Quando as minhas décadas ainda doem em mim. Parte final. Por Flávio Chaves.

A travessia, o tempo e as canções que ficaram

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc –  Depois da manhã que acordou as lembranças e da noite que devolveu os clubes, os bares, os cinemas, as fitas cassete, as radiolas e os amores de rosto colado, resta agora olhar para a travessia inteira e compreender que nenhuma década termina de verdade dentro de um homem que viveu com sentimento; ela apenas muda de forma, abandona o calendário, sai das ruas, dos salões, das mesas antigas, dos cabarés de luzes coloridas, das calçadas molhadas depois do cinema, e passa a existir como música escondida no fundo da alma, tocando quando menos se espera, às vezes numa manhã qualquer, às vezes numa noite sem explicação, às vezes no silêncio de um quarto onde o homem, já distante de tantas juventudes, percebe que continua acompanhado por tudo aquilo que julgava ter ficado para trás.

O tempo não leva tudo. Leva os corpos jovens, leva a pressa bonita dos primeiros amores, leva os bailes, leva as roupas da moda, leva os carros antigos, leva as casas onde moramos, leva as vozes que um dia chamaram nosso nome com familiaridade, leva os rostos que a vida apagou das ruas, leva os cinemas, os clubes, as radiolas, as cartas, os discos riscados, os perfumes que não voltam, mas deixa dentro da gente uma espécie de música sem aparelho, uma canção que já não precisa de vinil, fita, rádio ou vitrola, porque aprendeu a tocar sozinha no lugar mais secreto da memória.

Talvez seja isso que chamamos de envelhecer: não apenas somar anos, mas carregar dentro do peito muitas versões de nós mesmos, algumas ainda adolescentes, outras feridas, outras apaixonadas, outras vencidas, outras cheias de esperança, todas vivendo numa mesma casa interior, como se cada década fosse um cômodo onde alguma coisa nossa permanece acesa.

Em certas horas, ainda encontro dentro de mim o rapaz que esperava uma música lenta começar para criar coragem; noutras, encontro o homem sentado diante de um copo, ouvindo a radiola dizer aquilo que ele não dizia; em outras, encontro o menino diante de uma grande radiola de madeira, sem saber que aquele chiado antes da canção seria, muitos anos depois, um dos sons mais sagrados de sua vida.

E então compreendo que a travessia não foi apenas minha. Foi de todos nós que atravessamos um tempo em que a música tinha solenidade, em que uma canção podia marcar uma vida, em que um disco podia ser uma declaração, em que uma fita cassete podia guardar o roteiro inteiro de uma paixão, em que um baile podia dividir a existência entre antes e depois, em que a voz de um cantor parecia conversar diretamente com a nossa dor, como se soubesse nosso nome, nossa rua, nossa falta, nosso segredo.

Por isso “Sailing”, na voz de Rod Stewart, me parece hoje mais do que uma canção bonita; parece uma imagem da própria vida, esse barco frágil que cada um de nós conduz entre mares calmos e tempestades, entre portos que nos acolhem e distâncias que nos ferem, entre partidas inevitáveis e retornos que nunca são exatamente retornos, porque ninguém volta inteiro de uma grande travessia, ninguém atravessa décadas sem perder alguma coisa no caminho, ninguém chega ao outro lado da vida trazendo intacto o coração que levou na juventude.

Mas ainda assim navegamos, mesmo sem mapa, mesmo com medo, mesmo quando a noite cai sobre o mar e não se vê mais a margem de onde partimos. Talvez por isso “Let It Be”, dos Beatles, tenha atravessado tantas gerações como uma espécie de oração simples, uma voz dizendo que, em certas horas, é preciso deixar ser, deixar passar, deixar doer, deixar a vida cumprir sua tarefa, não por covardia, mas por sabedoria, porque nem tudo pode ser vencido, explicado ou recuperado; algumas perdas precisam apenas encontrar um lugar dentro de nós onde possam repousar sem nos destruir.

A juventude quer vencer o tempo. A maturidade aprende a conversar com ele. E talvez a grande dor das minhas décadas seja exatamente essa: descobrir que o tempo não é inimigo barulhento, não chega quebrando portas, não anuncia sua violência; ele trabalha devagar, quase educado, retirando uma presença daqui, uma paisagem dali, uma voz acolá, até que um dia a gente olha em volta e percebe que muita coisa sumiu sem despedida, mas continua existindo em nós com uma nitidez que às vezes chega a doer mais do que a própria ausência.

Foi assim com tantas canções. “Yesterday Once More”, dos Carpenters, talvez seja uma das mais perfeitas para explicar esse sentimento de ouvir uma música antiga e sentir que o ontem volta não como data, mas como visita; volta trazendo o quarto, a sala, o rádio, a roupa, o cheiro da época, a pessoa que estava ao lado, a rua em que se caminhava, a estação do ano, a ingenuidade do coração, e de repente a vida inteira parece caber dentro de uma melodia que dura poucos minutos, mas abre no peito uma eternidade.

O ontem, quando volta pela música, não volta obediente. Ele volta inteiro. Volta com beleza e com ferida. Volta com aquilo que fomos e com aquilo que perdemos por sermos obrigados a continuar vivendo.

