Moneska de Pádua Toscano: a mão que cuida por trás da pedra restaurada do Hospital Ulysses Pernambucano
Fonoaudióloga de formação, gestora por convicção, a diretora-geral da unidade psiquiátrica mais antiga em atividade no estado transforma em prática cotidiana um princípio que ela repete como quem reza: cuidar de quem cuida
A cena que abre esta reportagem cabe inteira num só gesto. Na manhã em que a governadora Raquel Lyra entregava a primeira etapa da requalificação do Hospital Ulysses Pernambucano, um grupo de servidores, entre médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e um padre de batina branca, formou corações com as próprias mãos diante da fachada centenária recém-restaurada. Não foi coreografia de assessoria. Foi o retrato mais fiel do que se pratica ali dentro, todos os dias, muito antes de qualquer câmera chegar: um hospital que, apesar de lidar com a dor psíquica mais aguda que existe, aprendeu a fazer do afeto sua ferramenta de trabalho mais constante. E se há uma pessoa que corporifica essa filosofia, do gabinete à enfermaria, essa pessoa é Moneska Mara de Pádua Toscano.
Pernambucana, fonoaudióloga formada pela Universidade Católica de Pernambuco em 2004, com especialização em Gestão Educacional concluída em 2008 e mestrado em Saúde da Comunicação Humana, Moneska não chegou à direção-geral do HUP como quem desembarca de fora para administrar um organograma. Chegou de dentro, como quem conhece cada corredor pelo som dos próprios passos. Foi fonoaudióloga plantonista da unidade, dedicou-se à pesquisa em promoção da saúde, saúde coletiva e saúde do trabalhador, e hoje segue em formação como especializanda em Gestão Pública em Saúde, num movimento raro e admirável: o de quem, já ocupando o topo da hierarquia, continua estudando como se sempre faltasse alguma coisa a entender sobre o ofício de cuidar de gente.
Essa trajetória explica por que, sob sua gestão, o Hospital Ulysses Pernambucano deixou de ser tratado apenas como patrimônio de pedra e cal, o segundo hospital psiquiátrico erguido no Brasil, com pedra fundamental lançada em 1874 e inauguração em 1883 sob os cuidados da Santa Casa de Misericórdia, tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado, para ser reafirmado, na prática diária, como patrimônio de gente. A reforma conduzida pelo médico Ulysses Pernambucano entre 1930 e 1935 já apontava nessa direção, ao transformar o antigo Hospital de Alienados num marco da psiquiatria científica e social do país. Quase um século depois, Moneska parece ter herdado menos o cargo do que a missão.
Não é discurso vazio. Sob sua direção, o HUP consolidou-se como peça estratégica da Rede de Atenção Psicossocial e da Rede de Urgência e Emergência, funcionando vinte e quatro horas em regime de porta aberta, com cento e quinze leitos de curta permanência e articulação constante com CAPS, atenção básica e SAMU. Entre janeiro e março deste ano, a unidade registrou média mensal de 1.284 atendimentos, dos quais cerca de oitenta por cento não resultaram em internação, prova de que a emergência tem cumprido seu papel de acolher a crise sem cronificar o sofrimento. O tempo médio de internação, hoje próximo de treze dias, obedece ao espírito da Lei 10.216, que prioriza tratamentos breves e a reinserção do paciente em sua rede de origem. São números que, lidos com atenção, contam uma história de reforma psiquiátrica bem-sucedida. Mas Moneska sabe, e repete isso publicamente sempre que pode, que número nenhum sustenta hospital sem gente cuidada.
Por isso, entre as iniciativas menos noticiadas e mais reveladoras de sua gestão está a atenção sistemática à saúde mental dos próprios profissionais do HUP. Todo mês, a unidade dedica um período do calendário a alguma ação de valorização da vida e do cuidado de quem cuida, do Janeiro Branco ao Setembro Amarelo, passando por rodas de acupuntura, aromaterapia e escuta voltadas aos servidores que, diariamente, seguram no colo o sofrimento psíquico alheio. “É importante destacar o papel fundamental dos profissionais que fazem parte dessa história de resistência e transformação”, disse ela certa vez, ao lembrar que um hospital psiquiátrico só é humano na medida em que humaniza também quem trabalha dentro dele. Não à toa, sua presença já foi registrada ao lado do legado de Nise da Silveira, em seminário promovido pela Fundação Joaquim Nabuco sobre a epistemologia das imagens do inconsciente, prova de que seu compromisso com a saúde mental ultrapassa a rotina administrativa e dialoga com a própria tradição humanista da psiquiatria brasileira.
Foi essa mesma mulher que, ao lado da governadora Raquel Lyra, recebeu a entrega da primeira etapa da requalificação da unidade, com a fachada tombada e a capela centenária completamente restauradas, dentro de um pacote de investimentos que já soma R$ 18,9 milhões. Restaurar pedra é importante, e Moneska sabe disso melhor do que ninguém, ela que caminha todos os dias por aqueles corredores de mais de cento e quarenta anos. Mas foi ela quem, no meio da cerimônia, lembrou ao público presente que quem vê a beleza recuperada por fora precisa saber que o verdadeiro cuidado acontece por dentro, na relação diária entre profissional e paciente, entre gestão e afeto. Essa é a etapa que nenhuma reforma de fachada consegue, sozinha, entregar. E é essa etapa, silenciosa e contínua, que Moneska Toscano vem construindo, tijolo a tijolo, gesto a gesto, desde muito antes de qualquer inauguração oficial.
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