Memorial da Medicina: a urgência de salvar um século da história de Pernambuco

GAZETA PERNAMBUCANA – Às vésperas de completar 100 anos, histórico prédio do Derby permanece interditado e à espera de restauração definitiva. Médicos e entidades de Pernambuco ampliam a mobilização pela preservação do imóvel e de um acervo que guarda parte fundamental da memória científica do Estado

No coração do Derby, uma das áreas mais conhecidas do Recife, permanece de pé um edifício que pertence não apenas à história da Medicina pernambucana, mas à própria história intelectual, científica e cultural de Pernambuco. O Memorial da Medicina ocupa o antigo prédio da Faculdade de Medicina do Recife, inaugurado em 1927, e se aproxima de seu centenário em uma situação que exige providências urgentes.

O imóvel, de grande valor arquitetônico e histórico, foi construído para abrigar a Faculdade de Medicina e tornou-se, ao longo das décadas, um dos principais símbolos da formação médica no Estado. Depois da transferência da Faculdade para o campus universitário, o prédio passou por diferentes usos até consolidar-se como Memorial da Medicina de Pernambuco, reunindo instituições, documentos, livros, fotografias, instrumentos médicos, mobiliário e peças que ajudam a contar a trajetória de gerações de professores, pesquisadores e profissionais de saúde.

Hoje, porém, o estado do imóvel contrasta duramente com a importância de sua história. Fotografias feitas no interior e na área externa do Memorial mostram a dimensão do problema. Há partes protegidas por coberturas provisórias, estruturas metálicas utilizadas para escoramento, sinais de infiltração, água atingindo áreas internas e espaços nos quais livros, fotografias, quadros e outras peças permanecem acondicionados de maneira temporária. As imagens revelam um patrimônio submetido a condições que estão muito distantes daquelas que deveriam cercar um dos mais importantes acervos da história médica pernambucana.

O alerta mais grave ocorreu em 26 de abril de 2024, quando parte da cobertura do edifício desabou. O episódio provocou a interdição do prédio e tornou evidente uma situação de deterioração que já vinha provocando preocupação entre médicos, pesquisadores e instituições ligadas à preservação da memória da Medicina. Desde então, foram instalados escoramentos e proteções emergenciais, enquanto se aguardam os projetos e a obra definitiva. Em abril de 2025, um ano depois do desabamento, entidades médicas voltaram ao local para cobrar celeridade na restauração.

A proximidade do centenário aumenta ainda mais a dimensão do problema. O edifício foi inaugurado em abril de 1927. Em 2027, portanto, completará cem anos. A data, que deveria ser preparada como uma grande celebração da Medicina pernambucana, encontra o Memorial interditado e ainda aguardando a recuperação definitiva.

A responsabilidade da UFPE e o papel do reitor

O Memorial da Medicina está sob a responsabilidade da Universidade Federal de Pernambuco. A UFPE é responsável pelo imóvel, e cabe ao reitor Alfredo Macedo Gomes transformar essa responsabilidade institucional em ação concreta, determinando as providências necessárias para que o restauro avance com a urgência que o estado do patrimônio exige. A própria Universidade identifica Alfredo Macedo Gomes como seu atual reitor.

Não se discute que uma restauração desse porte exige estudos técnicos, projetos especializados, recursos financeiros, procedimentos administrativos e respeito às normas de preservação de um bem histórico. O que se coloca diante da Universidade é a necessidade de fazer com que essas etapas avancem de maneira compatível com a gravidade da situação.

Quando um patrimônio já sofreu desabamento parcial, permanece interditado e se aproxima de seu centenário, o tempo deixa de ser apenas uma questão administrativa. Passa a ser também um fator de risco.

A cobrança por providências ganhou novo impulso na sexta-feira, 7 de agosto de 2026, quando representantes de entidades médicas reuniram-se com a direção da Universidade para tratar da situação do Memorial. O encontro contou com a participação do presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, Miguel Arcanjo, além de representantes da Academia Pernambucana de Medicina, do Instituto Pernambucano de História da Medicina, do Sindicato dos Médicos de Pernambuco e da Associação Médica de Pernambuco.