E quando penso em “My Way”, na voz de Frank Sinatra, não penso apenas na vaidade de quem diz que fez tudo à sua maneira; penso no balanço inevitável de quem olha para trás e reconhece que acertou, errou, amou, feriu, foi ferido, calou quando devia falar, falou quando devia calar, perdeu pessoas, perdeu tempo, perdeu oportunidades, mas mesmo assim atravessou a existência com alguma dignidade, carregando no rosto as marcas da estrada e no peito a certeza de que viver profundamente nunca foi uma experiência limpa.

Viver deixa sinais. Deixa cicatrizes. Deixa música. Deixa nomes que não se pronunciam mais, mas continuam acesos. Deixa uma estranha gratidão até pelas dores, porque algumas dores, depois de muito tempo, deixam de ser apenas sofrimento e passam a ser prova de que alguma coisa importante nos aconteceu.

A música brasileira soube cantar isso como poucas. “Travessia”, de Milton Nascimento, não é apenas uma canção; é um modo de continuar andando depois da perda, depois do vazio, depois do amor que não ficou, depois da estrada que parece comprida demais para quem já está cansado. Milton canta como quem leva no peito um país inteiro feito de montanhas, despedidas, estradas, silêncios e esperança. E talvez toda vida seja uma travessia: a gente sai de um lugar que não volta, segue para um destino que não conhece e, no meio do caminho, tenta salvar dentro de si as coisas que deram sentido à caminhada.

Também existe em “Força Estranha”, de Caetano Veloso, aquela verdade misteriosa de quem olha a vida passando e percebe que continua sendo atravessado por algo maior, uma força que não se explica, uma energia que faz o artista cantar, o poeta escrever, o homem recordar, o coração insistir, mesmo quando tudo pareceria aconselhar silêncio. Essa força estranha talvez seja a própria memória trabalhando dentro de nós, empurrando para fora o que ainda precisa virar palavra, música, crônica, confissão.

E nesse território ninguém foi maior que Elis Regina quando a dor precisava ganhar corpo, voz e verdade. Em “Atrás da Porta”, Elis não canta apenas uma mulher abandonada; ela canta a dignidade ferida de quem amou até perder o chão, de quem se viu reduzida ao desespero de uma despedida, de quem descobriu que o amor, quando termina mal, não sai pela porta sozinho: arrasta móveis, quebra retratos, apaga luzes, deixa o corpo em pé e a alma caída. É uma canção de ruína íntima, dessas que não devem ser ouvidas com pressa, porque cada palavra parece ter sido arrancada de um lugar onde a dor ainda sangra.

Mas Elis também cantou “Como Nossos Pais”, de Belchior, e aí já não era apenas o amor que estava em jogo; era a geração inteira se olhando no espelho do tempo, percebendo que os sonhos mudam de roupa, que as rebeldias envelhecem, que muita esperança se desgasta, que os filhos às vezes repetem os pais, que a juventude passa, mas a inquietação permanece. Essa canção serve como ponte entre o coração íntimo e o coração histórico do Brasil, entre aquilo que amamos em segredo e aquilo que vivemos como povo.

Talvez por isso eu sinta que algumas músicas pertencem à nossa vida amorosa, enquanto outras pertencem à nossa consciência. Mas hoje ainda estou fechando a travessia afetiva. Amanhã, talvez, o Brasil entre com suas canções de luta, de censura, de rua, de coragem, de flores, de cálices, de edifícios erguidos por mãos invisíveis, de homens que cantaram para não se calar, de um povo que aprendeu a esconder esperança dentro da melodia.

Hoje, porém, fico com esse homem que sou diante das décadas que vivi. Fico com o tempo, com a travessia, com as canções que ficaram, com os amores que não voltam, com os amigos que a vida levou para longe, com os mortos que ainda conversam comigo quando uma música antiga toca, com a juventude que não volta, mas também não morre completamente.

Porque dentro de mim ainda existe um salão com a música lenta começando, ainda existe uma radiola de ficha escolhendo a dor de um homem calado, ainda existe um cinema com duas mãos se procurando no escuro, ainda existe uma carta dobrada, uma fita cassete gravada com cuidado, uma chuva depois da sessão, um bar fechando as portas, um rosto desaparecendo na esquina, uma voz dizendo adeus sem saber que aquele adeus ficaria para sempre.

As minhas décadas ainda doem em mim porque não foram décadas vazias. Foram décadas povoadas de gente, de canções, de ruas, de bares, de clubes, de cabarés, de cinemas, de viagens, de promessas, de derrotas, de paixões, de esperas, de erros, de ternuras, de perdas, de recomeços, de noites em que eu pensei que não suportaria a dor e de manhãs em que, apesar de tudo, a vida voltava a me chamar pelo nome.

E voltei. Voltei muitas vezes. Voltei depois de perdas que pareciam definitivas, depois de amores que me deixaram em pedaços, depois de despedidas que envelheceram alguma coisa em mim, porque a vida, apesar de dura, sempre encontrou uma forma de me colocar outra canção no caminho.

