O trilhão de Musk e os Lázaros do mundo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc   – Têm notícias que não deveriam ser recebidas com aplausos. Deveriam ser recebidas com silêncio, espanto e vergonha. A informação de que Elon Musk alcançou a marca de US$ 1,1 trilhão após a abertura de capital da SpaceX não é apenas um feito financeiro. É uma navalha atravessando o rosto moral da humanidade. A Reuters registrou o marco como a chegada do primeiro trilionário do mundo. A Forbes também estimou sua fortuna em torno desse patamar depois da estreia da SpaceX na Nasdaq.

Mas que mundo é esse que fabrica um trilionário enquanto fabrica também crianças famintas, mães desesperadas, velhos abandonados, trabalhadores humilhados e famílias inteiras enterradas em vida pela miséria?

Não me peçam calma diante disso. Não me peçam elegância diante do prato vazio.Não me peçam silêncio diante da criança que dorme com fome enquanto o mercado financeiro brinda mais uma fortuna impossível de ser gasta em uma vida humana.

O trilhão não é apenas dinheiro. É um monumento erguido sobre a desigualdade. É uma torre de vidro construída num planeta de barracos, esgoto aberto, geladeiras vazias e olhos fundos. É a prova de que a civilização aprendeu a lançar foguetes ao céu, mas ainda não aprendeu a colocar comida no prato dos seus semelhantes.

Enquanto alguns celebram a riqueza como se ela fosse santidade, milhões seguem ajoelhados diante da necessidade. A fome não é metáfora. Ela rasga o estômago. Ela enfraquece o corpo. Ela apaga o brilho dos olhos. Ela mata antes da morte. Ela transforma o ser humano em sobra, em número, em estatística, em fotografia de campanha, em discurso de palanque.

Segundo organismos ligados à ONU, entre 638 milhões e 720 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024, com estimativa central de 673 milhões. Outro relatório global apontou que mais de 295 milhões de pessoas viveram insegurança alimentar aguda em 53 países e territórios no mesmo período.

E diante desse cenário, o mundo ainda encontra forças para bater palmas para o trilhão.Isso não é progresso. É escândalo.Isso não é sucesso. É ferida aberta.Isso não é apenas capitalismo moderno. É a consagração de uma religião cruel, onde o dinheiro virou deus, o mercado virou altar e os pobres viraram sacrifício.

Não se trata de inveja. Essa palavra é usada pelos donos do banquete para desmoralizar quem denuncia a fome do lado de fora. Não é inveja. É revolta. É consciência. É a recusa de aceitar como normal um planeta onde uma fortuna individual supera o orçamento de países inteiros enquanto tantos não têm arroz, feijão, leite, remédio, escola, teto, roupa limpa ou condução para procurar trabalho.

Há quem diga que o trilionário venceu pelo mérito. Mas ninguém chega a esse tamanho sozinho. Nenhuma fortuna dessa dimensão nasce apenas de genialidade individual. Ela nasce de estruturas, subsídios, contratos, leis, isenções, mercados protegidos, mão de obra explorada, especulação, influência política e uma ordem mundial montada para transformar poucos em deuses e muitos em servos.

O nome disso é concentração brutal de renda.O nome disso é sequestro do futuro. O nome disso é violência social sofisticada.

No Brasil, essa lógica se veste de outro figurino, mas carrega o mesmo veneno. Aqui, os poderosos aprenderam a administrar a pobreza como quem administra um curral. Falam em Bolsa Família, Vale Gás, tarifa social de energia, CadÚnico, Fundef, Fundeb, Prouni e tantos outros mecanismos que, quando usados com justiça, podem aliviar a dor imediata. Mas quando usados como moeda eleitoral e instrumento de dependência, deixam de ser ponte e viram algema.

O povo precisa comer hoje. Isso é sagrado. Ninguém tem o direito de desprezar a migalha que impede uma criança de dormir com o estômago colado nas costas. Mas a perversidade começa quando a migalha é transformada em projeto permanente de poder. Dá-se o mínimo para que o pobre sobreviva, mas nega-se o bastante para que ele se liberte.

Essa é a engenharia mais suja da política brasileira. Mantém-se o povo com fome de pão, fome de escola, fome de leitura, fome de dignidade e fome de futuro. Depois, aparece o poderoso com a mão suja de privilégios oferecendo uma pequena esmola institucional, como se estivesse fazendo caridade e não devolvendo uma parte mínima do que foi historicamente arrancado.

A periferia não é pobre porque quer. A periferia é ferida aberta. É abandono calculado. É ausência de biblioteca, de saneamento, de segurança, de transporte decente, de escola que liberte, de trabalho que pague com justiça. E quando falta leitura, falta também arma intelectual contra o opressor. O povo sem acesso à educação crítica é empurrado para a gratidão forçada. Agradece pelo pouco porque lhe roubaram o direito de enxergar o muito.

É assim que se mantém o trono dos poderosos. É assim que a pobreza vira curral.É assim que a necessidade vira voto. É assim que a fome vira negócio. É assim que a dor alheia vira fortuna.

