líquido entre dois pedaços de terra que se queriam próximos, que obrigou os homens a inventarem a travessia. A solidão funciona como o rio antes da ponte, ela é o vão necessário, o intervalo que dói mas que também convoca, porque nenhum encontro verdadeiro nasce de duas pessoas que nunca estiveram sozinhas o bastante para sentir falta uma da outra. Quem nunca atravessou o próprio rio interior chega ao amor como quem chega a uma ponte sem nunca ter visto a água que ela cobre, atravessa sem reverência, sem saber o tamanho do abismo que está sendo vencido, e por isso ama com pressa, ama com fome, ama exigindo do outro que seja represa para um rio que na verdade precisava era correr sozinho por um tempo.
Peso é palavra que a física empresta à alma sem nunca explicar direito o empréstimo. Fisicamente, peso é a força com que um corpo é puxado para baixo, para o centro de alguma coisa maior que ele. E é exatamente isso que a solidão faz quando ainda não foi domesticada, ela puxa o homem para dentro de si mesmo com uma força que parece gravidade de planeta hostil, esmagando ao invés de sustentar. Mas há uma segunda física, mais antiga que Newton, que ensina que todo peso bem distribuído se torna estrutura, se torna coluna, se torna a própria arquitetura que permite que um edifício se ponha de pé contra o vento. A solidão trabalhada dessa forma deixa de puxar o homem para baixo e começa a sustentá-lo por dentro, vira viga mestra invisível, aquilo que impede que ele desabe na primeira tempestade social que atravessa sua vida.
Minha mãe sabia dessa segunda física sem nunca ter lido um único tratado sobre o assunto. Sentava-se à janela nas tardes de domingo, quando a casa se esvaziava dos filhos que partiam para suas próprias vidas como pássaros que finalmente encontram a janela aberta, e ali, imóvel, com as mãos cruzadas no colo como quem segurava algo precioso demais para largar, ela não parecia mulher abandonada pelo tempo, parecia catedral em construção, parecia rocha que a água do rio molda devagar sem nunca se apressar. Aprendi olhando aquela cena repetida todo domingo que existe uma forma de estar só que não é ausência de gente, é presença total de si, é o momento exato em que a alma para de emprestar sua voz aos coros alheios e começa, enfim, a escutar a própria melodia sem interferência.
Há uma imagem que me acompanha desde menino e que talvez explique melhor que qualquer teoria o que estou tentando dizer. As sementes, antes de virarem árvore, passam um tempo enterradas na escuridão mais completa, sem luz, sem vento, sem a companhia de nenhuma outra semente por perto, apenas terra e silêncio e a própria escuridão como território exclusivo. E é justamente nesse isolamento absoluto, nesse aparente abandono subterrâneo, que a semente reúne a força necessária para depois romper a superfície e virar copa que dá sombra para os outros. Nenhuma árvore nasceu de sementes que tiveram medo do escuro. O peso da solidão, portanto, talvez seja apenas isso, o peso da terra sobre a semente antes da primeira raiz, doloroso enquanto acontece, mas absolutamente necessário para que exista, depois, qualquer coisa parecida com sombra generosa, com fruto, com copa que abriga passarinho e viajante cansado.
A pergunta que fica, então, não é quanto pesa a solidão, porque isso muda de homem para homem como muda o peso da mesma pedra erguida por braços diferentes. A pergunta que fica é o que cada um está construindo lá dentro, na escuridão obrigatória do próprio silêncio, enquanto espera a primeira raiz furar a superfície da terra e provar, finalmente, que todo aquele peso tinha função de berço e não de sepultura. E talvez seja essa a única sabedoria que a solidão tem para ensinar, que todo homem precisa, pelo menos uma vez na vida, aceitar ser semente antes de exigir ser árvore, aceitar a escuridão do próprio silêncio antes de reclamar da ausência de sombra, porque ninguém colhe fruto de pressa, ninguém constrói catedral em uma tarde, e o mesmo peso que hoje parece querer afundar um homem no chão é, se bem carregado, exatamente o que amanhã vai lhe dar raiz funda o bastante para resistir ao vento que virá, e colo largo o bastante para abrigar quem chegar depois cansado da própria caminhada.
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