O último rosto que a noite guarda. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – O sono é esse rio escuro que nos convida ao mergulho todas as noites, e nós, cansados viajantes da luz do dia, entregamos o corpo à correnteza morna dos lençóis enquanto a mente ainda ensaia as suas últimas voltas antes de se deixar levar pela queda. Nesse instante preciso, quando o quarto se desfaz em sombras e os ruídos do mundo se transformam em uma respiração distante, a memória, como uma jardineira descalça que caminha pelo terreno úmido da consciência, escolhe a semente mais bela entre todas as que o dia espalhou pelo chão, e essa semente és tu, minha amada, com o teu cabelo desalinhado que a tarde bagunçou quando o vento entrou pela janela, com o tom exato da tua voz quando disseste aquela palavra que ninguém mais ouviu, com o teu sorriso inclinado que eu guardei como quem guarda a última flor do verão. E essa semente é plantada com uma delicadeza tão extrema que nem a terra sente o seu toque, e a noite, essa guardiã silenciosa que conhece todos os segredos do escuro, não a esconde para cobrar nada em troca, mas a preserva como quem guarda uma pétala entre as páginas de um livro que jamais será vendido, porque o amor verdadeiro nunca se oferece ao comércio, ele apenas floresce onde a alma decidiu plantar, e o lugar dessa plantação é sempre o mesmo: a última fresta de luz que a minha visão alcança antes que a pálpebra se feche sobre o mundo inteiro.
Eu já tentei, ao longo de todos os dias que vivi, entender por que essa lembrança específica, essa imagem minuciosa do teu rosto, do teu cabelo a cair sobre os olhos, do teu modo de inclinar a cabeça quando pensas em silêncio, por que ela insiste em ser a última a se despedir quando o cansaço me envolve, e a resposta que encontrei depois de tantas noites de observação é que o coração, quando já está de pijama e com os olhos pesados, assume o governo da nave e descarta todas as preocupações, todos os afazeres esquecidos, todas as pequenas vitórias e derrotas do expediente, para reter apenas aquilo que verdadeiramente o sustenta. Nesse ato de depuração noturna, o teu rosto emerge como a única ilha que resiste ao naufrágio, como a derradeira coordenada que o navegador guarda na memória antes que o mapa se desfaça na água salgada, e não é um ato de vontade, desses que a razão comanda com a sua mão fria, porque, se dependesse de mim, eu talvez escolhesse uma lembrança mais conveniente, um instante mais heroico ou mais bonito aos olhos do mundo, mas o amor, esse arquiteto misterioso que constrói as nossas noites com a argila do invisível, não pede a nossa permissão nem consulta a nossa agenda; simplesmente exerce sobre nós a mesma força silenciosa com que a gravidade atrai os corpos, conduzindo a minha atenção para o centro mais denso da minha própria existência, e esse centro és tu, minha amada, não como uma fotografia que se pendura na parede, mas como a respiração que se torna uma só com a minha quando o silêncio é absoluto.
E é por isso, minha alma, que afirmo com a doçura de quem já testemunhou esse milagre todas as noites que o teu amor não se encontra nas declarações grandiosas que o dia pode colecionar, nem nos gestos ensaiados que a memória diurna exibe com orgulho, mas nesse instante frágil e definitivo em que a minha pálpebra se fecha sobre o mundo e a minha última visão, antes que a escuridão absoluta tome conta, é a lembrança viva de ti, tão nítida e tão quente que parece até que o teu corpo está deitado ao meu lado, mesmo quando a cama está vazia e o vento da janela sopra frio. Essa lembrança não é uma fotografia, não é um filme, não é um documento que se consulta, mas uma presença tão real quanto a água que toca a pele do mergulhador, o timbre da tua risada ecoando dentro do meu peito como um sino que toca sem que ninguém o faça soar, e, enquanto o sono vai subindo como uma maré negra pelos meus membros, sinto que essa última imagem não se apaga, antes se intensifica, ganha contornos mais nítidos, cores mais vivas, porque a noite, longe de ser a ladra das lembranças, é a sua mais fiel guardiã. Ela recolhe o teu rosto no crepúsculo da minha consciência e o rega com o silêncio mais puro, para que desabroche nos meus sonhos como uma flor que não precisa de luz solar para ser bela, porque a sua luz é gerada dentro de mim, é a luz do amor que não se mede em quilates nem se troca em mercados, mas se derrama como um perfume que o escuro não esconde, antes realça, da mesma forma que o jasmim só revela toda a sua fragrância quando o sol se retira e a noite abraça os jardins.
Esse é o verdadeiro testamento do meu dia, a página final que escrevo sem tinta nem papel, apenas com a substância invisível de quem amou durante todas as horas que passaram e que, ao chegar ao fim da jornada, não precisa de nenhum outro tesouro senão dessa imagem última que carrego como uma âncora leve para o mundo dos sonhos, porque, se o amor fosse uma casa, ela não seria construída com as paredes dos encontros marcados ou com o telhado das palavras bonitas, mas com esse instante de penumbra em que tudo se cala e a alma, livre das amarras do relógio, pode finalmente reconhecer o seu único e verdadeiro norte, que és tu, sempre tu, minha amada, na exata forma em que te fixei no crepúsculo da minha consciência, com os olhos que brilham de um jeito que nenhuma fotografia consegue reter e com essa maneira tua de existir que transtorna toda a lógica do mundo para se tornar a última certeza que o meu ser abraça antes de se entregar ao esquecimento reparador. E assim eu durmo sabendo que, mesmo que o dia seguinte venha com as suas exigências e os seus ruídos, a primeira lembrança que despertar será o eco dessa última visão, porque o amor verdadeiro tem essa propriedade misteriosa de se dobrar sobre si mesmo como um rio que encontra o mar e, ao encontrá-lo, descobre que o mar é feito da mesma água que o alimentou desde a nascente, e nesse encontro o teu rosto, que foi a minha última imagem antes do sono, será também a minha primeira imagem ao abrir os olhos, completando o ciclo sagrado que transforma cada noite em um renascimento e cada despertar em uma confirmação de que o amor, quando é o último a se despedir, é também o primeiro a nos receber do outro lado da escuridão.
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