Conversas de 1/2 minuto (50) – Militares. Por José Paulo Cavalcanti Filho
Por José Paulo Cavalcanti Filho – Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. É um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade – Estamos bem perto do fim. Os originais do próximo livro (título da coluna) já foram para a editora Topbooks, no Rio. Agora é tempo de revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico (com todos os nomes citados), definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço. Assim, vamos aproveitar o restinho. Hoje, só com militares e afins.
General ADEODATO MONT’ALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 universitários que iriam a um Congresso da UNE em Salvador (1968) – preparatório daquele de Ibiúna, em São Paulo, onde alguns milhares acabaram presos. Conhecida, tal secretaria, como Sorbonne ‒ uma ironia, claro, por não haver lá nenhum intelectual. A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, em seguida, um pequeno auditório. Todos os estudantes sentaram no fundo. Fui o último a entrar. O general estava na mesa, com um pacote de fichas em frente. Considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então, sentei na cadeira à sua frente. Até que olhando para mim, e com todos esperando pela conversa, ele
– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.
– Às ordens, general.
– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.
– Aceita sugestão?, general.
– Claro.
– Prenda só depois.
– Então está combinado, vai ser na volta.
Procurou minha ficha e completou
– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?
– Combinado, general, e muito obrigado pela deferência.
O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, generais gostavam de se divertir.
AUGUSTO GOMES DA COSTA, jornalista responsável pela publicidade no Diário de Lisboa. Já perto do fechamento do jornal, foi informado que havia pequeno espaço em branco numa página. E mandou por, nela, um anúncio qualquer, sem se preocupar com qual seria. Dia seguinte a página era, toda, um longo e importante discurso de Salazar sobre a Liberdade de Imprensa. E, logo embaixo, esse anúncio
– BONITAS PALAVRAS
NÃO ENGORDAM NINGUÉM.
Usar joias falsas não embeleza. Compre verdadeiras na
Grande Ourivesaria da Moda
257, Rua da Prata (esq. Santa Justa).
As duas primeiras linhas se inspiram em conhecido provérbio português, Bonitas palavras não engordam gatos. E a redação inteira teve que se explicar, na PIDE, ante o responsável pela Censura, o coronel Armando Jorge das Neves Larcher. O mesmo que, em 1952, proibiu as revistas do Rato Mickey (Mickey Mouse) em Portugal por serem “prejudiciais à formação intelectual das crianças”; e que, no cartão de visitas, se apresentava como Oficial do Exército, Licenciado em Filosofia e Farmácia.
BIU MOSCOUZINHO, professor de história em Caruaru (e membro atuante do Partidão). Preso num quartel de artilharia da cidade, sofria torturas diárias (história lembrada pelo ex-presidente da UNE Jean Marc von der Weid). Depois de sessão em que apanhou muito, no corredor das celas, um companheiro se preparava para a saudação de praxe
‒ Biu Mos…
Como os tiras não sabiam direito quem era, caso seu apelido se tornasse público estaria perdido. Então interrompeu o amigo de lutas dizendo
‒ De Nova Iorque. Pelo amor de Deus, parceiro, Biu de Nova Iorque.
BRILHANTE USTRA, coronel. Na Comissão Nacional da Verdade, o convidamos a prestar depoimento sobre acusações de torturas e mortes que lhe pesavam nos ombros. Seu advogado nos procurou
– Vim aqui só dizer que ele não vai comparecer.
– O convite se deu apenas por conta da idade avançada que tem seu cliente. E, pelo visto, será como as televisões desejam. Que será intimado e a Polícia Federal virá com ele, algemado, para a audiência.
Pediu para dar um telefonema
– Em consideração aos senhores, meu cliente informa que virá.
E veio. Ser valente, numa Ditadura, era mais fácil.
CELSO FURTADO. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian (que contou essa história), Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara, para o sul do País, acompanhado pelo chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo estava no hospital. O da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, pediu demissão. Tudo levando a que Darcy, chefe da Casa Civil, fosse o comandante supremo das Forças Armadas. Ao grupo, declarou
‒ Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.
Celso concluiu
‒ Está explicado por que estamos aqui.
Dado o Golpe Militar, em 01/04, o bravo Darcy ainda ficou três dias sozinho, no Palácio, preparado para resistir, até ir para casa com o amigo Waldir Pires.
CLÁUDIO GUERRA, executor do Exército nos tempos da Ditadura. Na Comissão Nacional da Verdade, confessou que já não conseguia conviver com o remorso de tantas mortes que lhe atormentavam e pensou dar fim à sua triste vida. Foi quando, na rua, se viu em frente a uma Igreja. Perguntei
– Era a Universal?
– Não, Assembleia de Deus.
Entrou, conversou com Deus (foi o que disse) e se confessou arrependido.
– Pai, peço perdão por todos os meus pecados.
– Não posso, o que você fez foi horroroso.
– O Senhor está todo errado. Meu papel, como cristão, é me arrepender. Estou verdadeiramente arrependido. E seu papel, como Deus, é me perdoar.
– Perdoar não vou, mas darei o roteiro de sua redenção. Conte a todos o que fez, inclusive à imprensa, para que isso nunca mais se repita. Mais tarde, voltaremos a conversar.
Cláudio aceitou a penitência. E começou a contar sua história. Até em livro (Memórias de uma guerra suja, com a colaboração dos jornalistas ). Falou isso como se estivesse em paz. E parecia mesmo, verdade se diga, o que não o impediu de ficar recebendo ameaças dos familiares de suas vítimas. Perguntei
– Não tem medo de morrer?
