Amar é não se esquecer nunca do que amou. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc   –  Amar é não se esquecer nunca do que amou, não porque a memória seja uma cadeia onde o coração permanece condenado, nem porque o passado tenha o direito de impedir a vida de seguir seu caminho, mas porque tudo aquilo que um dia entrou em nós com a força limpa do afeto deixa uma marca que não se apaga com calendário, com distância, com silêncio, com novas paisagens ou novas companhias, e quem amou de verdade aprende cedo ou tarde que certas presenças continuam existindo mesmo depois que deixaram de estar ao alcance das mãos, porque existem pessoas, lugares, vozes, tardes, cartas, músicas e despedidas que não pertencem mais ao mundo de fora, pertencem ao território secreto da alma, onde o tempo entra descalço e fala baixo.

Não falo apenas do amor entre dois corpos que um dia se procuraram com urgência e ternura, embora esse seja talvez o mais visível, o mais cantado, o mais ferido e o mais lembrado de todos os amores; falo também do amor por uma casa antiga que ainda anda dentro da gente, por uma rua de infância onde o sol batia de um jeito que nunca mais se repetiu, por uma cidade do interior, por uma sala onde uma radiola grande de madeira parecia governar as emoções da família inteira, por um banco de praça, por um cinema que não existe mais e que no entanto continua exibindo, para uma plateia de um homem só, as sessões que nos formaram, por um amigo que a vida levou para longe, por um morto que ainda nos visita em certas horas da tarde, por uma juventude que já não volta mas continua caminhando dentro de nós com sapatos gastos e olhos acesos.

Quem amou sabe que o esquecimento absoluto é uma ficção inventada para consolar os apressados. A vida pode até cobrir de poeira aquilo que fomos, pode empurrar para o fundo das gavetas as fotografias, as cartas, os bilhetes, os convites de baile, os ingressos de cinema, os retratos de rosto colado, todas essas pequenas relíquias que não valem nada para os outros e valem uma existência inteira para nós, mas basta uma manhã qualquer, uma palavra dita por um estranho, um perfume inesperado na calçada, uma música antiga escapando de uma janela, uma rua atravessada sem intenção, para que tudo volte com a delicadeza brutal das coisas que nunca morreram completamente, e então descobrimos que o que julgávamos enterrado estava apenas dormindo com a porta encostada.

O amor verdadeiro não termina quando termina. Ele muda de roupa, muda de quarto, muda de voz, perde o corpo cotidiano, perde a convivência, perde a mesa posta, perde o telefone, perde o endereço, mas continua trabalhando em silêncio dentro da gente, como essas raízes profundas que já não aparecem na superfície da terra e que, no entanto, continuam sustentando uma árvore antiga contra os ventos do tempo, de modo que a copa que o mundo vê balançar tranquila não sabe, ou finge não saber, que deve sua firmeza a tudo aquilo que ficou embaixo, invisível e fiel.

Muita gente pensa que esquecer é prova de cura, quando talvez seja apenas prova de que certas coisas nunca chegaram a entrar fundo. Curar-se não é apagar. Curar-se é poder lembrar sem ser destruído, é poder pronunciar um nome sem que a alma se desmanche inteira, é poder olhar para trás sem desejar morar novamente no que já acabou, é reconhecer que a vida seguiu, que outras alegrias chegaram, que outros dias nos chamaram pelo nome, mas que aquilo que foi amado conserva seu lugar legítimo na história íntima que nos formou, como conserva seu lugar na parede o retrato que ninguém mais pergunta quem é, mas que o dono da casa cumprimenta todos os dias com os olhos.

Cada amor que passa por nós deixa uma educação. Alguns nos ensinam a esperar e outros nos ensinam a perder, alguns nos ensinam a falar e outros nos ensinam o ofício mais difícil de calar, alguns chegam como primavera e partem deixando outono nas janelas, outros chegam como tempestade e, mesmo depois do estrago, deixam no ar uma limpeza dolorosa que só as grandes chuvas conhecem. Alguns não deveriam ter ficado tanto, outros não deveriam ter ido embora tão cedo, mas todos, de algum modo, quando foram vividos com verdade, acrescentaram uma palavra ao nosso dicionário interior, e é com esse dicionário, e não com outro, que escrevemos depois tudo o que somos.

