O copo que não queria a despedida. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – A cerveja sempre soube mais sobre nós do que imaginamos, talvez porque tenha aprendido, ao longo dos séculos, a sentar-se à mesa sem fazer perguntas, a ouvir sem interromper, a permanecer fria enquanto o coração de quem a segura arde por dentro, e por isso ela chega aos bares como uma velha confidente vestida de ouro, coroada por uma espuma branca e breve, encostando o corpo no vidro como quem se aproxima devagar da intimidade de alguém, esperando que a noite faça aquilo que o dia quase nunca permite, isto é, desarmar os homens, desfazer as aparências, afrouxar os nós da garganta e devolver às palavras a coragem que elas perdem diante das obrigações, das vitrines, dos cargos, das conveniências e de todas essas armaduras que usamos para atravessar as horas sem que ninguém perceba onde realmente dói.

Nos bares da vida, a cerveja aprendeu a reconhecer os que chegam apenas para beber e os que chegam para esquecer, os que procuram amigos e os que procuram a si mesmos, os que riem porque estão felizes e os que riem para não chorar, e talvez essa seja a sua humanidade secreta, porque ela nunca denuncia ninguém, nunca pergunta por que aquele homem demora tanto a levar o copo à boca, nunca estranha a mulher que gira lentamente a aliança no dedo enquanto contempla uma cadeira vazia, nunca cobra explicações do sujeito que pede mais uma rodada quando todos os outros já se levantaram, pois conhece essa gramática subterrânea da alma em que um gole pode significar saudade, outro pode significar perdão e um terceiro, tomado em silêncio, pode ser apenas a tentativa desesperada de adiar por alguns minutos o momento de voltar para uma casa onde ninguém mais espera atrás da porta.

É na madrugada, porém, que a cerveja se transforma, porque deixa de ser apenas dourada e passa a parecer incandescente, como se algum fogo íntimo começasse a arder dentro do copo quando as horas avançam, as vozes diminuem e os homens já não precisam representar para ninguém, e então a luz amarela do bar se mistura à espuma, o vidro devolve reflexos de um ouro cansado e a bebida parece respirar junto com aqueles que permanecem sentados, recusando-se a aceitar a despedida, como se ela também soubesse que o último gole é uma sentença, que depois dele virá a conta, a calçada vazia, a chave na fechadura, o quarto silencioso e a constatação de que a madrugada, por mais generosa que tenha sido, não pode impedir que certas ausências voltem a ocupar todos os cômodos da casa.

Por isso, quando os copos se erguem nessa hora em que a noite já começa a perder sua força para o amanhecer, os brindes quase nunca são exatamente aquilo que dizem, porque há vozes que pronunciam saúde querendo dizer volta, há homens que dizem amizade quando na verdade imploram não me deixe sozinho, há quem bata o copo contra o do companheiro com uma voz quase arfante, como quem tenta esconder o choro provocado por um amor que foi embora e deixou para trás não apenas uma pessoa, mas uma geografia inteira de lembranças, o perfume ainda preso numa camisa, a metade vazia da cama, uma fotografia esquecida numa gaveta, o hábito de esperar um telefone que já não toca e aquela espécie de absurdo íntimo que consiste em continuar amando alguém que já aprendeu a viver sem nós.

E então, em algum canto do bar, a velha radiola de ficha desperta como uma senhora que conhece todos os segredos daquela casa, porque ela também passou a vida ouvindo confissões que nunca lhe foram feitas diretamente, vendo rapazes entrarem cheios de juventude, cabelos longos, camisas abertas e sonhos capazes de ocupar o mundo inteiro, para depois recebê-los décadas mais tarde com os ombros mais baixos, os cabelos embranquecidos e uma coleção de ausências guardadas atrás dos olhos, e bastava que alguém colocasse uma moeda em seu ventre de metal para que ela devolvesse não apenas uma canção, mas uma rua, uma varanda, uma praça, um vestido, um perfume, uma viagem de ônibus, um beijo roubado, uma promessa feita debaixo da chuva e até a voz de alguém que já não estava mais vivo para ouvir o próprio nome.

