Hoje é o dia de Dom Quixote, o terno cavaleiro da loucura invencível. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Num tempo em que os gestos heroicos parecem ridículos e os ridículos são aplaudidos como sensatos, é bom lembrar que houve um homem que saiu pelo mundo para endireitar o que estava torto. Era apenas um fidalgo envelhecido, de carne frágil e mente exaltada, mas com uma alma que já não cabia dentro do corpo. Chamava-se Alonso Quijano, e renasceu Dom Quixote de la Mancha.

Foi em 6 de janeiro de 1605 que a Espanha, e com ela o mundo, conheceu aquele que viria a ser mais do que personagem: um arquétipo. Um cavaleiro andante surgido não das batalhas, mas dos livros. Tomado por um furor sagrado, ele deixou sua vida de anonimato para vestir a armadura da fantasia e tornar-se defensor dos fracos, restaurador da honra, servo da dignidade perdida.

Montado em Rocinante, sua égua tão magra quanto a esperança dos justos, Quixote cruzava os campos da Mancha como quem atravessa o tempo: de frente, com lança em riste, desafiando o grotesco com a nobreza. À sua sombra caminhava Sancho Pança, seu fiel escudeiro de barriga redonda e olhos desconfiados, companheiro de todas as quedas e testemunha de todos os absurdos. Sancho era a terra que sustentava o céu de Quixote. O pão que acompanhava o vinho da loucura.

Diriam que era louco. Que confundia moinhos com gigantes. Estalagens com castelos. Camponesas com princesas. E estavam certos. Mas sua loucura era uma rebelião contra a indiferença do mundo. Uma forma de dizer que é possível amar sem possuir, lutar sem vencer, morrer sem se render.

Dom Quixote amava Dulcineia del Toboso como quem ama um milagre. Nunca a viu, nunca a tocou, nunca soube dela senão pela imagem que criou. Mas essa imagem bastava. Dulcineia era seu norte invisível, sua fé encarnada, sua flor inalcançável. Era o sonho vestido de mulher. Uma mulher que ele inventou, e que o mundo tentou destruir chamando-a de ficção. Mas o que é mais real, a mulher sonhada por um louco ou a realidade estéril de um mundo que não sonha mais?

Nos momentos finais, vencido pelo cansaço das ilusões e pela doença que o consumia, Quixote jaz num leito humilde. Seu corpo queima em febre e seu espírito vacila entre o delírio e a lucidez. Ali, naquele instante em que a morte se aproxima como uma névoa sem rosto, ele vê Dulcineia. Ela entra como um sopro doce, talvez imaginada, talvez real, e repousa os olhos sobre ele. E ele sorri. E a chama. Não por seu nome, mas pelo sentimento que ela sempre representou. Ela é sua redenção. Seu lençol de luz. Sua última batalha vencida.

E ao seu lado, Sancho Pança chora. Não compreende tudo, mas sente. A amizade deles é feita do barro humano e do ouro invisível. Um cavaleiro e um camponês. Um idealista e um realista. Um que vê o que não existe, o outro que vê o que todos veem. E, ainda assim, caminham juntos. Porque juntos formam o ser completo que a vida exige: o que sonha e o que sustenta o sonho.

Há algo de profundamente místico em Dom Quixote. Ele não busca glória, mas sentido. Sua luta é contra a banalidade do mundo. Sua arma não é a lança, mas a pureza da intenção. Seu campo de batalha não é a planície, mas o coração humano.

Quixote é filosofia em armadura. É poesia em carne. É política da alma. Sua figura nos obriga a perguntar: quantos de nós ainda têm coragem de crer no improvável? Quantos aceitam o risco de parecer loucos por defender o que é certo?

Seus gestos, sim, eram patéticos. Mas havia neles uma beleza que falta às virtudes calculadas de hoje. Ele caiu muitas vezes, mas sempre se levantava. Como uma vela ao vento que se apaga e acende no mesmo sopro. Como uma lágrima que não se envergonha de cair.

Dom Quixote morreu no papel. Mas vive em cada um que se recusa a ajoelhar diante do cinismo. Vive em cada mulher que enfrenta o mundo por dignidade. Em cada homem que levanta uma causa maior do que o próprio nome. Em cada alma que, ao ver um moinho girar, ainda tem coragem de acreditar que ali se esconde um gigante.

Ele segue cavalgando. Sempre. Por dentro dos que amam o impossível.

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