Olinda perde um filho, o Brasil perde um mestre: Fernando Portela, fundador do Jornal da Tarde, parte aos 82 anos, em São Paulo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves | Gazeta Pernambucana

Morreu no dia 2 de junho o jornalista, escritor, editor e roteirista Fernando Portela, um dos fundadores do extinto Jornal da Tarde, aos 82 anos. A notícia veio de São Paulo como chegam quase sempre as notícias que nos diminuem: tarde demais para alguma despedida que valesse. O velório e a cerimônia de despedida realizaram-se no dia 3 de junho, em Vargem Grande Paulista, e Fernando deixa a esposa Miriam e os filhos Mariana e Antonio.

Mas antes de falar do luto, é preciso falar da vida. E que vida foi essa.

Natural de Olinda, Pernambuco, Fernando Portela começou sua carreira como jornalista aos 17 anos, no Diário da Noite do Recife. Partiu jovem, como tantos filhos do Nordeste que sabem que seu talento não cabe numa só margem. Em 1965, transferiu-se para São Paulo e, nessa cidade, passou a trabalhar para o Jornal da Tarde, do qual foi um dos seus fundadores. A escolha não foi acidental: era o momento em que o jornalismo brasileiro tentava, com urgência e coragem, reinventar a si mesmo.

O Jornal da Tarde nasceu em 3 de janeiro de 1966, lançado em São Paulo por Rui Mesquita com um grupo de jornalistas sob o comando de Mino Carta — um vespertino graficamente revolucionário, ágil, de grandes reportagens. Numa imprensa marcada pela gravidade sisuda e o formalismo sem vida, aquele jornal foi uma fratura luminosa. Reconhecido pela modernidade na paginação e pela qualidade literária das reportagens, o Jornal da Tarde inspiraria gerações inteiras de jornalistas. Fernando Portela estava ali, desde o princípio, num dos postos mais honrosos que um homem de imprensa pode ocupar: o de fundador.

Nesse jornal, Fernando Portela exerceu vários cargos: repórter, redator, pauteiro, chefe de reportagem, editor-geral e repórter especial. Cada função foi escola. Cada escola foi trincheira. Era o tempo da ditadura militar, e o jornalismo de qualidade era também um ato de resistência civil. A primeira briga com o governo veio já no primeiro ano de vida do jornal, quando uma manchete escancarava uma ameaça de censura: “Ditador quer calar a Imprensa.” Fernando Portela era parte desse espírito, formado no Nordeste e temperado na batalha diária das redações paulistanas.

O ápice da sua jornada como repórter chegaria com uma missão que exigia tanto coragem quanto paciência histórica. Em fins de 1978, quase quatro anos após o aniquilamento da guerrilha do Araguaia, foi a vez do repórter Fernando Portela ir à luta. Ele viajou, pesquisou, investigou, perguntou, ouviu, observou e registrou. O texto de Fernando Portela praticamente dobrou a tiragem do Jornal da Tarde durante uma semana inteira, em 1979. Não é pouca coisa: em jornalismo, dobrar a circulação de um jornal com uma única reportagem é o equivalente literário de encher um teatro por semanas. Guerra de Guerrilhas no Brasil, o primeiro texto de fôlego sobre a guerrilha do Araguaia, foi transformada em livro e vende há mais de trinta anos. Nenhum outro epitáfio jornalístico supera esse: o texto que não deixa de circular.

Ao lado do jornalista Ruy Mesquita Filho, Fernando veio a editar duas coleções de livros paradidáticos destinados, preferencialmente, ao ensino médio — “Repórter Especial”, com 34 títulos, e “Kit Mundo Sustentável.” Era o jornalismo transbordando sua função cotidiana para irrigar a formação de jovens leitores, missão que qualquer professor de letras reconhecerá como das mais nobres.

Ainda como jornalista, Fernando Portela foi o responsável pela comunicação da Fiat do Brasil entre 1989 e 2008. Quase duas décadas num posto que exige tanto a síntese quanto a estratégia, habilidades que só quem domina a língua de verdade consegue exercer com distinção.

Mas Fernando era também escritor de ficção, e aqui reside uma das dimensões menos conhecidas de quem o conhecia apenas pelo jornalismo. Desde 1970, o autor publicou quarenta e cinco livros. Completou uma trilogia de contos iniciada com Allegro, em 2003, e continuada com O Homem dentro de um Cão, em 2007, chegando a Memórias Embriagadas, em 2008. Além da atuação no jornalismo, Fernando fez carreira na literatura de não-ficção, escrevendo livros de contos e novelas, como História do Brasil: Verdades e Mentiras, A Velha Chama e A Negra Solidão.

Há algo de simbólico na trajetória de Fernando Portela que ultrapassa o dado biográfico. Ele nasceu em Olinda, cidade que o Brasil inteiro chama de memória, de pedra e de beleza. Foi para São Paulo, cidade que o Brasil inteiro chama de futuro, de velocidade e de força. E ali, no encontro tenso dessas duas temporalidades, ele fez o que fazem os grandes jornalistas: nomeou o presente sem esquecer de onde veio, e contou a história de um país muitas vezes maior do que sua própria coragem de olhá-lo.

Pernambuco nem sempre guarda seus filhos mais brilhantes. Às vezes os exporta, e eles constroem lá fora aquilo que cá dentro não encontraram espaço ou tempo. Fernando Portela foi um desses. Levou nas malas a formação recebida nas terras de Olinda e no calor das redações do Recife, e entregou ao Brasil um jornalismo que tinha alma de literatura e osso de reportagem.

O Jornal da Tarde, onde ele passou seus anos mais fecundos, circulou por quase 50 anos e revolucionou a imprensa brasileira, com reportagens que marcaram os anos 1960 e 1970. O jornal foi encerrado em 2012. Fernando sobreviveu ao jornal por treze anos, o que é também uma forma de dignidade: sobreviver à própria criação e ainda ter histórias para contar.

Agora que ele partiu, cabe a Pernambuco reconhecer nesse filho de Olinda um dos construtores do jornalismo que o Brasil respira ainda hoje. A homenagem não precisa ser de bronze nem de praça pública. Basta que alguém abra Guerra de Guerrilhas no Brasil, leia aquelas páginas escritas com a urgência de quem sabe que a História não espera, e entenda que ali estava um pernambucano fazendo o que Pernambuco sempre soube fazer melhor: dizer a verdade quando ela dói, e dizê-la bem.

Descanse, Fernando Portela. Seu texto ainda circula.


Flávio Chaves é escritor, jornalista (DRT/PE 3249) e membro da Academia Pernambucana de Letras.

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