A radiola de ficha nunca tocou apenas música, porque quem viveu os bares de outros tempos sabe que ela tinha algo de parteira e de coveira, capaz de fazer nascer novamente uma lembrança e de sepultar, no mesmo instante, a ilusão de que certas coisas poderiam voltar a ser como eram, e por isso havia sempre alguém que levantava os olhos quando os primeiros acordes de uma canção atravessavam o salão, alguém que sorria e dizia que aquela era a sua música, usando essa pequena palavra, nossa, sem perceber que dentro dela cabiam duas pessoas, uma casa, uma cama, uma briga, uma reconciliação, uma estrada, um domingo, talvez alguns filhos e, em muitos casos, uma despedida que nunca terminara completamente, porque existem amores que deixam de existir na vida concreta, mas continuam respirando nos porões da memória como brasas escondidas sob a cinza.

A cerveja e a radiola, se pudessem conversar, talvez fossem duas velhas amigas sentadas depois do expediente, comentando baixinho a fragilidade dos homens, uma contando quantas lágrimas já viu desaparecerem dentro de um copo, a outra lembrando quantas mãos trêmulas já empurraram uma ficha para ouvir pela milésima vez a canção de alguém que partiu, e certamente chegariam à conclusão de que os seres humanos têm essa estranha maneira de tentar sobreviver às perdas dando-lhes música, bebida, nome e ritual, como se precisássemos transformar a dor em alguma coisa que pudesse ser tocada, ouvida, compartilhada e, por alguns minutos, suportada.

Talvez seja por isso que tanta gente tenha confiado aos bares aquilo que não conseguiu confiar aos quartos, às igrejas, aos consultórios, aos escritórios ou aos próprios espelhos, porque o bar não exige que a história venha inteira, aceita pedaços, tolera contradições, compreende o silêncio e sabe que certas verdades só conseguem sair pela metade, entre um gole e outro, enquanto a música ajuda a cobrir o constrangimento de quem descobre, tarde demais, que ainda ama alguém que já se despediu, e nessas horas a cerveja cumpre o papel dos grandes amigos, não porque resolva a vida, mas porque se deixa ficar diante de quem precisa apenas que alguma coisa permaneça enquanto quase tudo dentro dele parece estar indo embora.

Quantos amores já foram chorados diante de uma garrafa, quantos regressos foram imaginados na espuma de um copo, quantos telefones foram segurados na mão por longos minutos antes que alguém decidisse não ligar para quem já não deveria ser procurado, quantas vezes uma velha canção fez um homem de sessenta anos voltar a ter vinte, fechando os olhos por alguns instantes e reencontrando aquela moça que dançava com ele num salão abafado, usando um vestido que o tempo destruiu, mas que continua intacto na lembrança, porque a memória é essa costureira obstinada que refaz, com fios invisíveis, aquilo que a vida rasgou sem piedade.

Os bares também conhecem a crueldade discreta do tempo, porque as pessoas vão embora, as mesas são trocadas, os garçons envelhecem, as fachadas mudam, as garrafas ganham novos rótulos e as antigas radiolas acabam expulsas para depósitos ou coleções, mas algumas canções permanecem com a mesma força e alguns amores continuam ocupando dentro de nós a cadeira que deixaram vazia, pedindo uma rodada que ninguém mais serve, e talvez essa seja uma das dores mais refinadas da existência, descobrir que há pessoas que desapareceram completamente da nossa rotina, mas continuam vivendo em nós com uma intimidade que o tempo não conseguiu desalojar.

Existem amores ainda amados, existem amores já despedidos e existem aqueles que moram numa terra sem nome entre uma coisa e outra, onde ninguém mais escreve, ninguém mais telefona, ninguém mais espera junto ao portão, mas basta que uma determinada música comece a tocar para que o coração se comporte como um animal antigo que reconheceu o cheiro da própria casa, e então toda a distância construída ao longo dos anos desaba por alguns minutos, revelando que certas despedidas foram aceitas apenas pela razão, enquanto alguma parte mais funda de nós continuou sentada à mesa, esperando.

A cerveja envelheceu conosco e talvez seja por isso que seu significado também tenha mudado, porque na juventude ela era sobretudo festa, excesso de futuro e desejo de prolongar a noite, enquanto depois de certa idade se torna encontro, memória, pretexto para permanecer um pouco mais perto dos amigos e uma ponte improvisada entre aquilo que somos e aquilo que fomos, de modo que o jovem levanta o copo em direção ao amanhã e o homem maduro muitas vezes o ergue em direção ao ontem, mas ambos realizam o mesmo gesto ancestral de desafiar, ainda que por um segundo, a velocidade com que a vida nos leva.

