GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL | Presépios Invisíveis: o Natal que a cidade se recusa a ver

Em cada rua, em cada esquina, há um presépio montado em silêncio. Não há anjos, nem coros. Só o frio, a fome e a lona. São famílias inteiras vivendo à margem da esperança, montadas sob marquises, pontes e calçadas, em plena vigência do que chamamos de civilização.

Esses presépios não ganham flashes, nem postais dourados. São feitos de gente em carne e osso, com o olhar envelhecido pelo cansaço de não existir. Não há reis magos. Só o esquecimento. São cenas que se repetem o ano inteiro, mas que neste dezembro ferem com mais força, porque contrastam com a farsa da fartura, com a anestesia das luzes, com a hipocrisia do “espírito natalino”.

Há mães com os seios secos de tanto esperar, crianças que não conheceram a infância, velhos com a alma vencida. A cidade, esta mesma que pisca em LED e gira em carrosséis de festa,  aprendeu a desviar o olhar, a tropeçar na miséria sem culpa. O Natal virou vitrine, performance.

Hoje, nas ruas, o Natal é utopia.
Só há Natal verdadeiro quando ele caminha em prece e esperança pelo coração do homem.

Mas do lado de fora do espetáculo, o pão falta. O cobertor não cobre. O Estado se ausenta. E a sociedade, que deveria se indignar, se adapta. Aceita. Silencia.

Aos pés dos prédios de luxo, nas praças abandonadas, sob as pontes e viadutos , onde a ceia é resto, e a cama é cimento ,, vivem os verdadeiros presépios do nosso tempo. Não figuram no calendário. Não inspiram ternura. Só dor.

Essa é a vertigem social que preferimos ignorar. A cidade ilumina o alto, mas apaga o chão. O circo gira nos parques, mas não há espetáculo onde falta dignidade. A indiferença virou arquitetura urbana.

É preciso dizer: não há Natal enquanto houver gente morando em presépios de lona e desesperança.

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