A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor  –  Não é fácil romper os laços da terra natal. Qualquer partida, mesmo prevista e esperada, traz medo, uma incerteza angustiante pelo futuro duvidoso, uma nuvem espessa de interrogações. Artistas cantam a dor da partida. A mais célebre canção virou uma espécie de hino de despedida dos retirantes sertanejos do seu torrão: “A Triste Partida”, de Patativa do Assaré, cantada por Luiz Gonzaga.
  Outras canções, de diferentes estilos, também abordam o tema, como “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil. “A Triste Partida” retrata a dura realidade da migração, a saudade do lar e das raízes, da terra-mãe. Em “Aquele Abraço”, Gilberto Gil utiliza a música para se despedir de um amigo que está indo embora, com um toque de celebração pela partida.

“Chão de Giz”, de Zé Ramalho, embora não trate diretamente sobre a partida, fala de saudade e nostalgia, evoca também o sentimento de despedida, tema recorrente em músicas sobre partidas. Na canção “Vou-me embora”, o saudoso Paulo Diniz, de Pesqueira, a quem fiz um tributo no Sextou, fala da dor de deixar sua terra para mostrar seu talento no Sul maravilha.

Se nas capitais dos centros mais afastados do coração econômico e cultural do País, São Paulo e Rio, já é difícil sobreviver da arte musical, imagine nos grotões nordestinos! Paulo Diniz ganhou o mundo levando o seu canto poético. Musicalizou seus poemas. “Vou-me embora” não é apenas uma poesia. É um grito parnasiano, um lamento drummondiano.

No adeus a Pesqueira, terra do doce e das rendas, versou: “Ou encanto a vida ou desencanto a morte”. Paulo Diniz produziu uma obra-prima de retirante. “Vou-me embora, vou-me embora, vou buscar a sorte. Caminhos que me levam, não tem sul nem norte. Mas meu andar é firme, e meu anseio é forte.

Paulo Diniz, como todo artista, viu que sua Pesqueira já não lhe cabia mais, estava pequena para sua arte fenomenal. “Vou-me embora, vou-me embora, nada aqui me resta. Se não a dor contida, num adeus sem festa. Eu vou na ida, indo, que o temor desperta. Cuidar da minha vida, que a morte é certa”.

E fez seu lamento: “Quem disse que trazia, até hoje não trouxe. O bem de se fazer da vida amarga doce. Eu não espero o dia, pouco me importa se o velho é sábio ou se a menina é louca. Se a tristeza é muita, se alegria é pouca. Se José é fraco ou se João é forte. Eu quero a todo custo encontrar a sorte”.

A resolução do ilustre pesqueirense estava firme no seu peito. Não apenas firme, mas definida. “Quem vem na minha ida ouve a minha voz. E cada um por si e Deus por todos nós”. Que lindo! A dor da partida rasga o coração, é uma faca penetrante nas veias da saudade. É na terra-mãe onde o coração se encontra com a paz, cheio de alegria e abraçado pela família.

Há uma brisa que sopra sobre quem parte, inundada por boas lembranças e amor. As lembranças da minha terra são como um acalento para a alma. Sinto essas lembranças me acolherem e me abraçarem tão fortemente. Eu sinto tanta falta do cheiro da terra molhada após a chuva. Traz recordações da linda infância que vivi naquele lugar abençoado.

Imagino Paulo Diniz partindo da sua Pesqueira com a alma em chamas. Porque, para ele, a música sempre embalou a saudade, refletida no som dos pássaros, em manhãs acordando com a sinfonia perfeita. Cada detalhe soa como uma joia guardada na memória.

Share this content:

Publicar comentário