GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL – O INSS e a fila da vergonha nacional

GAZETA PERNAMBUCANA –  EDITORIAL – Há filas que revelam mais do que atraso administrativo. Revelam abandono. A fila do INSS, que chegou ao patamar escandaloso de mais de 3 milhões de requerimentos, é uma dessas chagas que expõem, sem disfarces, a distância cruel entre o Estado brasileiro e o cidadão que mais precisa dele.

Não estamos falando de papéis esquecidos em gavetas, nem de números frios em relatórios oficiais. Estamos falando de idosos que trabalharam a vida inteira e esperam pela aposentadoria. De viúvas que aguardam pensão. De trabalhadores doentes que dependem de auxílio para comprar remédio e comida. De pessoas pobres, com deficiência, que buscam no BPC não um privilégio, mas a mínima condição de sobrevivência.

A fila do INSS é, hoje, uma vergonha nacional.O mais grave é que essa tragédia não surgiu do nada. Ela é resultado de anos de descaso, falta de planejamento, perda de servidores, precarização do atendimento e de uma burocracia que trata sofrimento humano como protocolo. O país envelheceu, a demanda aumentou, a pobreza continua castigando milhões de famílias, mas a estrutura do INSS encolheu. O resultado está diante de todos: uma multidão de brasileiros empurrada para a espera, para a insegurança e, muitas vezes, para o desespero.

O governo pode apresentar planilhas, anunciar mutirões, divulgar números de suposta redução e tentar transformar estatística em propaganda. Mas a realidade nas casas humildes, nas filas virtuais, nas agências superlotadas e nos corredores da perícia médica é outra. Para quem está sem renda, sem remédio e sem resposta, pouco importa o discurso oficial. O que importa é receber aquilo que é seu por direito.

Aposentadoria, pensão, auxílio por incapacidade e benefício assistencial não são favores concedidos pelo governante de plantão. São direitos sociais. São compromissos assumidos pelo Estado com quem contribuiu, trabalhou, envelheceu, adoeceu ou vive em situação de vulnerabilidade. Quando esse direito demora meses para ser analisado, o Estado não apenas atrasa um processo. O Estado falha moralmente.

É preciso dizer com todas as letras: reduzir fila negando benefício em massa não é eficiência. Trocar atendimento humano por labirintos digitais também não é modernização. Obrigar idosos, enfermos e pessoas simples a enfrentar sistemas instáveis, perícias demoradas e exigências sucessivas é uma forma cruel de exclusão.

O drama é ainda mais duro no Nordeste, onde milhares de famílias dependem diretamente da renda previdenciária para sustentar a casa, movimentar o comércio local e garantir comida na mesa. Em muitos municípios, o pagamento do INSS é mais importante para a economia popular do que qualquer obra anunciada em palanque. Quando o benefício atrasa, não sofre apenas o segurado. Sofre a família inteira. Sofre o pequeno comércio. Sofre a cidade.

A Gazeta Pernambucana não aceita que essa crise seja tratada como simples gargalo burocrático. O que existe é uma multidão de brasileiros abandonados à própria sorte, enquanto gestores se escondem atrás de sistemas, metas e comunicados oficiais. O cidadão pobre não pode ser invisível para o Estado. O idoso não pode morrer esperando. O trabalhador doente não pode ser condenado à fome pela lentidão de uma máquina pública que deveria protegê-lo.

O INSS precisa de servidores, estrutura, perícias ágeis, transparência e respeito. Precisa de gestão, mas, sobretudo, precisa de humanidade. Nenhum país pode se considerar justo enquanto transforma o direito previdenciário em peregrinação humilhante.

A fila do INSS é a fila da vergonha nacional porque nela estão os brasileiros que mais deveriam ser amparados: os idosos, os enfermos, os pobres, os trabalhadores cansados e as famílias vulneráveis. Gente que não pede favor. Gente que pede justiça.

E justiça atrasada, quando se trata de sobrevivência, é abandono.

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