GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL – O cínico lamento no palanque: desespero pela sobrevivência no poder

Há um traço recorrente no teatro político pernambucano, e brasileiro,  que se repete com disciplina: o político que reclama e chora raramente está com o coração ferido; muitas vezes está com o poder ameaçado. Não é lamento por falta de escola, por hospital lotado, por estrada intransitável no interior. É, com frequência, lamento por perda de espaço, por ausência da “cereja do bolo” na própria cesta — aquela fatia privilegiada do orçamento, aquele acesso ao cofre simbólico e real que dá fôlego à sobrevivência política.

O choro público, nesse enredo, tem função clara: vitimiza, distrai e negocia. Vitimiza porque tenta reescrever o próprio papel: de responsável vira perseguido; de governante vira refém; de articulador vira “injustiçado”. Distrai porque desloca a conversa do essencial — políticas públicas, resultados, prioridades — para o emocional e o performático. E negocia porque lágrima, em Brasília, no Recife ou no interior, costuma ser moeda. O recado é simples: “sem mim, nada anda”; “sem minha fatia, eu grito”; “sem meu quinhão, eu viro oposição”.

Quando o acesso à máquina diminui, surge a indignação. Quando a influência esfria, aparece o arrependimento. E ele grita alto — não por convicção, mas por cálculo. Troca-se de campo por revolta, não por projeto. Muda-se de lado para punir antigos aliados, não para servir ao eleitor. O adversário, nesse caso, não precisa ser “melhor”, “mais preparado” ou “mais comprometido”. Basta ser útil. Basta oferecer abrigo, promessa, palanque e, principalmente, um caminho de volta ao poder.

O problema é que essa lógica tem um preço: o povo vira detalhe. O povo vira “esquecimento”. A comunidade pobre e sofrida — a que vive o aperto do ônibus lotado, a que enfrenta a fila da regulação, a que paga caro pelo básico — aparece apenas na foto, no jingle e na promessa reciclada. Depois, some da agenda real. A política, quando se torna um sistema de autoproteção, passa a tratar a população como plateia, não como razão de existir.

E aqui reside a ferida mais séria do cenário rumo a 2026: uma parte expressiva da classe política parece ter substituído projeto por patrimônio. A meta deixa de ser melhorar a vida coletiva e vira manter e ampliar território eleitoral, conservar influência, controlar orçamento, garantir capilaridade com cargos e nomeações. O mandato, que deveria ser instrumento público, torna-se ativo privado, administrado como se fosse empresa familiar.

O resultado se vê em dois movimentos que se naturalizaram demais.

O primeiro é o nepotismo eleitoral, a dinastia de urna. Em muitos municípios do interior — e não apenas no interior — a política virou árvore genealógica. E nem se disfarça mais. Eleger namorada, esposa, marido, sobrinho, filho, filha: o sobrenome funciona como logomarca. A propaganda se parece com álbum de família. O argumento quase sempre é o mesmo: “confiança”, “continuidade”, “proximidade”. Mas, na prática, o que se estabelece é um cerco: o poder circula dentro de casa, e a cidade inteira vira quintal.

O segundo movimento é a negociação do pós-urna. Se a família não vence na eleição, a estrutura tenta vencer na caneta: uma secretaria, uma diretoria, um cargo de segundo escalão, uma assessoria estratégica — o bastante para manter presença, orçamento, influência e vitrine. É o poder por dentro, mesmo quando o voto não deu. E assim se monta um ecossistema em que perder a eleição não significa perder o controle: significa apenas mudar o método.

Não se trata de generalizar por gosto ou por raiva. Trata-se de observar um padrão que desgasta a democracia por dentro. Quando as alianças obedecem a ressentimentos e conveniências; quando o discurso muda conforme a direção do vento; quando a lágrima aparece como chantagem; quando a indignação é seletiva; quando a lealdade dura até a próxima nomeação — o que sobra ao eleitor? Sobra a sensação amarga de que a política virou um condomínio fechado, com chaves que passam de mão em mão sempre dentro do mesmo círculo.

E nesse ponto, a frase de Chico Anysio — dita por um personagem, mas ecoada como diagnóstico — aparece como espelho do cinismo que se espalhou: “o povo que se dane”. O humor fazia caricatura. Hoje, a realidade parece disputar com a caricatura, às vezes vencendo.

O mais grave é que, enquanto isso, as comunidades pobres seguem com os mesmos problemas estruturais: saneamento incompleto, creche insuficiente, evasão escolar, insegurança, postos sem médico, estradas vicinais abandonadas, agricultura familiar sem apoio consistente, juventude sem horizonte. O que deveria ser pauta central vira rodapé. O que deveria ser urgência vira promessa de campanha. E o que deveria ser planejamento vira improviso — quando vira.

Para 2026, portanto, o cenário não é apenas eleitoral. É moral, institucional e cultural. Há uma disputa real pelo poder — sempre houve —, mas o que deveria estar em jogo é mais profundo: vamos escolher representantes ou administradores de feudos? Vamos premiar quem entrega resultados ou quem controla estruturas? Vamos aceitar choro como argumento ou exigir números, metas e prestação de contas? Vamos aplaudir migração oportunista de palanque ou cobrar coerência?

A democracia não se sustenta só com urna. Ela depende de vigilância cidadã. Depende de imprensa atenta, de eleitor exigente, de sociedade civil organizada, de Ministério Público e órgãos de controle atuantes — e também de uma cultura que não normalize o “todo mundo faz”. Porque quando “todo mundo faz” vira desculpa, o próximo passo é pior: ninguém se envergonha.

Se 2026 repetir o roteiro, não será por falta de aviso. O país e Pernambuco já viram esse filme: o político sem espaço grita, reclama, chora, dramatiza, muda de lado, promete “agora vai”, chama o eleitor de “prioridade” e, depois, transforma o mandato em ferramenta de sobrevivência pessoal e familiar. A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: até quando o eleitor aceitará ser figurante do poder alheio?

Porque, no fim, há uma verdade que a propaganda não consegue esconder: quando o poder vira herança, o povo vira detalhe. E quando o povo vira detalhe, a política deixa de ser serviço e passa a ser negócio.

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