Por isso eu desconfio dos corações que se gabam de não lembrar. Quem não lembra talvez tenha apenas passado pela vida como quem passa por uma vitrine, olhando de fora, sem entrar, sem tocar, sem se comprometer com o risco da emoção, e há uma pobreza disfarçada de elegância nesse jeito de atravessar os dias sem deixar que os dias nos atravessem. Lembrar é sinal de pertencimento. Lembrar é admitir que alguma coisa teve poder sobre nós. Lembrar é confessar que não fomos pedra, não fomos muro, não fomos superfície lisa onde a chuva escorre sem deixar vestígio, porque amar, no fim das contas, é exatamente isto, carregar vestígios.

Um jeito de sorrir que nunca se repetiu em outro rosto. Uma frase dita numa tarde qualquer e que, sem saber, ficou morando dentro da gente por décadas, pagando aluguel em saudade. Uma mão que tocou a nossa mão como se acendesse uma lâmpada dentro do corpo. Uma ausência que chegou sem pedir licença e se instalou numa cadeira invisível da sala, e ninguém mais senta naquela cadeira, mesmo quando a casa está cheia. Uma música que, quando toca, não traz apenas melodia, traz uma pessoa inteira, uma época inteira, uma versão de nós mesmos que parecia perdida e que de repente volta respirando, perguntando por que demoramos tanto.

O tempo é um grande administrador de perdas, mas não é dono absoluto da memória. Ele pode envelhecer a pele, embranquecer os cabelos, mudar o ritmo dos passos, fechar clubes, demolir cinemas, apagar letreiros, substituir radiolas por telas, cartas por mensagens, esperas por notificações, mas não consegue entrar sem permissão naquele pequeno santuário onde guardamos o que nos fez sentir profundamente, e nesse lugar o amor continua jovem, penteado para a festa, mesmo que nós tenhamos envelhecido do lado de fora da porta. Talvez seja esse o maior espanto de quem viveu muito, descobrir que dentro do homem maduro ainda existe alguém esperando uma música começar, que dentro do rosto marcado ainda existe o rapaz que ensaiava uma declaração diante do espelho, que dentro da voz cansada ainda existe o menino que acreditava que o mundo cabia inteiro numa tarde feliz. A idade muda o corpo, mas não consegue governar todos os cômodos da alma.

Não se esquecer do que amou não significa viver preso ao passado. Significa honrar o que nos atravessou, significa não expulsar da própria história aquilo que um dia nos fez mais humanos, significa compreender que certas dores são também medalhas, que certas saudades são também formas de fidelidade, que certas lembranças são também altares pequenos onde a vida acende, de vez em quando, uma vela silenciosa para provar que nada foi em vão. Porque nem tudo que termina fracassou. Algumas coisas terminam porque cumpriram sua estação, e algumas pessoas passam por nós não para permanecerem ao nosso lado até o fim, mas para abrirem uma janela, acenderem uma luz, revelarem uma parte desconhecida de nós mesmos e depois seguirem para outro destino, de modo que o erro talvez esteja em exigir eternidade de tudo que foi bonito, quando tantas belezas vieram justamente para durar pouco e ficar muito.

E ficar muito é outra forma de eternidade. Fica uma carta que ninguém mais lerá e que no entanto continua escrita. Fica uma fotografia onde todos parecem vivos demais para envelhecer. Fica um nome que a gente não procura, mas encontra, dobrando esquinas de conversa quando menos se espera. Fica uma canção que continua sabendo o caminho da nossa casa. Fica uma cidade que não é mais a mesma, mas que conserva, só para nós, uma esquina intacta onde o passado ainda espera de braços cruzados. Fica uma voz que já se calou no mundo, mas ainda conversa conosco por dentro, com a paciência que só os mortos queridos possuem. Fica o amor, não como posse, não como cobrança, não como ferida aberta, mas como substância de memória, esse material de que são feitas as paredes mais antigas de um homem.

