GAZETA PERNAMUCANA, Editorial: Propaganda vira guerra e o ruído poupa gestores que nada entregam
O comercial da Havaianas com Fernanda Torres foi pensado para ser leve, solar, de verão. A peça brinca com um ditado antigo, “começar com o pé direito”, e sugere, com humor, que talvez seja melhor começar com os dois pés. Bastaria isso. No Brasil de hoje, porém, bastou uma frase para que muita gente enxergasse um recado político, surgissem reações de boicote e a conversa escorregasse, quase automaticamente, para o velho tribunal das identidades, onde cada palavra é tratada como senha de pertencimento. Em vez de discutir publicidade, discutiu-se caráter. Em vez de interpretar linguagem, escolheu-se lado. O episódio, por si só, é menor. O que ele revela é grande.
Há um traço do nosso tempo que não pode mais ser tratado como normal: a facilidade com que o debate público é capturado por ruídos que rendem emoção rápida e custam pouco a quem os acende. A frase do comercial não tem a força de um programa de governo, nem a gravidade de uma medida econômica. Mesmo assim, virou combustível. Isso acontece porque a política brasileira, em parte, trocou o chão da entrega pelo palco da excitação. Gestores que falham no básico, e aqui não se fala de um partido ou de uma ideologia, mas de um método que atravessa governos e oposições, aprenderam a administrar indignações como quem administra agenda. Quando não há resultados robustos para apresentar, o conflito simbólico é um atalho sedutor: aponta-se um inimigo, convoca-se uma tropa, e o país se ocupa com o teatro enquanto a vida real cobra soluções sem receber.
É nesse ponto que aparece a tentação de chamar tudo de cortina de fumaça. Convém ter cautela. Não é necessário imaginar conspirações, sala secreta ou coordenação entre marca, artista e governo para reconhecer um fenômeno mais simples e mais perverso. Mesmo sem intenção, certas polêmicas acabam operando como fumaça porque o ecossistema inteiro recompensa isso. Redes premiam a frase que fere. Influenciadores premiam o escândalo que engaja. Políticos premiam o assunto que mobiliza sem exigir prestação de contas. E parte da imprensa, pressionada pela velocidade, também é empurrada para o que está quente. Assim, um episódio periférico ganha centralidade, não por merecimento, mas por rentabilidade emocional.
Enquanto isso, o país real segue no mesmo lugar, com problemas que não cabem em memes e não se resolvem com indignação de curto prazo. O custo de vida continua corroendo a renda. A sensação de aperto, para quem vive do trabalho e para quem depende de benefícios, não se mede apenas por números oficiais; ela se mede na feira, no gás, no aluguel, no remédio e no transporte. A vida do aposentado e do assalariado de baixa renda não melhora com debates simbólicos, melhora com políticas consistentes, com serviços que funcionem, com planejamento que sobreviva à troca de governo. Na educação, a desigualdade de aprendizagem permanece como uma ferida antiga, com evasão, infraestrutura insuficiente e um abismo entre o discurso sobre futuro e a sala de aula concreta. Na saúde, a fila segue sendo experiência cotidiana de milhares. Na segurança pública, alterna-se espetáculo e vazio, sem continuidade suficiente para produzir tranquilidade duradoura. No desenvolvimento, o Brasil patina entre anúncios e descontinuidade, com baixa produtividade, gargalos de infraestrutura, pouca inovação e um horizonte que raramente vira projeto nacional compartilhado.
Para o leitor pernambucano, isso não é abstração. Está na espera por atendimento, no ônibus lotado, na escola que não acompanha o desafio, na renda que não fecha o mês, na dificuldade em enxergar um plano de longo prazo que faça o estado e o país crescerem sem deixar tanta gente para trás. Quando uma sociedade que vive esse cotidiano se vê gastando energia coletiva para julgar um slogan como se fosse destino nacional, é porque há algo fora de eixo. A indignação até pode ser legítima, mas o problema é a direção que ela toma e a facilidade com que ela é capturada.
A crítica, portanto, não é à marca, nem à atriz, nem ao consumidor que reagiu. A crítica é ao ambiente político e cultural que transformou qualquer frase em gatilho e qualquer gatilho em guerra. Direita e esquerda, que deveriam ser categorias de projeto, viraram rótulos morais usados como porretes. Quem domina essa lógica consegue aparecer muito e fazer pouco. Fala-se alto sobre símbolos e fala-se baixo sobre metas, indicadores, prioridades e execução. E quando o barulho ocupa o centro, o essencial vira rodapé.
Se este episódio serve para alguma coisa, serve para lembrar o óbvio que a rotina tenta esconder: um país não melhora porque escolhe um lado numa polêmica publicitária. Um país melhora quando cobra, com seriedade e constância, o que interessa de verdade. Cobrar não é gritar, é exigir entrega. É perguntar onde estão as políticas públicas, quais resultados foram alcançados, o que foi feito com o dinheiro, quais metas foram cumpridas, por que o básico ainda falha, por que a promessa sempre vence a execução. Sem esse tipo de cobrança, qualquer fumaça, intencional ou não, encontrará terreno fértil.
Se quisermos começar o próximo ano com os dois pés, que seja com os dois pés na realidade. Menos liturgia de indignação, mais compromisso com o concreto. Menos guerra por sinais, mais pressão por escola que ensina, saúde que atende, segurança que protege, renda que dignifica, desenvolvimento que se sustenta. O resto é espuma. E espuma, por mais que suba, não alimenta ninguém.
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