Quando as Minhas Décadas Ainda Doem em Mim. Por Flávio Chaves
A manhã em que uma canção antiga acordou minhas lembranças
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Hoje pela manhã, ao ouvir novamente “Tu”, na voz de Júlio César, senti que uma canção antiga pode trazer de volta não apenas um tempo, mas uma vida inteira escondida dentro do tempo: as radiolas grandes de madeira nas salas das casas, os clubes das cidades do interior, os bares onde a música pagava a confissão dos homens, os cabarés de luzes coloridas, os amores que ficaram pelo caminho e essa estranha certeza de que nada do que amamos se perde completamente, porque tudo aquilo que um dia tocou fundo na alma continua existindo em algum compartimento secreto de nós, esperando apenas uma nota, uma voz, um refrão, uma manhã qualquer, para se levantar dos escombros e dizer que ainda está vivo.
Foi assim comigo.
A música começou, e de repente eu já não estava apenas diante de um aparelho moderno, dessa frieza luminosa das telas de hoje, onde tudo parece fácil demais, rápido demais, descartável demais; eu estava outra vez diante de uma radiola antiga, dessas grandes, pesadas, de madeira escura, quase um móvel sagrado dentro da casa, com seu cheiro de verniz, sua tampa levantada, seu braço descendo lentamente sobre o disco como quem pousa uma mão sobre uma lembrança, e aquele chiado inicial, antes da voz, parecia anunciar não uma canção, mas uma cerimônia íntima, uma missa doméstica celebrada para os vivos, para os mortos, para os ausentes e para todos os amores que nunca souberam o tamanho da permanência que deixaram em nós.
As décadas que vivi doem dentro de mim porque cada uma delas tem uma trilha sonora própria, e nenhuma dessas trilhas ficou presa ao passado como imaginam os que pensam que o tempo passa inteiro; o tempo não passa inteiro, não, o tempo deixa farpas, deixa fotografias, deixa cheiros, deixa ruas, deixa nomes, deixa roupas no varal da memória, deixa vozes guardadas no fundo de uma tarde, deixa um banco de praça, uma mesa de bar, um salão de clube, uma ficha caindo na radiola, uma mão que a gente segurou sem saber que um dia passaria a vida inteira procurando de novo aquela mesma temperatura.
Naqueles anos, uma música não era apenas entretenimento, era destino; tocava “Como Vai Você”, na voz de Antônio Marcos ou de Roberto Carlos, e a pergunta, aparentemente simples, atravessava a noite como uma carta que chegou tarde demais, porque ninguém perguntava apenas como alguém estava, perguntava também se ainda lembrava, se ainda doía, se a vida tinha conseguido apagar o que os olhos não conseguiram esquecer, se o amor, depois de tanto silêncio, ainda conservava algum lugar para se sentar dentro do peito.
E quando vinha “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, de Fernando Mendes, parecia que o próprio título já dizia tudo aquilo que a alma não tinha coragem de confessar, porque certas pessoas nos ensinam tantas coisas — o caminho de uma rua, o gosto de uma saudade, a alegria de uma espera, a dor de uma partida — mas não nos ensinam a esquecê-las, e talvez não ensinem porque ninguém sabe verdadeiramente ensinar o esquecimento, essa mentira que a vida inventou para consolar os fracos, pois quem amou de verdade não esquece; apenas aprende a continuar vivendo com a presença invisível do que perdeu.
Amar é não se esquecer nunca do que amou.
Por isso “Detalhes”, de Roberto Carlos, continua sendo uma dessas canções que parecem conhecer o inventário secreto dos amores antigos, porque o amor, quando termina, não termina nos grandes acontecimentos, termina nos detalhes: numa roupa, numa palavra, num perfume, numa risada lembrada de repente, numa música que toca sem aviso dentro de um supermercado, numa fotografia encontrada entre papéis velhos, num número de telefone que a memória ainda sabe, embora a vida já não tenha coragem de discar.
Também me vieram as canções estrangeiras que nos ensinaram que a dor tinha muitos idiomas, mas falava sempre a mesma língua dentro do coração; “Dio, come ti amo”, com Gigliola Cinquetti, chegava como uma oração italiana, exagerada e pura, melodramática como só os grandes amores sabem ser, e mesmo quem não compreendia cada palavra compreendia tudo, porque existe um idioma anterior à tradução, um idioma que não passa pela gramática, mas pela ferida, pela ternura, pela vontade quase infantil de dizer a alguém que o amor é grande demais para caber numa frase.
“Aline”, de Christophe, trazia aquela dor fina, francesa, meio enevoada, como se um homem chamasse por uma mulher não apenas numa praia, numa rua ou numa lembrança, mas dentro de um vazio onde a voz volta para o próprio peito; “One Day in Your Life”, de Michael Jackson, parecia prometer que um dia, em algum lugar do futuro, alguém ainda se lembraria de nós, e essa promessa era quase uma vingança delicada contra o esquecimento; “Skyline Pigeon”, de Elton John, fazia a juventude querer voar, fugir, abrir as asas, atravessar o céu, sair da gaiola estreita dos destinos pequenos, embora hoje eu saiba que muitos de nós voamos apenas por dentro, enquanto a vida, severa, nos mantinha presos às suas obrigações.
