Tudo o que dói também escreve. Por Flávio Chaves
Algumas vidas não se contam com palavras, mas com as páginas que o tempo dobrou em silêncio.
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Algumas pessoas vivem como se carregassem uma pequena biblioteca dentro do peito. Uma coleção silenciosa de livros que ninguém vê, mas que pesam na alma com a exatidão de tudo o que foi sentido, perdido e aprendido.
Não se trata de exibir as capas, muito menos de buscar compaixão. Trata-se de seguir vivendo com páginas que insistem em ser lidas novamente, mesmo quando o tempo tenta empurrá-las para o esquecimento.
Livros marcados por perdas. É assim que muitos de nós seguimos: com capítulos riscados, memórias dobradas, trechos que doem quando relidos. Cada perda se transforma em uma dobra no canto da página. Cada ausência deixa uma nota escrita à margem, em letras miúdas que só o coração entende. Algumas palavras ficam sublinhadas com raiva, depois com saudade. Outras, riscadas como quem tenta apagar o que jamais se apagará. E assim o livro da vida vai se construindo, não com capítulos perfeitos, mas com cicatrizes que se recusam a virar ponto final.
Nem todos leem seus próprios livros com a mesma coragem. Alguns fecham as páginas apressadamente, tentam enterrar os volumes mais densos, fingem que não sentem. Outros, no entanto, voltam às histórias, reconhecem os erros, sublinham de novo o que doeu, mas também o que ensinou. São esses que, mesmo feridos, caminham com uma sabedoria quieta, como quem já atravessou tempestades sem perder a escuta da chuva.
Dores profundas não são correntes, são moldes. Reconfiguram a forma como tocamos o mundo, como ouvimos o outro, como reconhecemos o que realmente importa. E se tornam companheiras, não por escolha, mas porque estão inscritas nas páginas que formaram quem somos.
A sabedoria mais verdadeira, aquela que não se ensina em manuais nem se proclama em voz alta, costuma nascer das margens borradas do que vivemos. Nas entrelinhas dos dias difíceis. Na letra trêmula de uma memória que ainda arde. E floresce quando conseguimos transformar tudo isso não em lamento, mas em gesto. Em palavra que acolhe. Em silêncio que compreende. Em presença que não precisa dizer: apenas está.
Somos todos, no fundo, escritos por dentro. Alguns com caligrafia firme, outros com rabiscos e emendas. Mas ninguém passa pela vida sem manchar pelo menos uma página. E talvez, seja justamente essa página, a imperfeita, a rasurada, que nos dá sentido.
Porque é nela que a história deixa de ser fábula e vira verdade.
Share this content:




Publicar comentário