Lula já declarou apoio a João Campos, mas ausência do presidente nos palanques pernambucanos abre questionamentos

Frente Popular terá o desafio de transformar declaração, vídeo e telefonema em presença eleitoral efetiva do presidente ao lado do socialista em Pernambuco

GAZETA  PERNAMBUCANA – Na política, as palavras possuem peso, anunciam compromissos, definem alianças e, muitas vezes, antecipam os caminhos que serão percorridos durante uma campanha eleitoral, mas é a presença física de uma liderança, sobretudo quando se trata de um presidente da República com a força eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em Pernambuco, que costuma dar corpo ao discurso, produzir a fotografia, construir o palanque e transformar uma declaração de apoio em gesto político capaz de chegar diretamente ao eleitor.

Lula já declarou publicamente seu apoio a João Campos na disputa pelo Governo de Pernambuco. A manifestação existe, foi gravada em Brasília, divulgada pelos aliados do socialista e incorporada ao discurso da Frente Popular como demonstração de que o presidente estará politicamente ao lado do ex-prefeito do Recife na eleição deste ano. Não se trata, portanto, de negar o que o próprio Lula afirmou, mas de observar uma questão que, à medida que o calendário avança e as agendas políticas se tornam cada vez mais carregadas de significado eleitoral, começa inevitavelmente a ganhar espaço: qual será, na prática, a dimensão desse apoio?

A pergunta se tornou ainda mais pertinente depois da ausência do presidente na inauguração do Hospital de Amor Dona Lindu, em Garanhuns, nesta sexta-feira, 3 de julho, uma agenda que, pelas circunstâncias políticas, pela simbologia do nome dado à unidade e pela participação do Governo Federal na realização do empreendimento, reunia praticamente todos os elementos para produzir o primeiro grande encontro público entre Lula e João Campos depois da declaração presidencial de apoio ao socialista.

Durante semanas, a possibilidade da presença de Lula em Garanhuns alimentou expectativas entre lideranças políticas e aliados da Frente Popular. Não seria uma visita presidencial qualquer, nem a inauguração de uma obra destituída de significado afetivo para o chefe do Executivo nacional. O hospital leva o nome de Dona Lindu, mãe de Lula, está localizado no Agreste pernambucano e foi construído com participação de recursos federais, numa cidade administrada pelo PSB. Havia, portanto, um cenário político quase naturalmente desenhado para que Lula chegasse a Pernambuco, participasse da solenidade e aparecesse publicamente ao lado de João Campos num momento em que a Frente Popular procura consolidar a ideia de uma aliança eleitoral firme com o presidente.

Mas Lula não veio a Pernambuco.

O Governo Federal esteve representado presencialmente pelo secretário de Atenção Especializada à Saúde, Mozart Sales, enquanto o presidente participou remotamente da solenidade e, durante a agenda, fez contato telefônico com João Campos. O gesto possui importância política e não deve ser desprezado, porque demonstra a manutenção de um canal direto entre o presidente e o socialista, mas também não elimina a questão que começa a se impor sobre a estratégia eleitoral da Frente Popular.

A voz de Lula chegou a Garanhuns, mas Lula, mais uma vez, não chegou a Pernambuco.

É justamente nessa distância entre a declaração gravada em Brasília, o telefonema realizado durante a agenda e a ausência física do presidente nos palanques pernambucanos que surge uma das questões mais instigantes da eleição estadual de 2026. A Frente Popular poderá reproduzir o vídeo presidencial quantas vezes considerar necessário, citar as palavras de Lula e afirmar, com base numa manifestação pública do próprio presidente, que João Campos possui seu apoio, mas chegará inevitavelmente o momento em que o eleitor poderá perguntar se esse apoio será transformado numa participação efetiva de Lula na campanha pernambucana.

Porque apoio eleitoral, sobretudo quando se pretende utilizar a força política e a popularidade de um presidente como elemento central de uma campanha estadual, não se resume apenas à existência de uma declaração gravada. Ele também se manifesta na agenda construída, na presença em atos públicos, na participação em comícios, na fotografia produzida diante dos eleitores e, principalmente, no gesto inequívoco de subir ao palanque de um candidato, segurar-lhe a mão e pedir diretamente o voto da população.

