O Adeus que Nunca Houve. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Não houve um instante preciso em que você tivesse partido, desses que a memória consegue isolar do resto do tempo como uma ferida nítida, um antes e um depois; houve, isso sim, um lento aprendizado da ausência, uma desaparição que se fez por dentro de mim como quem recolhe os móveis de uma casa habitada por décadas e de repente descobre que o vazio não está nos objetos que se foram, mas na respiração mesma dos cômodos, na maneira como a luz da tarde já não encontra mais o braço da poltrona onde você se sentava, no silêncio que agora ocupa o lugar da sua voz como uma água pesada e sem correnteza. E talvez seja essa a primeira verdade que a saudade me ensinou, depois de tanto tempo tentando entender como alguém pode estar tão longe e, ao mesmo tempo, tão dentro de mim que qualquer tentativa de extraí-lo parece uma cirurgia sem anestesia: o adeus, quando o amor foi verdadeiro, nunca chega a acontecer. Você parte, sim, do mundo visível, do calendário que continua girando sem a sua presença, da mesa de jantar que agora tem um lugar vago que ninguém ousa ocupar, das conversas que já não podem mais ser interrompidas pelo seu modo peculiar de rir antes mesmo da piada terminar; mas parte de uma forma tão imperfeita, tão incompleta, tão desajeitadamente humana que o verbo “partir” parece mentiroso, porque você não seguiu para lugar nenhum onde eu não possa, de algum modo, continuar te encontrando.
Acontece que certas pessoas não são apenas pessoas, são também os gestos que nos ensinaram, os hábitos que nos plantaram sem que percebêssemos, os modos de olhar o mundo que acabaram se tornando nossos porque os vimos tantas vezes nos seus olhos que já não sabemos mais distinguir onde terminava a sua maneira de ser e começava a nossa. E é por isso que você continua aparecendo nos detalhes mais inesperados: na maneira como, sem pensar, passo a mão na toalha depois de lavar o rosto exatamente como você fazia, um gesto tão pequeno que nunca imaginei que pudesse carregar uma pessoa inteira dentro de si; no modo como deixo a porta do armário entreaberta, porque você sempre dizia que o barulho de fechar me denunciava em qualquer cômodo da casa; na pausa que faço antes de tomar o primeiro gole de café pela manhã, aquela mesma pausa sua que eu, menino, achava um mistério desnecessário e que hoje reconheço como uma pequena cerimônia contra a pressa do mundo. Você não está mais aqui, e no entanto cada um desses gestos é você retornando, não como fantasma, não como lembrança dolorosa que se quer extirpar, mas como uma sintaxe do meu próprio corpo que herdou de você o alfabeto com que continua escrevendo a sua vida. O que a morte não pôde levar foi essa gramática invisível dos afetos, essa maneira de existir que aprendemos com quem amamos e que permanece funcionando em nós como um coração secundário, latejando no ritmo antigo de uma presença que já não respira, mas que ainda nos ensina a respirar.
Demorei muito para entender que a saudade não é um buraco — desculpe a imagem gastada, mas preciso nomear o equívoco para depois me livrar dele —, não é uma falta que se configura como vazio, não é a ausência pura e simples daquilo que um dia esteve ali. A saudade, aprendi com os anos e com as noites em que o sono não vinha porque o corpo insistia em procurar o seu cheiro no travesseiro vazio, é uma forma complexa e quase contraditória de presença; é o modo que o amor encontrou de continuar existindo quando a materialidade do encontro já não é mais possível. Você não está, e no entanto eu converso com você todos os dias, não como quem fala com um morto, não como quem alimenta uma ilusão patética, mas como quem sabe que certos diálogos não precisam da voz para serem verdadeiros. Eu te conto as coisas que aconteceram, as pequenas vitórias e as derrotas medíocres, os filmes que assisti e que você gostaria de ter visto, os livros que li e que me fizeram pensar em você não porque tratassem de perda ou de memória, mas porque tinham aquela frase certeira que você apreciaria como se fosse sua. E não é loucura, não é recusa da realidade, é apenas a constatação madura de que o amor, quando foi amor de verdade, não obedece à cronologia do desaparecimento; ele simplesmente se transforma, muda de suporte, abandona a carne e se instala naquilo que os filósofos antigos chamariam de alma e que eu, sem tanto rigor, chamo apenas de dentro, esse lugar escuro e quente dentro de mim onde você se instalou como uma raiz que não precisa mais de luz para continuar viva.
Há uma sabedoria triste que o tempo me trouxe, e que não é o consolo fácil de que “a saudade diminui” — porque não diminui, apenas se aprofunda e se espalha como um lençol freático que nunca seca, mas também nunca transborda. A sabedoria é outra: é saber que a sua ausência se tornou, paradoxalmente, uma companhia. Você não está mais ali, no mundo, disponível para o abraço ou para o telefonema que sempre terminava com o seu “vai com calma” antes de desligar; mas você está aqui, na maneira como eu escolho as palavras para escrever esta crônica, como se cada frase fosse endereçada a você e você fosse, de algum modo, capaz de lê-la desse lugar inacessível para onde a vida levou você. E talvez seja essa a grande mentira que todos nós repetimos sem perceber — que a morte separa, que o tempo apaga, que a distância anula — quando a verdade, a verdade incômoda e bela, é que o amor verdadeiro não se desfaz, apenas se desloca para uma dimensão mais silenciosa, mais difícil de traduzir em gestos visíveis, mas nem por isso menos real. Você está longe, e a vida — aquela vida que a gente toca, que a gente mede em anos, empregos, viagens, conquistas — de fato já não existe mais como existia quando você estava aqui; mas existe outra vida, uma vida interior, uma vida que respira por dentro das minhas ações mais secretas, e nessa vida você não apenas permanece como às vezes me parece mais presente do que muitos que ainda cruzam comigo nas calçadas e nos corredores.