– E o senhor ainda não percebeu que já estou morto?
FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. Contou que em 6/11/1944 desembarcou em Tarquinia (Itália) o glorioso Senta a Pua, primeiro Grupo de Caça da FAB. Ao descer dos caminhões, em uma base aérea americana, entraram em formação. E, enquanto era arriada a bandeira ianque, subia no mastro a do Brasil. Terminada a cantoria em inglês, o General Ariel Nielsen voltou-se para o tenente-coronel Nero Moura, comandante dos brasileiros,
– Coronel, acabamos de ouvir o hino da Força Aérea dos Estados Unidos. E, agora, gostaríamos de escutar o da Força Aérea Brasileira.
Nero ficou paralisado. Que nossa Força, recém instituída, ainda não tinha hino. Perfilado logo atrás estava o sargento Oséas, amazonense, que adiantou-se um passo e segredou
– Coronel, mande a tropa cantar a Jardineira, que os gringos não vão perceber nada.
Nero deu voz de comando
– Atenção, meus senhores. Vamos cantar a Jardineira, em posição de sentido, como se estivéssemos entoando o hino nacional. E ai de quem rebolar.
Assim foi. E, até hoje, a popular marchinha do carnaval de 1939 (escrita por Benedito Lacerda e Humberto Porto) é o hino extra-oficial da Força Aérea Brasileira. Tocada, pelas bandas, em todas as cerimônias.
KARL MARX GUIMARÃES COELHO, dono de uma pequena oficina de reparos. Em 1964, no começo da Redentora, vinha caminhando tranquilo pela Rua do Hospício. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito do Recife), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou
‒ O que tem aí dentro?
‒ Nada.
‒ Quero ver.
E encontrou lá uma nota, “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão
‒ Karl Marx.
Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava da bomba de pressão para um ar condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia brasileira.
PRESOS POLÍTICOS. Na ditadura 18 estudantes presos, que a combatiam, estavam em greve de fome. Já 11 dias haviam se passado. Por cautela foram trazidos para o quartel da PM, no Derby, onde havia um hospital militar. Médicos informaram que até 12 dias não haveria problemas para a saúde. Entre 12 e 18, provavelmente. A partir daí, com certeza. Era preciso encerrar a greve, na proteção dos próprios presos. Fomos negociar com eles. Airton Soares, velho amigo e líder do PT na Câmara dos Deputados (pouco depois ele, o deputado José Eudes e a deputada Beth Mendes seriam expulsos do partido por terem votado em Tancredo), que veio de São Paulo só para isso; e eu, companheiro de tantos na universidade (e amigo próximo de alguns), representando a OAB. Nosso argumento era que o protesto já tinha produzido seus resultados políticos, tanto que os jornais vinham dando a notícia com destaque. Seguir, ante os riscos para a saúde, não fazia sentido. Às dez da noite, alvíssaras, tudo certo. Fomos falar com o comandante da PM, ainda em seu gabinete e rezando para que tivéssemos sucesso. Ocorre que, encerrada essa greve, todos queriam jantar.
– Comandante, por favor providencie.
– Claro.
Pediu para chamar o cozinheiro. Um ajudante
– Doutor, o homem já foi pra casa.
– Veja o que tem na despensa.
– Está fechada, com cadeado, e quem tem a chave é ele. Só amanhã de manhã.
– Onde mora?
– Ninguém sabe.
Sugeri
– Comandante, por favor, vamos comprar ao menos um cacho de bananas.
– Nem pensar. Comida de fora? E se tiverem uma intoxicação?
– O senhor manda um ajudante conosco, providenciamos o dinheiro, ele mesmo escolhe e compra as bananas.
Nesse momento, um médico do quartel o chamou para conversar. E o comandante
– Perdão, senhores. Mas, antes de se alimentar, eles vão ter que fazer exames médicos e ser avaliados. Até para decidir o que podem ingerir.
– É desumano, comandante.
– Também acho. Mas, infelizmente, vai ter que ser.
E assim ocorreu. Voltaram a se alimentar só no dia seguinte, ao fim da manhã. Chico de Assis (enorme poeta) me confessou, mais tarde,
– Passar 11 dias, dentro de uma greve de fome, não teve nenhum problema. Só que do fim da noite e até a manhã, querendo comer, foi um verdadeiro suplício.
E Alberto Vinícius (Xanha), que estava do seu lado, confirmou
– A vontade que tive foi me suicidar.
RUTH ESCOBAR, atriz. Em 1985, o país se preparava para a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney. O ministro da Justiça da ditadura, Ibrahim Abi-Ackel, tentava ser simpático. Até chamou seu sucessor, Fernando Lyra, de jurista. E Lyra confirmou, todo prosa,
– Sou mesmo e de Caruaru!
Vendo Ruth chegar, quis fazer as pazes com ela
– Dona (Maria) Ruth (dos Santos Escobar), preciso explicar. Nunca lhe deixei representar peças de teatro, nas prisões, pensando na sua segurança.
– Como?
– É que os presos, lhe vendo, iriam ficar com alguma fixação sexual. E nas ruas, daqui a dez anos, poderiam querer lhe estuprar.
– Agora é que não lhe desculpo mesmo, ministro. Pois um estuprozinho, comigo dez anos mais velha, seria bom demais.
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