A grandeza de amar talvez esteja justamente nisso, em aceitar que o amor não nos pertence completamente. Ele nos visita, nos modifica, nos fere, nos ilumina, nos educa, nos amadurece, nos derrota, nos salva, e depois continua existindo de outras maneiras, mesmo quando já não podemos chamá-lo de volta, e quem quer possuir para sempre talvez ame menos do que imagina, enquanto quem consegue guardar sem destruir, lembrar sem exigir, agradecer sem prender, talvez tenha aprendido a forma mais nobre da permanência, que é a permanência sem cativeiro.

Chega uma fase da vida em que o coração deixa de pedir explicações a todas as ausências e apenas as acomoda, colocando uma aqui, outra ali, como quem organiza retratos antigos numa parede interior. Algumas ainda doem, outras já sorriem, algumas trazem culpa, outras trazem gratidão, algumas poderiam ter sido diferentes, outras foram exatamente o que podiam ser, e no meio dessa galeria silenciosa o homem entende, com uma serenidade que demorou a vida inteira para chegar, que sua existência não foi feita apenas do que ficou ao seu lado, mas também do que partiu e continuou, de longe, formando sua alma.

Por isso não quero esquecer o que amei. Não quero arrancar de mim as paisagens que me deram chão, as pessoas que me deram febre, os encontros que me deram coragem, as despedidas que me deram profundidade, os amores que me ensinaram alegria e os que me ensinaram limite. Não quero viver como se nada tivesse acontecido, porque a vida aconteceu, e justamente por ter acontecido com tanta força deixou marcas que ainda respiram, e eu prefiro a companhia das marcas ao conforto liso de uma alma sem registro.

Amar é não se esquecer nunca do que amou porque o amor, quando é verdadeiro, não aceita ser reduzido a episódio. Ele vira matéria da alma, vira jeito de olhar, vira cuidado com certas palavras, vira silêncio diante de certas músicas, vira respeito por certas datas, vira uma ternura inexplicável por lugares onde talvez ninguém mais nos espere, vira essa capacidade estranha de sorrir e sofrer ao mesmo tempo quando uma lembrança nos encontra na rua e nos cumprimenta pelo primeiro nome.

E se alguém me perguntar se isso não é tristeza demais, responderei que talvez seja, mas é também beleza, porque triste mesmo seria atravessar a vida sem ter o que lembrar, triste seria envelhecer limpo demais, sem cicatrizes, sem nomes, sem ruas, sem canções, sem nenhum rosto capaz de estremecer a memória, triste seria chegar ao fim sem carregar no peito a prova de que fomos tocados por alguma coisa maior do que a nossa própria solidão.

Eu guardo o que amei porque o que amei também me guardou. Guardou-me da dureza absoluta, do cinismo, da aridez, da tentação de virar apenas sobrevivente. O que amei me ensinou a continuar sensível num mundo que tantas vezes recompensa os frios, me deu linguagem para escrever, silêncio para compreender, lágrimas para não endurecer, saudade para não me esquecer de que fui inteiro em certas horas, e talvez seja essa a verdade que a vida demora a nos entregar, a de que ninguém sai ileso do amor, mas quem sai intocado perdeu a melhor parte da travessia. Amar deixa dores, sim, mas também deixa luz, deixa ausência, mas também deixa profundidade, deixa saudade, mas também deixa história, deixa perguntas, mas também deixa uma espécie de música sem fim, tocando baixinho dentro da gente quando o mundo lá fora já apagou quase todas as luzes.

Por isso eu digo, sem medo da minha própria emoção, que amar é não se esquecer nunca do que amou. Não como quem se recusa a viver o presente, não como quem deseja reconstruir o que o tempo levou, não como quem transforma a memória em cárcere, mas como quem reconhece, com humildade e gratidão, que tudo aquilo que amamos verdadeiramente continua fazendo parte daquilo que somos. Porque o amor passa, às vezes, as pessoas passam, quase sempre, a juventude passa, inevitavelmente, mas aquilo que foi amado com alma não passa inteiro. Fica. E quando fica, mesmo doendo, nos salva do vazio de ter vivido sem pertencer profundamente a nada.

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