O dia em que a saudade bateu à porta. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Certos dias a saudade não chega como uma visita anunciada, dessas que batem palmas no portão da memória e esperam que a gente abra a porta com alguma cerimônia, mas entra pela casa sem pedir licença, atravessa a sala, encosta-se nos móveis antigos do pensamento, mexe nos retratos que estavam aparentemente quietos dentro de nós e, de repente, quando percebemos, já está sentada à nossa mesa, tomando o café frio das coisas que não voltam mais, olhando para a nossa vida com aquela intimidade silenciosa de quem conhece todos os nossos esconderijos, todas as nossas perdas, todas as nossas antigas alegrias guardadas em gavetas que fingimos ter esquecido.
A saudade tem uma educação estranha, porque não grita, não derruba portas, não ameaça ninguém, mas possui uma autoridade maior do que qualquer violência, pois basta que ela toque de leve no ombro da alma para que o homem mais ocupado do mundo pare no meio da rua, esqueça por alguns segundos o destino para onde ia, olhe para um canto qualquer da cidade e descubra que ali, naquele pedaço de calçada, naquela árvore envelhecida, naquela janela com cortina aberta ou naquele cheiro de chuva começando a subir do asfalto quente, havia uma parte inteira de sua vida que continuava vivendo sem ele, como se o passado, contrariando as leis do tempo, não aceitasse morrer apenas porque os calendários foram arrancando suas folhas.
Não sei se todo mundo entende a saudade da mesma forma. Talvez haja quem pense que sentir saudade seja apenas lembrar de alguém, de uma casa, de uma infância, de um amor, de uma voz, de um domingo antigo ou de uma mesa em volta da qual todos ainda estavam vivos e conversavam sem saber que aquele instante, tão comum, tão simples, tão sem solenidade, um dia seria uma espécie de relíquia dolorosa dentro do peito. Mas a saudade é mais do que lembrança. A lembrança é uma fotografia que a memória conserva; a saudade é a mão invisível que passa sobre essa fotografia e faz a imagem respirar outra vez. A lembrança mostra. A saudade devolve o peso. A lembrança diz: foi assim. A saudade pergunta: por que não pode ser de novo?
E talvez seja exatamente por isso que a saudade nos humanize tanto, porque ela nos impede de sermos criaturas apenas do presente, esses seres apressados que correm de uma obrigação para outra, de uma notícia para outra, de uma tela para outra, sem perceber que a vida verdadeira muitas vezes não está no brilho ansioso do que acontece agora, mas naquilo que permaneceu dentro de nós com uma espécie de claridade antiga, como uma lamparina acesa no fundo da casa, iluminando discretamente os corredores por onde ainda caminham os passos de quem amamos, os risos de quem partiu, as palavras que não tivemos coragem de dizer e até os silêncios que, só muito depois, aprendemos a escutar.
Há saudades que têm cheiro de café coado em pano, de chão lavado no fim da tarde, de roupa secando no varal, de caderno escolar com a primeira letra torta, de feira livre, de igreja antiga, de banco de praça, de livro emprestado que nunca foi devolvido, de rádio ligado baixinho na cozinha, de mãe chamando o filho pelo nome inteiro quando a preocupação era grande demais para caber num apelido. Há saudades que têm som de portão rangendo, de chinelo no corredor, de chuva no telhado, de prato sendo colocado na mesa, de uma voz que a morte levou embora mas que continua, por alguma misericórdia misteriosa, repetindo dentro de nós certas frases pequenas que se tornaram eternas porque foram ditas por quem nunca deveria ter partido.
E há também a saudade dos amores, essa forma mais perigosa e mais luminosa de permanência, porque o amor, quando é verdadeiro, mesmo quando termina, não se comporta como um objeto que se devolve, uma chave que se entrega, uma roupa que se esquece no fundo do armário, mas como uma casa construída dentro da própria alma, uma casa que pode ficar fechada por anos, com as janelas cobertas de poeira e as cadeiras vazias, mas que continua existindo, inteira, esperando que um perfume, uma música, uma tarde, uma palavra ou a simples inclinação da luz sobre a parede faça a porta se abrir novamente, e então descobrimos que ninguém sai completamente de um lugar onde foi amado de verdade.
Por isso, não devemos desprezar a saudade como se ela fosse apenas uma fraqueza sentimental, um luxo de quem se demora demais no que passou ou uma doença romântica de almas incapazes de aceitar a dureza do mundo. A saudade, quando não nos destrói, nos aprofunda. Ela nos ensina que fomos tocados por alguma coisa importante, que houve em nossa vida pessoas, lugares e instantes capazes de deixar marcas que nem o tempo, nem a distância, nem a morte conseguiram apagar. O vazio que a saudade abre é, muitas vezes, a prova de que algo imenso existiu. Só sente falta quem teve presença. Só sente ausência quem conheceu a plenitude de alguém ou de alguma coisa. Só dói assim aquilo que um dia foi grande o bastante para morar dentro de nós.
Talvez a grande tragédia do nosso tempo seja essa tentativa desesperada de viver sem saudade, como se o passado fosse um arquivo morto que devemos deletar para seguir adiante, como se amadurecer fosse esquecer, como se a felicidade dependesse de apagar todas as pegadas deixadas no caminho. Mas ninguém amadurece apagando o que viveu. A gente amadurece aprendendo a carregar. Carregar sem se ajoelhar para sempre diante da perda. Carregar sem transformar a vida num altar de lamentações. Carregar como quem leva no bolso uma pequena pedra encontrada numa praia distante, uma pedra sem valor para os outros, mas que guarda, para nós, o barulho do mar inteiro.
Hoje, se a saudade bater à porta, talvez não seja preciso expulsá-la. Talvez seja melhor deixá-la entrar, oferecer-lhe uma cadeira, permitir que ela fale um pouco, que mostre os rostos que trouxe, que devolva por alguns minutos a luz de um tempo que parecia perdido. Depois, quando ela se levantar para ir embora, porque até a saudade, quando respeitada, sabe a hora de sair, talvez fiquemos um pouco mais silenciosos, um pouco mais frágeis, mas também um pouco mais humanos, como quem compreende que a vida não é feita apenas do que permanece ao nosso lado, mas também daquilo que, tendo ido embora, continua nos ensinando a amar.
E se alguém perguntar por que ainda sentimos saudade, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de tantas mudanças, mesmo depois de tantas portas fechadas e estradas percorridas, talvez a resposta seja simples: porque o coração não obedece ao calendário dos homens. Ele guarda suas próprias datas, seus próprios aniversários secretos, suas próprias liturgias de dor e beleza. E, enquanto houver dentro de nós uma voz antiga chamando pelo que foi amado, a saudade continuará sendo essa visita misteriosa que chega sem avisar, não para nos devolver o passado, mas para nos lembrar que algumas coisas, justamente por terem passado, ficaram para sempre.
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