QUEM DIRÁ FELIZ ANO NOVO AOS HÓSPEDES DA SOLIDÃO. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – O ano não termina quando o relógio decide avançar seus ponteiros, nem quando o calendário se desfaz da última folha com a indiferença de quem cumpre apenas uma função mecânica, o ano termina de maneira desigual, como quase tudo que atravessa o ser humano, termina quando a resistência cede, quando o cansaço se acumula em silêncio, quando a alma percebe que passou meses inteiros atravessando dias sem realmente habitá-los, carregando ausências como quem carrega móveis pesados por corredores estreitos.
Há uma noite em que a solidão se adensa, ganha peso específico, torna-se quase palpável, uma noite em que ela deixa de ser apenas um estado de espírito e passa a ocupar o corpo inteiro, senta-se à mesa, repousa nos ombros, deita-se ao lado, respira no mesmo compasso, é a noite da virada, quando o céu se rasga em cores e estrondos, anunciando uma felicidade coletiva que não alcança todas as casas, enquanto em alguns quartos o silêncio se estica, longo e frio, como um lençol mal colocado sobre quem já não sente calor.
Quem dirá feliz ano novo aos hóspedes da solidão, àqueles que não chegaram por acaso, que não estão ali por distração ou fraqueza, mas porque foram ficando, dia após dia, à medida que a vida retirava pessoas, sentidos e promessas, ensinando, com sua pedagogia dura, que nem todos terão com quem brindar, que nem todos serão lembrados quando a música começa, que nem todos cabem na alegria alheia.
A solidão não invade, não grita, não ameaça, ela chega devagar, quase com delicadeza, pede licença ao primeiro vazio e, quando percebe que ninguém se opõe, espalha-se pela casa, aprende os horários, reconhece os cheiros, decora os pensamentos mais recorrentes, transforma-se em hábito, em rotina, em uma presença constante que ninguém vê, mas que pesa como um corpo inteiro apoiado sobre o peito nas madrugadas mais longas.
O ser humano insiste em acreditar que o tempo se submete à sua contagem, que a troca de números no calendário tem o poder de purificar dores antigas, de corrigir erros, de apagar ausências, mas o tempo verdadeiro, aquele que habita o interior das pessoas, não respeita datas nem se comove com promessas, ele apenas passa, deixando marcas, sulcos, cicatrizes que não se fecham com discursos otimistas ou desejos ensaiados.
Enquanto mesas se enchem de pratos, taças e risos que soam mais altos do que sentem, há corações atravessando a noite em absoluto jejum de sentido, homens e mulheres que não perderam apenas alguém, mas perderam a orientação, a leveza, o lugar interno onde antes repousavam, gente que passou o ano inteiro se despedindo em silêncio, mesmo quando ninguém percebeu, mesmo quando o mundo continuou exigindo produtividade, entusiasmo e fé como se tudo isso fosse simples ou possível.
Existe uma solidão que não aparece nas fotografias da virada, que não se anuncia em palavras públicas, que não pede ajuda porque já tentou e cansou, ela observa o mundo à distância, da janela entreaberta, do canto do quarto, do fundo do pensamento, aprende a economizar gestos, a reduzir expectativas, a diminuir a própria presença para não incomodar, para não explicar, para não precisar responder perguntas que raramente são feitas por verdadeiro interesse.
O mais doloroso não é estar só, é estar só enquanto a alegria se torna obrigatória, enquanto a felicidade assume a forma de um dever social, enquanto o sorriso passa a ser exigido como prova de equilíbrio, há uma violência sutil na celebração imposta, no brinde automático, na contagem regressiva que ignora aqueles que ainda recolhem, com cuidado quase ritual, os cacos do que se quebrou ao longo do ano que se despede.
Quem lembrará, em meio aos abraços apressados e aos fogos que insistem em iluminar tudo, daqueles que contam perdas em silêncio, que atravessam a meia-noite sem testemunhas, abraçados apenas à própria sombra, tentando compreender em que momento da caminhada a vida se tornou pesada demais, em que ponto o tempo deixou de ser promessa e passou a ser apenas esforço.
Talvez o gesto mais humano deste fim de ano não seja desejar felicidade em voz alta, mas reconhecer em silêncio que há dores que não cabem em festas, que há pessoas que não precisam de planos, resoluções ou discursos esperançosos, precisam apenas não serem esquecidas, precisam apenas que alguém reconheça que sobreviver já foi tudo o que conseguiram fazer.
Porque o ano novo não começa para todos quando o relógio ordena, para alguns ele ainda não começou, para outros talvez nem comece, e até que isso aconteça seguem ali, hóspedes da solidão, atravessando o tempo como quem atravessa um cômodo escuro, tateando paredes, evitando quedas, esperando não por fogos, mas por um gesto mínimo de humanidade.
E quando o relógio avançar outra vez, indiferente como sempre foi, restará apenas essa pergunta, tardia e necessária, ecoando onde a festa não alcança, quem dirá feliz ano novo aos que estão sozinhos, de verdade.
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