Tem gente cansada de ser forte o tempo todo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Ela chegou no apartamento às nove e quinze, tirou os sapatos de salto como quem tira uma máscara, e ficou ali, descalça sobre o piso frio da cozinha, olhando para a chaleira. Não tinha lágrimas, não tinha sorriso. Tinha apenas um cansaço que não morava nos músculos, morava num lugar mais antigo, mais fundo, naquela região imprecisa onde a gente guarda o que não consegue nomear.

O dia fora normal. Reuniões, prazos, um colega que desabou na mesa ao lado, dizendo que não aguentava mais, e ela, prontamente, ofereceu o ombro e as palavras certas. “Vai passar”, disse. “Você é mais forte do que imagina.” E acreditou no que dizia, como sempre acreditava. O problema não é a mentira, o problema é quando a mentira vira hábito, e o hábito vira armadura, e a armadura vira pele.

Aliás, quem inventou que ser forte é virtude sem custo? A força que se vê, essa que estufa o peito e sustenta os outros, quase sempre vem acompanhada de uma fatura silenciosa que ninguém pergunta se podemos pagar. Pagamos. Parcelamos em noites mal dormidas, em gargantas que aprendem a engolir o choro antes que ele desça, em ombros que se curvam sozinhos quando ninguém está olhando. Ser forte é ofício de anônimos.

Ela pensou na vizinha do terceiro andar, viúva há dois anos, que todas as manhãs desce com o lixo e um sorriso impecável. Pensou no amigo que riu na festa enquanto o casamento se desfazia em silêncio dentro do bolso do paletó. Pensou no pai, que nunca disse “estou cansado” num país onde homens da idade dele não podem dizer isso sem que algo neles se quebre de vez. Pensou em si mesma.

A chaleira apitou. O gesto de fazer chá é quase uma prece leiga, água, folhas, espera. Ela preparou a caneca, sentou-se à mesa da cozinha, e deixou que o silêncio ocupasse o lugar das palavras que costumava fabricar para os outros. Foi então que aconteceu: um soluço. Não veio dos olhos, veio do peito, como se dentro dela houvesse uma corda há muito esticada que enfim se partia. E ela não fez nada para impedir. Pela primeira vez em semanas, não se chamou de fraca. Apenas deixou.

Porque há um cansaço que não se resolve com café, com frases de autoajuda ou com uma semana de praia. Há um cansaço que é existencial, que nasce da contradição entre o que sentimos e o que mostramos, entre o que precisamos e o que oferecemos, entre a fragilidade que somos e a força que o mundo nos cobra como se fosse calçamento. Estamos exaustos de sustentar o inexaurível.

Ela terminou o chá, lavou a caneca, foi para o banho. A água quente demorou a descer pelas costas, precisou ensinar os músculos a desarmarem. Depois, já na cama, pegou o telefone e escreveu para a amiga distante: “Estou cansada. Não de fazer coisas. Cansada de ter que parecer inteira quando por dentro sou só retalho.” Enviou antes que a coragem fosse embora. A resposta chegou três minutos depois: “Eu também. Sempre achei que era só comigo.”

Ali repousa o paradoxo mais humano: sofremos a solidão da força escondida, quando a verdade é que quase ninguém está inteiro — quase todo mundo só aprendeu a disfarçar melhor. O grande medo não é o desabamento; é descobrir que desabar, às vezes, é o movimento mais honesto do corpo.

Ela dormiu sem travesseiro, de lado, como quem se permite, enfim, o peso que sempre carregou. E no escuro do quarto, antes que o sono chegasse, pensou que talvez a coragem não esteja em nunca cair, mas em deixar que o chão nos receba quando cairmos. Pensou que ser forte, às vezes, é justamente parar de tentar ser forte. Pensou que o descanso não é para os fracos: o descanso é para os que já correram demais.

Lá fora, a noite seguia indiferente. Dentro dela, algo pequeno e novo começava, não a força antiga, mas uma trégua. Uma permissão. Um lembrete de que a alma também tem fadiga, e que a fadiga, quando bem ouvida, vira sabedoria. Ela sorriu no escuro. Não era um sorriso de vencedora. Era melhor: era um sorriso de quem, finalmente, baixou a guarda e descobriu que ainda assim, miraculosa e absurdamente, continuava em pé.

Há uma beleza no cansaço que ninguém avisa. A beleza de parar de representar. A beleza de, por um instante, ser apenas água que não precisa correr para lugar nenhum.

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