Maysa: a voz que cantou o amor e sua dor de amar. Por Flávio Chaves
No mês em que celebramos seu nascimento, a cantora e compositora segue viva como uma das interpretações mais intensas e emocionantes da música brasileira
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Certos artistas pertencem a uma época. Outros atravessam o tempo como se nunca tivessem partido. Maysa está entre estes últimos. Nascida em 6 de junho de 1936, a cantora, compositora e atriz tornou-se uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira, dona de uma interpretação inconfundível, carregada de beleza, melancolia, coragem e verdade.
Falar de Maysa é abrir uma porta para a nostalgia. É lembrar de um Brasil em que a canção romântica tinha densidade, em que a dor de amor era cantada com elegância, e em que uma mulher, diante de uma sociedade conservadora, ousou transformar seus sentimentos em arte. Ela não apenas cantava: confessava. Cada verso parecia nascer de uma ferida íntima, mas também de uma força rara.
Maysa Figueira Monjardim Matarazzo ficou consagrada no universo do samba-canção, gênero que ajudou a projetar com uma dramaticidade própria. Seu primeiro disco, “Convite para ouvir Maysa”, lançado em 1956 pela RGE, trazia composições suas e marcou o início de uma carreira que logo chamaria a atenção do público e da crítica.
Entre suas canções mais lembradas estão “Ouça”, “Meu Mundo Caiu” e “Adeus”, esta última composta ainda na adolescência. Em “Meu Mundo Caiu”, talvez uma de suas obras mais emblemáticas, Maysa sintetizou como poucos a dignidade de quem sofre, mas não se entrega à vulgaridade da mágoa. Sua tristeza tinha classe. Sua voz tinha abismo.
Maysa também foi uma mulher à frente de seu tempo. Viveu amores, enfrentou julgamentos, expôs fragilidades e pagou caro por não se enquadrar no papel silencioso que muitos esperavam das mulheres de sua geração. Em tempos em que a fama feminina era frequentemente vigiada com severidade, ela escolheu existir com intensidade. E essa intensidade foi, ao mesmo tempo, sua marca e seu fardo.
Seu canto dialogou com a chamada “fossa”, com o samba-canção e também com a geração da bossa nova, especialmente após sua mudança para o Rio de Janeiro, onde passou a conviver com nomes importantes daquele ambiente musical. Mas Maysa nunca coube inteiramente em rótulos. Era maior que o gênero, maior que a moda, maior que a moldura. Tinha uma presença que dispensava explicações.
A trajetória foi breve, mas definitiva. Maysa morreu em 22 de janeiro de 1977, aos 40 anos, vítima de um acidente automobilístico na ponte Rio–Niterói. A partida precoce apenas ampliou o mito em torno de sua figura: a mulher dos olhos verdes, da voz grave, da interpretação cortante, da alma exposta sem disfarces.
Quase cinco décadas depois de sua morte, Maysa permanece atual porque cantou sentimentos que não envelhecem. A solidão, o amor perdido, o orgulho ferido, o desejo de recomeçar, a coragem de dizer “não” e a delicadeza de continuar amando mesmo depois da queda. Sua obra segue ecoando porque nasce de uma matéria-prima universal: o coração humano.
Celebrar Maysa neste mês de junho é reconhecer que a música brasileira tem, em sua história, vozes que são mais do que registros fonográficos. São testemunhos de uma sensibilidade nacional. Maysa foi uma dessas vozes. Uma artista que fez da dor uma estética, da saudade uma linguagem e da própria vida uma canção intensa, bela e inesquecível.
Salve, Maysa.
A grande dama da canção brasileira continua falando ao coração do Brasil.
Veja o Vídeo:
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