É nesse ponto que a situação política de Pernambuco apresenta uma complexidade que não pode ser ignorada. De um lado está João Campos, presidente nacional do PSB, integrante de um campo político historicamente próximo de Lula e candidato de uma frente na qual o PT decidiu permanecer depois de negociações, divergências e idas e vindas que marcaram a construção da aliança. O senador Humberto Costa, uma das principais lideranças petistas do estado, integra esse projeto eleitoral em busca da reeleição ao Senado, reforçando institucionalmente a presença do partido do presidente na composição liderada pelo socialista.

Do outro lado está a governadora Raquel Lyra, adversária direta de João Campos na disputa pelo Governo de Pernambuco, mas chefe de um Executivo estadual que mantém relações institucionais com o Governo Federal e que, ao longo de sua gestão, participou de agendas e estabeleceu interlocução administrativa com Brasília. Lula sabe que Pernambuco não é apenas mais um estado no mapa eleitoral brasileiro e conhece, talvez melhor do que muitos dos seus próprios aliados, a dimensão de sua popularidade entre os pernambucanos e a capacidade que possui de influenciar uma disputa estadual.

Por isso, cada movimento do presidente passa a ser observado com atenção redobrada. Quando Lula grava um vídeo declarando apoio a João Campos, oferece ao socialista um ativo eleitoral importante. Quando mantém uma relação institucional com Raquel Lyra, preserva uma ponte administrativa com a governadora. Quando, porém, deixa de comparecer a Pernambuco numa agenda que reunia condições políticas e simbólicas para produzir a fotografia tão aguardada pela Frente Popular, inevitavelmente abre espaço para questionamentos sobre a intensidade com que pretende participar da campanha estadual.

Isso não significa afirmar que Lula tenha retirado o apoio declarado a João Campos, nem autoriza qualquer conclusão sobre supostos entendimentos políticos que não estejam publicamente comprovados. Significa apenas reconhecer que existe uma diferença considerável entre declarar apoio e transformar esse apoio numa presença eleitoral permanente, visível e assumida diante do eleitorado.

A política pernambucana conhece essa diferença e sabe que uma gravação pode ser reproduzida milhares de vezes nas redes sociais, que um telefonema pode produzir manchetes e que uma declaração presidencial pode alimentar discursos durante semanas, mas também sabe que nenhuma dessas imagens possui exatamente o mesmo peso de um presidente da República diante de milhares de pessoas, ao lado de um candidato ao governo, pedindo de maneira direta e pública que seus eleitores transfiram para aquele nome uma parcela da confiança política que depositam nele.

É essa imagem que a Frente Popular ainda não conseguiu produzir em Pernambuco.

E talvez seja justamente por isso que a ausência de Lula comece a ganhar uma dimensão política maior do que seus aliados gostariam de admitir. Quanto mais a Frente Popular afirmar que possui o apoio aberto, integral e eleitoral do presidente, mais natural será o questionamento sobre quando esse apoio deixará de existir apenas na palavra declarada e passará a ocupar fisicamente os palanques da campanha de João Campos.

O calendário eleitoral poderá responder a essa pergunta nas próximas semanas ou nos próximos meses, porque ainda haverá tempo para que Lula venha a Pernambuco, participe de atos, divida o palanque com João Campos e transforme em presença aquilo que até agora manifestou por meio da palavra. Se isso acontecer, a Frente Popular terá a fotografia política que procura e poderá apresentar ao eleitorado a materialização de uma aliança que hoje sustenta em declarações, vídeos e gestos de aproximação.

Se, porém, o presidente continuar distante do estado durante o primeiro turno, a questão se tornará cada vez mais difícil de ser contornada pelo discurso eleitoral dos socialistas.

Não será mais suficiente perguntar se Lula apoia João Campos, porque a essa pergunta o próprio presidente já respondeu afirmativamente.

A pergunta que poderá acompanhar a campanha será outra, mais profunda e politicamente mais desconfortável: se o apoio de Lula a João Campos é tão aberto, tão firme e tão importante quanto afirma a Frente Popular, por que o presidente não vem a Pernambuco para olhar nos olhos do eleitor pernambucano e pedir, pessoalmente, o voto para o seu candidato?

Até agora, Lula declarou seu apoio.

A Frente Popular ainda espera a presença.

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