As pessoas falam em superação como se fosse um dever moral, como se a saudade fosse uma doença da qual se deve curar para voltar à normalidade produtiva do mundo; eu, porém, desconfio que a superação é apenas uma palavra covarde que inventamos para não admitir que o amor não tem remédio, nem precisa ter. Não quero superar você, não quero chegar ao dia em que pensar em você não doa mais, porque essa ausência de dor não seria alívio, seria esquecimento, e o esquecimento, esse sim, é a morte verdadeira, muito mais definitiva do que a parada do coração. Quero, isso sim, aprender a carregar você com a leveza que só o tempo e a maturidade podem dar, quero que a sua memória não seja um peso, mas uma gravidade suave, dessas que mantêm os pés no chão sem impedir o movimento. E tenho conseguido, aos poucos, transformar o luto em uma forma de conversa silenciosa, tenho aprendido a sorrir quando lembro das suas piadas ruins, tenho deixado de temer os objetos que eram seus e passei a tratá-los como relíquias vivas, não como túmulos domésticos. Você partiu, mas deixou instruções secretas espalhadas pela minha vida, pequenos manuais de como continuar sendo gente num mundo que muitas vezes parece feito para endurecer; e eu, sem ter jurado obediência a nenhum testamento, descubro que sigo esses manuais todos os dias, como se cumprisse um destino que você escreveu para mim antes mesmo de eu saber que precisava dele.
O mais estranho, talvez, seja a percepção de que o tempo, que tantos dizem ser o grande curador, não cura coisa alguma — apenas ensina a conviver com a ferida de um modo que ela deixa de sangrar, mas continua sendo a marca mais sensível do corpo. Eu posso passar semanas inteiras sem chorar, posso contar uma história engraçada sua para os amigos sem que a voz me falte, posso até mesmo olhar suas fotografias com uma espécie de ternura tranquila; mas basta um nada, um cheiro que me lembra o seu perfume, uma música que toca no rádio quando eu menos espero, uma frase dita por um desconhecido com a mesma entonação que você usava, e de repente a ausência inteira se recompõe com uma violência silenciosa, e eu me descubro novamente aquele mesmo que perdeu você, como se nenhum ano tivesse passado. Não é recaída, não é fracasso, é apenas a verdade de que o amor não tem data de validade, e que certas perdas nos marcam de um modo tão estrutural que qualquer tentativa de nos livrarmos delas seria como tentar nos livrar da nossa própria sombra. A diferença é que hoje eu não luto mais contra essa sombra; eu a reconheço como parte de mim, como a forma que você escolheu para não me deixar sozinho.
E assim vou vivendo, nesse território ambíguo entre a falta e a plenitude, entre a solidão e a companhia mais íntima que já experimentei. Você está longe, sim, tão longe que nenhum avião, nenhuma estrada, nenhum bilhete conseguiria diminuir essa distância; e a vida, aquela vida que a gente chama de real porque se pode tocar, de fato já não existe mais, porque você não está nela para testemunhar os meus dias, para rir comigo das absurdidades cotidianas, para me olhar com aquele ar de quem sabia exatamente o que eu estava sentindo antes mesmo que eu soubesse nomear. Mas existe outra vida, uma vida subterrânea, uma vida que corre nas veias do espírito, e nessa vida você continua sendo uma presença tão sólida quanto qualquer parede que eu possa encostar as costas. Não é crença, não é metafísica barata, é experiência: é o fato incontornável de que, quando fecho os olhos e procuro dentro de mim o que me sustenta, o que me dá forma, o que me ensinou a amar e a perder e a continuar amando depois da perda, eu encontro você. Não como lembrança, não como fantasia, mas como estrutura, como alicerce, como a primeira casa que habitei antes de saber que existiam outras.
Talvez seja essa a herança mais preciosa que você me deixou, e que nenhum inventário jamais poderia listar: o aprendizado de que o amor não termina quando a vida termina, porque o amor, quando foi verdadeiro, nunca foi apenas vida — foi também aquilo que antecede a vida e a ultrapassa, foi o fio invisível que conecta um ser a outro através do tempo e do espaço, foi a aposta na permanência contra todas as evidências da despedida. Você partiu, e no entanto eu continuo sendo, em cada gesto meu, uma continuação sua; eu continuo rindo do mesmo jeito, caminhando do mesmo jeito, fazendo pausas no meio das frases do mesmo jeito. Você não está mais aqui, e a vida não existe mais, mas o amor — ah, o amor — esse nunca precisou da vida para ser verdadeiro. Ele apenas esperou que eu amadurecesse o bastante para entender que a sua ausência não é um vazio: é uma forma mais difícil, mais exigente, mais silenciosa de presença. E é por isso que, até o fim dos meus dias, nunca direi adeus. Porque o adeus pressupõe uma separação completa, um ponto final depois do qual a página vira e a história acaba. E a nossa história, você sabe, nunca teve ponto final — teve apenas uma vírgula enorme, uma pausa que dura anos, mas depois da qual a frase continua, mesmo que já não haja ninguém para lê-la em voz alta.




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