Brindar, afinal, talvez seja uma das formas mais bonitas que inventamos para negociar com o tempo, porque o som breve de dois copos se tocando dura quase nada, mas naquele instante minúsculo podem caber amizades inteiras, o amigo que ficou, o amigo que morreu, o pai que já não está, o filho que cresceu, a mulher que ainda amamos, aquela que finalmente conseguimos esquecer, a cidade onde fomos felizes, a casa que não existe mais e até uma versão de nós mesmos que ficou perdida em alguma década passada, e por isso cada brinde carrega, sem que percebamos, uma pequena rebelião contra a ideia de que tudo passa e nada permanece.

Talvez seja essa a razão pela qual a cerveja, quando se torna memória, deixa de ser bebida e passa a ser testemunha, pois ela sabe quem chegou, quem partiu, quem prometeu voltar, quem chorou escondido, quem fingiu felicidade, quem beijou alguém pela primeira vez e quem ergueu o último copo para um amigo que já estava morrendo, e se a madrugada pudesse falar talvez contasse que muitos dos grandes acontecimentos da vida não ocorreram em palácios, gabinetes ou salões solenes, mas em mesas simples, cobertas de marcas circulares deixadas por copos molhados, enquanto alguém dizia alguma frase comum que anos depois se tornaria inesquecível.

Quando o último garçom apagar as luzes e empilhar as cadeiras, talvez ainda permaneça sobre alguma mesa um copo pela metade, como se a própria cerveja tivesse se recusado a aceitar que a noite terminara, e no canto do salão a velha radiola, agora silenciosa, guardará dentro de si a última canção como quem protege uma carta que jamais encontrou destinatário, enquanto lá fora o amanhecer começa a empurrar para casa aqueles que ainda resistem, obrigando cada um a reencontrar sua própria vida depois de algumas horas de trégua.

E então novos dias virão, novos homens chegarão aos bares, novas mulheres amarão, outras promessas serão feitas e outras despedidas acontecerão, porque a vida não interrompe seu movimento por causa das nossas saudades, mas talvez exista alguma misericórdia nessa repetição, pois enquanto houver alguém capaz de levantar um copo, colocar uma velha canção para tocar e pronunciar o nome de quem partiu, nenhuma ausência terá conseguido vencer completamente a memória.

Por isso, neste Dia da Cerveja, o brinde não deveria ser apenas à bebida, mas aos bares que nos receberam quando não sabíamos para onde ir, às radiolas de ficha que devolveram nossos mortos por alguns minutos, aos amigos que ouviram nossos absurdos e permaneceram, aos amores que ficaram, aos amores que partiram, aos que ainda doem quando uma determinada música começa e aos que, depois de muitos anos, finalmente deixaram de ser ferida para se transformar naquela ternura triste que permite lembrar sem desabar.

E quando nossos copos se encontrarem, talvez devêssemos deixá-los encostados por um instante a mais, como quem segura a mão de alguém numa estação sabendo que o trem partirá de qualquer maneira, porque chegará também o dia em que nossas cadeiras ficarão vazias, em que outras pessoas ocuparão as mesas que hoje julgamos nossas, em que a cerveja continuará sendo servida sem saber que um dia a bebemos ali, e talvez alguma canção antiga atravesse o salão enquanto alguém, levado por uma lembrança inesperada, pronuncia nosso nome com um sorriso molhado de saudade.

Se isso acontecer, teremos vencido um pouco a despedida, porque seremos a espuma que desapareceu do copo, mas deixou sua marca no vidro, seremos a música que alguém pediu novamente depois de muitos anos, seremos a história que começa com aquele inevitável “você lembra dele?”, e nesse instante estaremos outra vez sentados entre os amigos, não como fantasmas, mas como memória viva, com o coração ainda aceso dentro daqueles que ficaram, erguendo um copo invisível contra a madrugada e brindando, mais uma vez, à amizade, ao amor, à vida e a essa nossa comovente, inútil e belíssima tentativa de jamais dizer adeus por inteiro.

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