Talvez essa seja a salvação secreta dos homens sensíveis: eles sofrem mais, é verdade, mas também escutam mais profundamente; perdem mais, mas guardam melhor; envelhecem, mas não deixam morrer a criança, o jovem, o amante, o sonhador, o poeta que um dia se emocionou diante de uma voz no rádio e descobriu que a música era uma maneira de Deus tocar os feridos sem precisar aparecer.

Hoje, quando uma dessas canções antigas volta, eu já não tento resistir. Deixo que venha. Deixo que traga seus mortos, seus amores, seus fantasmas, suas ruas, suas noites, seus salões, seus bares, seus perfumes, suas cartas, suas fitas, seus discos, suas lágrimas. Deixo porque sei que lembrar também é uma forma de continuar pertencendo ao que fomos.

Deixo porque a memória, por mais dolorosa que seja, ainda é uma casa. E quem viveu com intensidade precisa, de vez em quando, voltar a essa casa, abrir as janelas, limpar a poeira dos móveis, ouvir os passos antigos no corredor e aceitar que nem todo fantasma vem para assustar; alguns voltam apenas para provar que a vida teve beleza.

Por isso, se “Bridge Over Troubled Water”, de Simon & Garfunkel, me chega hoje como uma ponte sobre águas agitadas, eu a recebo como símbolo de tudo aquilo que me sustentou quando a correnteza parecia forte demais: a música, a poesia, a fé, os amigos, os amores, as lembranças, os silêncios, a própria capacidade de sentir. Cada um de nós precisou de alguma ponte para atravessar suas águas difíceis, e talvez muitas dessas pontes tenham sido feitas de canções.

Canções foram abrigo, companhia, lenço, carta, oração, espelho, despedida e mão invisível que nos segurou quando ninguém via que estávamos caindo por dentro.

E quando penso em “O Mundo é um Moinho”, de Cartola, sinto a advertência sábia e triste de quem conhecia a vida por dentro, de quem sabia que o mundo mói ilusões, vaidades, inocências e amores mal protegidos. Cartola não cantava apenas a dor; cantava a lucidez. E a lucidez, quando chega tarde, fere; quando chega cedo, protege; quando chega pela música, permanece.

“As Rosas Não Falam” me ensina outra coisa: nem tudo que sentimos precisa ser explicado. Algumas dores só florescem em silêncio. Algumas saudades não respondem. Algumas lembranças não têm discurso. Apenas existem, perfumadas e feridas, como rosas que não falam, mas dizem tudo a quem sabe escutar.

Foi isso que as décadas me ensinaram: nem toda dor precisa gritar, nem toda saudade precisa pedir explicação, nem todo amor precisa voltar para continuar existindo, nem toda música termina quando acaba.

A vida passa levando o cenário, mas deixa a trilha sonora. E é essa trilha que agora me acompanha, não mais como quem deseja voltar ao passado, porque voltar é impossível, mas como quem reconhece que o passado, quando foi vivido com verdade, não fica atrás de nós; fica dentro, trabalhando em silêncio, amaciando certas durezas, iluminando certas noites, ensinando que a memória também pode ser uma forma de permanência.

As minhas décadas ainda doem em mim, mas já não considero essa dor uma condenação. Considero uma herança. Uma herança de quem não atravessou a vida distraído; de quem ouviu, amou, perdeu, esperou, dançou, chorou, escreveu, calou, recomeçou, guardou pequenos objetos, pequenos nomes, pequenos sinais, e descobriu que, no fim das contas, somos feitos menos daquilo que possuímos e mais daquilo que não conseguimos esquecer.

A primeira parte desta crônica nasceu de uma manhã. A segunda nasceu da noite. Esta terceira nasce da travessia. E talvez toda existência seja exatamente isso: uma manhã em que a memória acorda, uma noite em que o coração se confessa, e uma travessia em que o homem finalmente compreende que não viveu impunemente, porque viver com alma deixa marcas, viver com amor deixa ecos, viver com música deixa dentro da gente uma orquestra invisível que continua tocando mesmo depois que o baile termina.

Agora, quando olho para trás, não vejo apenas o que perdi. Vejo também o que recebi. Recebi canções que me deram linguagem, amores que me deram profundidade, dores que me deram humanidade, décadas que me deram história, ausências que me ensinaram ternura, e a música como quem recebe um mapa secreto para atravessar o tempo.

E se minhas décadas ainda doem em mim, é porque continuam vivas. Só dói o que ainda respira. Só volta o que teve morada. Só permanece o que, de alguma forma, nos pertenceu profundamente.

Por isso, quando a última música desta trilogia parecer terminar, eu sei que ela não terminará de verdade. Ficará tocando em algum lugar antigo de mim, onde a juventude ainda caminha sem pressa, onde a noite ainda acende suas luzes coloridas, onde a radiola ainda espera uma ficha, onde o cinema ainda escurece para o amor, onde o mar ainda chama para a travessia, onde o tempo, mesmo vencendo quase tudo, não consegue vencer completamente a beleza do que foi vivido com sentimento.

Porque a vida passa, sim.

Mas quando passa cantando, deixa dentro da gente uma eternidade.

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