Durante a audiência, as entidades reafirmaram a necessidade de preservar o Memorial e seu acervo e cobraram o avanço das ações destinadas à recuperação do imóvel.

A mobilização demonstra que a questão deixou há muito tempo de ser preocupação de uma única instituição. Há uma articulação crescente da classe médica pernambucana para impedir que a deterioração comprometa definitivamente um patrimônio construído ao longo de quase um século.

Uma luta que tem instituições e também nomes

A defesa do Memorial tem sido sustentada por entidades representativas, mas também pela dedicação pessoal de médicos que há anos mantêm ligação com a história e a preservação daquele espaço. Entre eles estão Luiz Barreto, Antonio Peregrino, Hildo Azevedo e Renato Câmara.

Luiz Barreto tem uma relação histórica com o Memorial e com o Museu da Medicina. Durante sua gestão na coordenação do espaço, foram ampliadas atividades científicas e culturais e houve esforço de fortalecimento do Museu. Em estudo publicado pela própria UFPE, Barreto relata a longa trajetória de formação do Museu da Medicina de Pernambuco e as dificuldades enfrentadas até sua instalação no Memorial.

Antonio Peregrino, presidente da Academia Pernambucana de Medicina, tem assumido posição pública em defesa da restauração. Foi uma das vozes da mobilização realizada em abril de 2025, quando representantes da classe médica retornaram ao Derby para exigir rapidez na recuperação do prédio.

Hildo Azevedo, neurocirurgião de reconhecida atuação na Medicina pernambucana e com longa ligação à Academia Pernambucana de Medicina, também integra esse grupo de médicos comprometidos com a defesa do patrimônio. Sua trajetória na Academia e sua presença nas atividades realizadas no Memorial estão documentadas ao longo dos anos.

Renato Câmara também possui forte ligação com o Instituto Pernambucano de História da Medicina e com a preservação da memória médica de Pernambuco. Registros institucionais mostram sua participação na trajetória do Instituto e nas atividades relacionadas ao Memorial.

Citar esses nomes é importante porque patrimônios históricos não sobrevivem apenas por força de decretos de tombamento. Eles sobrevivem também porque existem pessoas dispostas a defendê-los, chamar a atenção da sociedade e insistir para que as autoridades responsáveis cumpram seu papel.

Muito mais do que um prédio antigo

Reduzir o Memorial da Medicina a uma construção histórica seria desconhecer sua dimensão.

Ali está preservada parte da evolução da Medicina em Pernambuco. O acervo reúne milhares de peças ligadas ao ensino e à prática médica, além de documentos, fotografias, livros, equipamentos e objetos capazes de mostrar como diferentes gerações estudaram, pesquisaram, diagnosticaram e trataram doenças.

Um levantamento publicado pelo Simepe já registrava a existência de cerca de cinco mil peças no acervo museológico. É um conjunto que possui importância não apenas para médicos, mas para historiadores, pesquisadores, estudantes e para a sociedade pernambucana.

O edifício também possui valor arquitetônico próprio. Projetado pelo arquiteto italiano Giacomo Palumbo, teve sua construção iniciada em 1925 e foi inaugurado em abril de 1927. O prédio foi posteriormente reconhecido como patrimônio material e cultural de Pernambuco.

É importante recordar ainda que o Memorial já passou por intervenções recentes. Entre maio e novembro de 2018, foram realizadas obras de requalificação que incluíram recuperação da coberta, serviços nas instalações elétricas, forros, divisórias, pintura, reforma dos sanitários e do gradil externo, num investimento informado à época em R$ 722 mil. A obra foi inaugurada em 2019.

Esse dado torna necessária também uma reflexão sobre conservação permanente. Restaurar é indispensável, mas preservar exige acompanhamento contínuo. Patrimônio histórico não pode ser lembrado apenas quando o dano já atingiu uma dimensão emergencial.

As imagens que não podem ser ignoradas

As fotografias recentes do Memorial conferem à discussão uma dimensão que relatórios burocráticos não conseguem transmitir.

