GAZETA PERNAMBUCANA – Editorial – O espelho partidário: Pernambuco e a política do vazio

Vivemos um tempo em que a política pernambucana anuncia uma disputa acirrada pelo Governo do Estado. Mas, ao olhar de perto, o que encontramos não é debate de propostas ou um projeto coletivo em defesa do povo, e sim uma arena onde a política do espetáculo supera a política do bem comum.

A governadora Raquel Lyra, do PSD, e o prefeito do Recife, João Campos, do PSB, tornaram-se protagonistas dessa narrativa eleitoral que pouco ou nada esclarece sobre o sentido de sua ambição pelo Palácio das Princesas. Enquanto a sucessão estadual se aproxima, com o calendário marcando a eleição para outubro de 2026, ambos os candidatos parecem mais empenhados em fabricar factóides e disputar holofotes do que em apresentar um caminho claro para enfrentar os dramas sociais de Pernambuco.

Os dados de sondagens denunciam um pano de fundo sem profundidade. João Campos surge à frente nas pesquisas com ampla vantagem, frequentemente na casa dos 50% ou mais das intenções de voto, enquanto Raquel Lyra tenta recuperar espaço e se manter competitiva. No entanto, essas variações estatísticas pouco dizem sobre o que de fato move o eleitorado além do mero impulso de escolha entre nomes. A questão essencial que deveríamos fazer, e que permanece sem resposta convincente, é simples e cruel: por que, de fato, eles querem governar Pernambuco?

Não basta exercer um direito político constitucional. É imperativo que um governante eleito possa explicar ao povo por que deseja a reeleição ou a ascensão política, que projeto oferece para sanar os gargalos sociais mais urgentes, como pretende enfrentar a desigualdade, o desemprego estrutural, a insegurança e a crise urbana que afeta diariamente as vidas dos pernambucanos.

Até aqui, a resposta de ambos os líderes tem sido silêncio sobre propostas claras e retórica sobre posições no tabuleiro partidário.

A política pernambucana, historicamente rica em lutas e narrativas profundas, corre o risco de se tornar um palco vazio, onde a disputa pelo poder se dá por meio de slogans e retórica vazia. Aqui, as divergências não estão ancoradas em compromissos programáticos, mas em posicionamentos estratégicos de alianças e reflexos nacionais do embate entre grupos partidários maiores. Esse fenômeno não é exclusivo de Pernambuco, mas ganha contornos particularmente agudos em um estado onde as demandas sociais, desde o interior até a capital, clamam por soluções consistentes, e não por uma disputa de narrativas sem substância.

Infelizmente, tanto Raquel Lyra quanto João Campos parecem mais interessados em conquistar holofotes e reforçar suas narrativas pessoais do que em dialogar com as demandas reais da população. Isso se observa no tom das campanhas e das articulações internas, que muitas vezes mais lembram uma disputa de bastidores partidários do que um debate sobre os rumos do nosso Estado.

Enquanto isso, grande parte da mídia local tem ecoado essa disputa em termos empolados, transformando cada gesto político em manchete de conflito, em vez de explorar o que realmente importa: o impacto das políticas públicas na vida das pessoas.

O que Pernambuco precisa agora é menos teatro político, menos factóides, e mais substância, mais proposta, mais verdade ao eleitor. A população não quer saber apenas quem ganhará o jogo. Quer saber quem tem competência, visão e compromisso para transformar o real, para além dos discursos.

É chegada a hora de perguntar, sem medo, sem eufemismos: por que a governadora Raquel Lyra quer a reeleição? O que ela aprendeu com seus acertos e erros de governo? Como pretende redirecionar Pernambuco para além do marketing político? Que legado real pode apresentar a um Estado marcado por desigualdades, violência crescente, colapso na infraestrutura e ausência do poder público em áreas estratégicas? Raquel ainda não demonstrou domínio sobre os grandes problemas estruturais do Estado, tampouco capacidade de articulação política para conduzir soluções duradouras. Até agora, parece mais refém de uma gestão protocolar do que líder de um projeto transformador. E, do outro lado, por que João Campos quer deixar pela metade seu mandato no Recife? Será que já se esgotou diante dos desafios estruturais da capital? Que respostas deixou para os problemas históricos da cidade, da precariedade na saúde pública às deficiências na mobilidade, passando pelo drama das comunidades abandonadas à própria sorte? Como justificar o abandono do centro do Recife e de seus arredores, espaços históricos e vitais que agonizam entre o descaso e a especulação? O que o prefeito construiu de fato, e não de fachada, que o credencia a prometer agora um salto de gestão estadual? É preciso que ele diga com clareza: se não conseguiu entregar um Recife mais digno, por que deveria o povo confiar que fará diferente com Pernambuco inteiro? Quais são, enfim, suas propostas reais, concretas, viáveis, para um Estado que clama por liderança, planejamento e coragem para enfrentar o abismo social que se amplia?

O povo pernambucano não nasceu para ser espectador de um circo. Ele merece ser protagonista de um processo político que vá além do reflexo midiático, um projeto coletivo e comprometido com o bem comum.

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