GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL – O Brasil não merece esse nível de debate

A troca de provocações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, iniciada após a comparação de Lula com um Opala e seguida de uma resposta no mesmo tom, é mais um retrato do empobrecimento do debate político nacional. Quando figuras de projeção pública, algumas no exercício do poder e outras no campo da sucessão presidencial, escolhem a zombaria em vez da formulação de ideias, o que se expõe não é força política. É pobreza de conteúdo.

O Brasil exige outra estatura de seus protagonistas. Exige discussão séria sobre habitação, educação, saúde, segurança, emprego, desenvolvimento e futuro. Exige líderes capazes de apresentar caminhos, não personagens empenhados em disputar a melhor frase de efeito. Um país com a dimensão, a complexidade e as carências do Brasil não pode ter seu debate público reduzido a comparações jocosas e respostas de palanque.

O episódio é revelador porque expõe uma deformação que vem se tornando frequente na vida pública nacional. A política, que deveria ser o espaço das grandes escolhas e das soluções difíceis, acaba sequestrada pela lógica do deboche. Em vez de projetos, provocações. Em vez de visão de Estado, escárnio. Em vez de compromisso com a população, a permanente tentativa de produzir manchetes, aplausos de militância e repercussão instantânea.

Quem mais perde com isso é o próprio país. Enquanto nomes que ocupam ou disputam posições de comando se dedicam a diminuir uns aos outros, o povo brasileiro continua à espera de respostas concretas para seus dramas cotidianos. Falta moradia para milhões. A educação pública segue desafiada. A saúde convive com carências conhecidas. A insegurança angustia famílias. O custo de vida pesa sobre quem trabalha. A desigualdade continua a cobrar seu preço. Nada disso será enfrentado com trocadilhos.

Uma eleição presidencial, ou mesmo a preparação para ela, deveria elevar o nível da conversa nacional. Deveria ser a hora de submeter ao julgamento da sociedade propostas, prioridades, capacidade de liderança e senso de responsabilidade histórica. É nesse momento que o eleitor precisa enxergar quem tem preparo para governar, quem possui equilíbrio institucional e quem é capaz de compreender a gravidade da missão de conduzir uma nação. Quando esse espaço é ocupado por ironias e insultos, a política falha em sua tarefa mais essencial.

Não se trata de negar a divergência, que é parte natural da democracia. O confronto entre visões diferentes é legítimo e necessário. O que não se pode aceitar como normal é a degradação deliberada da linguagem pública. Uma coisa é o embate de ideias. Outra, muito diferente, é a substituição do pensamento pela grosseria e da responsabilidade pela caricatura.

O mais preocupante é que esse tipo de comportamento vai criando, aos poucos, uma cultura de rebaixamento permanente. O que deveria causar constrangimento passa a ser tratado como recurso político aceitável. O que deveria envergonhar homens públicos passa a ser celebrado como esperteza. E, assim, o país se acostuma a ver seus temas mais sérios soterrados pelo ruído de uma política pequena, barulhenta e vazia.

O Brasil merece mais. Merece líderes que compreendam o peso da palavra, o alcance do exemplo e a dignidade das instituições que representam ou pretendem representar. Merece estadistas, não provocadores. Merece ser tratado com a seriedade que sua realidade impõe e com a grandeza que sua história exige.

O destino de uma nação não pode ser conduzido no grito, no deboche e na piada de ocasião. O Brasil já tem problemas demais para ainda ser obrigado a suportar a pobreza de ideias daqueles que desejam governá-lo.

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