E como não lembrar de “My Life”, de Michael Sullivan, dessas músicas que entravam pelas rádios e se instalavam na juventude como se fossem propriedade de cada um de nós, embora viessem de outro lugar, de outra língua, de outra paisagem; ou de “If You Could Remember”, naquela voz de Tony Stevens, que era Jessé antes de ser Jessé para tantos corações brasileiros, música que parecia nascer já com poeira de lembrança, já com sombra de despedida, já com aquele sentimento de baile antigo onde alguém dançava perto demais de um sonho e longe demais da felicidade.
“We’re All Alone”, na voz de Rita Coolidge, tinha outra delicadeza, uma espécie de solidão acompanhada, uma melancolia macia, dessas que não rasgam a alma de uma vez, mas vão cobrindo tudo lentamente, como cortina descendo no fim de um espetáculo; e talvez fosse isso que aquelas músicas faziam conosco: davam forma ao que não sabíamos dizer, emprestavam palavras ao que só sabíamos sentir, transformavam em melodia aquilo que, sem elas, talvez ficasse preso em nós como choro engasgado.
Nas cidades do interior, os clubes tinham outra solenidade. Uma festa não era apenas uma festa; era um acontecimento social, sentimental, quase histórico para quem tinha pouco e sonhava muito. As moças se arrumavam como quem ia encontrar o futuro, os rapazes ensaiavam coragem diante do espelho, as luzes coloridas pareciam mais bonitas do que realmente eram, e quando uma música lenta começava, o salão inteiro mudava de temperatura, porque dançar junto, naquele tempo, era uma forma respeitosa de perigo, era chegar perto do mistério do outro sem dizer quase nada, era sentir que uma vida podia mudar dentro de três minutos de canção.
Nos bares onde a música pagava a confissão dos homens, a radiola de ficha era uma espécie de confessionário popular. Um sujeito chegava, colocava a moeda, escolhia a canção e fingia que escolhia apenas por gosto, quando na verdade escolhia por ferida.
A música que ele pedia na radiola dizia por ele o nome da dor que sua boca não sabia confessar.
Diante do balcão, dos copos, da fumaça e do silêncio, aquela voz que saía da máquina parecia revelar uma ausência, uma traição, um amor perdido, uma saudade antiga, um rosto que não voltava mais. Muitas lágrimas não caíram dos olhos; caíram disfarçadas dentro da música.
Nos cabarés de luzes coloridas, onde a vida mostrava uma face mais crua, menos perfumada, mais humana, essas canções também tocavam, e talvez tocassem com uma verdade ainda maior, porque ali ninguém precisava fingir inocência, ninguém precisava vestir o amor com roupas de domingo; o amor aparecia como era, misturado a desejo, abandono, dinheiro curto, solidão, promessa falsa, ternura inesperada e aquela tristeza de fim de noite que só conhece quem já viu uma cidade dormir enquanto alguém continua acordado por dentro.
Quando penso em “A Estação”, de Roberto Carlos, volto a compreender que a vida também é uma plataforma onde pessoas chegam e partem sem que a gente saiba, no momento da despedida, se aquilo é apenas uma ausência temporária ou o começo definitivo de uma saudade. Algumas pessoas foram verão, outras foram inverno, algumas chegaram como primavera e partiram deixando outono, mas todas, de algum modo, deixaram marcas no calendário íntimo que carrego comigo.
As décadas que vivi doem dentro de mim porque foram feitas dessas estações humanas: gente que chegou com sol, gente que partiu com chuva, gente que prometeu ficar e virou lembrança, gente que quase nada disse e, ainda assim, ficou para sempre. O que a juventude não sabia é que cada música ouvida com intensidade estava gravando alguma coisa no corpo da alma, e que muitos anos depois, numa manhã aparentemente comum, bastaria ouvir “Tu” para que todas aquelas gravações antigas voltassem a tocar juntas, como se dentro de mim existisse uma radiola imensa, alimentada não por energia elétrica, mas por saudade.
E foi assim que a manhã de hoje deixou de ser apenas manhã.
Ela virou sala antiga, bar de confissões, clube de interior, cabaré de luzes coloridas, disco de vinil, perfume esquecido, rosto desaparecido, juventude distante, amor impossível, carta nunca enviada, telefone nunca atendido, estação de trem, porta de cinema, domingo de rádio ligado, noite de baile, silêncio depois da música.
Eu ouvi “Tu”, mas não ouvi somente “Tu”.
Ouvi tudo.
Ouvi “Dio, come ti amo”, ouvi “Como Vai Você”, ouvi “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, ouvi “Detalhes”, ouvi “Aline”, ouvi “One Day in Your Life”, ouvi “Skyline Pigeon”, ouvi “My Life”, ouvi “If You Could Remember”, ouvi “We’re All Alone”, ouvi “A Estação”, de Roberto Carlos, passando diante dos meus olhos como se cada canção trouxesse consigo uma parte de mim que o tempo levou, mas não conseguiu destruir.
Porque a vida passa, sim, mas não passa limpa.
Ela passa deixando música.
E onde fica música, fica memória; onde fica memória, fica amor; onde fica amor, fica dor; e onde fica dor, fica também a prova mais funda de que estivemos vivos, de que atravessamos nossas décadas não como pedras, mas como homens sensíveis, marcados, frágeis e, ainda assim, capazes de continuar ouvindo uma canção antiga e reconhecendo nela não apenas o que fomos, mas tudo aquilo que ainda somos.
Amar é não se esquecer nunca do que amou.




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