No alto, seguem os banquetes. Contratos, emendas, cargos, favores, negociatas, privilégios, rachaduras morais, enriquecimentos escurecidos pela falta de explicação. Gente que ontem nada tinha e hoje desfila vida nababesca, carro importado, fazenda, apartamento de luxo, viagem internacional, relógio caro, festa de milionário e arrogância de senhor feudal.

Perguntem de onde veio. Perguntem como veio.Perguntem quem pagou a conta.A resposta, muitas vezes, está no rosto cansado do trabalhador, na mãe que chora diante da panela vazia, no jovem da periferia sem oportunidade, no doente esperando vaga, no menino sem livro, no idoso contando moedas, no pai humilhado porque não consegue comprar uma roupa digna para ir ao trabalho.

A riqueza de muitos desses senhores não nasce do talento. Nasce da captura do Estado. Nasce da mentira repetida como promessa. Nasce da miséria administrada. Nasce da ignorância mantida. Nasce do povo impedido de pensar.

A frase secreta dessa gente é terrível, mas verdadeira: A pobreza do meu semelhante é a minha riqueza. Eles não dizem isso em público. Em público, falam em desenvolvimento, responsabilidade social, crescimento, modernização, governabilidade, inovação, estabilidade. Mas, nos bastidores, a engrenagem é outra. Quanto mais dependente o povo, mais fácil o domínio. Quanto menos escola, mais forte o curral. Quanto mais medo, mais barato o voto. Quanto mais fome, mais poderosa a mão que entrega a migalha.

Hoje há muitos Lázaros no mundo.Lázaros nas calçadas.Lázaros nos sinais.Lázaros nas filas dos hospitais.Lázaros nas periferias sem saneamento.Lázaros nas guerras.Lázaros nas escolas sem estrutura.Lázaros nas casas onde a mãe finge que já comeu para deixar o pouco alimento ao filho.Lázaros batendo à porta dos palácios modernos, enquanto os novos ricos do planeta celebram números tão grandes que já perderam qualquer relação com a vida concreta. E os cães ainda lambem as feridas.

A fome é uma forma de assassinato lento quando existe riqueza suficiente para combatê-la. O Programa Mundial de Alimentos dos Estados Unidos afirma que seriam necessários cerca de US$ 40 bilhões por ano para alimentar as pessoas famintas e avançar rumo ao fim da fome até 2030. A FAO registrou estimativa mais ampla, de US$ 267 bilhões anuais, considerando investimentos sustentáveis em proteção social, áreas rurais e urbanas.

Então não venham dizer que falta dinheiro.Falta vergonha.Falta prioridade.Falta humanidade.Falta coragem para enfrentar os donos do cofre.

O trilhão de Musk poderia financiar por anos estratégias globais de combate à fome. Poderia encher pratos, irrigar lavouras, fortalecer escolas, salvar crianças, reconstruir comunidades, levar energia, água, tecnologia agrícola, crédito e dignidade a regiões inteiras. Mas o mundo prefere ajoelhar-se diante da fortuna individual e chamar isso de genialidade. Que genialidade é essa que convive tranquilamente com cadáveres? Que futuro é esse que promete Marte enquanto a Terra apodrece em desigualdade? Que civilização é essa que celebra foguetes enquanto crianças morrem por falta de leite?

Eu não posso chamar isso de vitória da humanidade. Não posso. Seria traição aos que sofrem. Seria cuspir no prato vazio dos pobres. Seria virar as costas ao sangue derramado pelos nossos semelhantes.

Essa revolta não é pose. É ferida.Essa indignação não é teatro. É luto.Esse grito não é ódio. É humanidade tentando não morrer sufocada.orque cada criança que dorme com fome desmente o discurso dos poderosos. Cada mãe que chora diante da geladeira vazia acusa o mundo inteiro. Cada trabalhador que não tem roupa limpa para procurar emprego denuncia uma economia que fala em mérito enquanto distribui humilhação. Cada cadáver produzido pela fome é uma assinatura invisível no contrato moral dos que lucram com a dor.

Eu me junto a esse sangue.Eu me junto aos esquecidos.Eu me junto aos Lázaros do nosso tempo.E grito, nem que seja o último grito:Nenhum trilhão vale a lágrima de uma criança faminta.Nenhuma fortuna é inocente quando cresce de costas para a miséria.Nenhum poder é legítimo quando precisa manter o povo de joelhos.

O mundo não precisa de mais bilionários tratados como profetas. Precisa de pão, escola, casa, trabalho, consciência e justiça. Precisa parar de transformar a fome em paisagem e a riqueza obscena em troféu.Porque quando um homem chega ao trilhão e milhões continuam sem comida, não estamos diante de uma conquista.

Estamos diante de um crime moral cometido em praça pública, com transmissão ao vivo, aplauso dos mercados e silêncio covarde dos que preferem não enxergar o sangue escorrendo da mesa do banquete.

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