Os escoramentos metálicos instalados dentro do prédio revelam a necessidade de sustentação provisória de partes da estrutura. Em determinadas áreas, a presença de água e marcas de umidade evidencia os efeitos das infiltrações. Em outros ambientes, objetos históricos aparecem agrupados e protegidos de forma temporária.

Essas imagens não permitem, isoladamente, concluir que determinado documento ou peça tenha sido perdido ou sofrido dano irreversível. Mas levantam uma questão que precisa acompanhar a restauração do edifício: como está sendo protegido o acervo enquanto o imóvel permanece interditado?

Essa pergunta é tão importante quanto a recuperação das paredes e da cobertura.

Livros antigos, documentos em papel, fotografias, pinturas, mobiliário e instrumentos científicos possuem necessidades específicas de conservação. Umidade, fungos, poeira, calor e contato prolongado com água podem provocar danos irreversíveis. Preservar o Memorial significa, portanto, cuidar simultaneamente do edifício e de tudo aquilo que ele guarda.

Não faria sentido recuperar a arquitetura e permitir que parte da memória armazenada em seu interior desaparecesse durante a espera.

O relógio do centenário está correndo

Há ainda um elemento simbólico impossível de desprezar. Pernambuco está a poucos meses do centenário do prédio.

Em 21 de abril de 2027, a antiga Faculdade de Medicina chegará aos cem anos. Uma instituição dessa importância deveria chegar à data restaurada, aberta e preparada para receber médicos, estudantes, pesquisadores e a população.

O centenário poderia ser utilizado para devolver o Memorial plenamente à sociedade e inaugurar uma nova fase de sua história. O espaço possui condições para funcionar como centro de referência da memória científica pernambucana, reunindo museu, arquivo, biblioteca, exposições, pesquisa, atividades acadêmicas e ações de educação patrimonial.

Poderia também ser o ponto de partida de um amplo processo de digitalização do acervo, permitindo que documentos e fotografias fossem acessados por pesquisadores de qualquer lugar do mundo.Mas nada disso poderá acontecer plenamente enquanto o problema estrutural permanecer sem solução definitiva.

O centenário cria, portanto, não apenas uma oportunidade de celebração, mas uma data concreta diante da qual a Universidade e a sociedade pernambucana terão de responder uma pergunta: em que condições Pernambuco permitirá que esse edifício complete cem anos?

A memória não pode ficar à espera

O trabalho das entidades médicas e a mobilização de Luiz Barreto, Antonio Peregrino, Hildo Azevedo, Renato Câmara e tantos outros que defendem o Memorial cumprem uma função essencial: impedir que o silêncio e a passagem do tempo normalizem a situação atual.

Da reunião com a UFPE precisam resultar providências concretas, cronograma, recursos e execução. A Universidade tem diante de si uma responsabilidade que não pode ser transferida para o futuro. A UFPE é responsável pelo Memorial da Medicina, e cabe ao reitor Alfredo Macedo Gomes conduzir a ação necessária para que a restauração deixe de ser uma expectativa e se transforme efetivamente em obra.

A preservação de um patrimônio dessa dimensão não deve depender da aproximação de mais um inverno, de um novo episódio estrutural ou de outro alerta para ganhar prioridade.Pernambuco já recebeu o alerta.

O desabamento aconteceu. O prédio foi interditado. As entidades médicas se mobilizaram. As fotografias mostram a realidade. A proximidade dos cem anos acrescenta ainda mais urgência.O que se espera agora é ação.

Salvar o Memorial da Medicina significa conservar muito mais do que uma construção no Derby. Significa proteger documentos, objetos, histórias e referências de uma instituição que participou da formação de gerações de médicos e da construção da ciência em Pernambuco.

O prédio chegará aos cem anos em 2027. Que o centenário não seja marcado pelas portas fechadas, pelos escoramentos e pela espera.

Que seja lembrado como o momento em que Pernambuco decidiu salvar uma parte insubstituível de sua própria história.

FOTOS: 

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