Love Story : O amor que não coube no tempo. Por Flávio Chaves
Leia a matéria e assista ao filme completo e dublado
Por Flávio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Algumas músicas não começam quando alguém aperta uma tecla, encosta o arco nas cordas ou deixa que a primeira nota atravesse o silêncio. Elas começam muito antes, em algum território secreto da memória, e apenas esperam o instante em que voltarão a nos encontrar. Basta que soem os primeiros acordes do tema composto por Francis Lai para Love Story e alguma coisa dentro de nós se abrir como uma janela antiga, dessas que permaneceram fechadas durante anos, mas conservaram intactos do outro lado o perfume de uma época, o rosto que amamos, a juventude que imaginávamos eterna e a inocência com que acreditávamos possuir tempo suficiente para realizar todos os sonhos. A melodia não acompanha apenas as imagens de um filme. Ela parece atravessar mais de meio século para tocar a parte de cada pessoa onde ainda vive aquilo que o tempo não conseguiu apagar.

Lançado em 1970, com direção de Arthur Hiller e roteiro de Erich Segal, Love Story transformou-se em um dos maiores fenômenos sentimentais da história do cinema porque não contou somente a história de Oliver Barrett IV e Jennifer Cavilleri. O filme contou, de algum modo, uma história que já existia silenciosamente dentro de milhões de pessoas. Ryan O’Neal deu a Oliver a inquietação de um jovem pertencente a uma família rica, tradicional e dominadora, enquanto Ali MacGraw fez de Jenny uma mulher de origem modesta, inteligente, irônica, musicalmente sensível e suficientemente livre para não se curvar diante do dinheiro ou do sobrenome de quem amava. Ele carregava o peso de uma herança. Ela possuía a independência de quem aprendera cedo que a dignidade não se compra. Entre os dois, o amor surgiu não como uma concessão das famílias ou uma consequência das conveniências sociais, mas como escolha, enfrentamento e coragem.
Oliver e Jenny não se amam porque o mundo facilitou o encontro. Amam-se apesar das barreiras que o mundo ergueu diante deles. A diferença social, a resistência do pai de Oliver, a perda do conforto financeiro e as exigências concretas da vida poderiam ter transformado aquela relação em mais uma promessa interrompida pelas convenções. Os dois, porém, decidem construir uma existência juntos com os instrumentos que possuem: o trabalho, a cumplicidade, o humor, a renúncia e a presença cotidiana. Jenny abandona a possibilidade de estudar música em Paris para permanecer ao lado de Oliver durante sua formação em Direito. Ele rompe com o pai e aceita viver sem os privilégios que o acompanharam desde o nascimento. O amor dos dois deixa então de ser apenas uma emoção para tornar-se uma casa construída todos os dias, ainda que pequena, apertada e sem as proteções oferecidas pela fortuna familiar.
Talvez esteja justamente nessa passagem a força que mantém Love Story vivo depois de tantas décadas. O filme não apresenta o amor apenas como encantamento, beijo ou promessa pronunciada diante de um futuro ainda intacto. Mostra o amor na materialidade da vida, nas contas que precisam ser pagas, nos projetos adiados, nas escolhas difíceis e na capacidade de permanecer quando a realidade deixa de ser generosa. Oliver e Jenny discutem, provocam-se, ferem-se e reconciliam-se porque não foram concebidos como figuras perfeitas colocadas dentro de uma história romântica. São duas pessoas aprendendo a dividir o mesmo destino. A felicidade que constroem não nasce da ausência de conflitos, mas da decisão de não permitir que as diferenças sejam maiores do que aquilo que os une.
Quando decidem ter um filho e a gravidez não acontece, procuram ajuda médica. É nesse percurso, iniciado pela esperança de trazer uma nova vida para dentro daquela casa, que recebem a notícia capaz de alterar tudo. Jenny está gravemente doente. O filme não pronuncia claramente o nome da enfermidade, embora ela tenha sido posteriormente identificada e popularizada como leucemia. Pouco importa, do ponto de vista humano, a palavra clínica que pudesse definir o que acontecia em seu corpo. O que importa é a brutalidade com que o futuro, até então aberto diante dos dois, começa a se estreitar. Os planos cedem lugar à urgência. O amanhã deixa de ser uma certeza silenciosa. Cada gesto ganha o peso de quem começa a compreender que o tempo não é uma propriedade concedida igualmente a todos.
Love Story entra, a partir desse momento, numa das regiões mais dolorosas da experiência afetiva: o luto antecipatório, essa espécie de sofrimento que se instala quando a pessoa amada ainda está diante de nós, ainda fala, respira, toca nossas mãos e reconhece nosso rosto, mas sua ausência já começou a projetar uma sombra sobre cada instante. Oliver enfrenta a impotência de amar profundamente alguém que não pode salvar. Seu dinheiro, sua formação, sua juventude e até o poder da família contra a qual se rebelou tornam-se inúteis diante da doença de Jenny. É então que o amor encontra o seu limite mais cruel e, ao mesmo tempo, sua expressão mais elevada: compreender que amar alguém não nos concede domínio sobre o seu destino, não nos transforma em senhores do tempo e não nos entrega o poder de impedir aquilo que a vida decidiu levar adiante.
Oliver tenta preservar Jenny da verdade. Depois, quando ela também compreende o que está acontecendo, procura oferecer-lhe Paris, como se ainda fosse possível devolver à mulher amada o sonho que ela deixara para trás. Jenny não quer Paris. Não deseja que os últimos dias sejam transformados numa corrida desesperada contra o relógio. O que ela pede é a presença de Oliver. Quer o homem que ama perto de si, não como alguém capaz de vencer a doença, mas como aquele que pode impedir que a solidão seja maior do que o sofrimento. Nessa escolha existe uma verdade que ultrapassa o filme: quando já não podemos mudar a realidade, ainda podemos escolher ficar, cuidar, ouvir, segurar uma mão e oferecer ao outro a certeza de que nenhuma dor precisará ser atravessada inteiramente a sós.
A música de Francis Lai compreende essa dimensão antes mesmo que as palavras consigam explicá-la. Sua melodia não invade as cenas nem tenta obrigar o espectador a sentir. Ela se aproxima devagar, com a delicadeza de quem sabe que algumas dores não suportam ruído, e transforma o silêncio entre Oliver e Jenny numa linguagem que o coração reconhece. A trilha recebeu o Oscar porque não foi apenas um acompanhamento musical. Tornou-se a continuação da história por outros meios. Quando as palavras se tornam insuficientes, é a música que recolhe aquilo que os personagens já não conseguem dizer. Cada nota parece guardar a juventude dos dois, a neve onde brincaram, os corredores da universidade, os pequenos combates domésticos, os sonhos que fizeram juntos e tudo aquilo que, embora breve, adquiriu uma espécie de duração interior.
A frase mais célebre do filme, “amar significa nunca ter de pedir perdão”, atravessou gerações e se tornou quase inseparável do próprio título. Pode ser discutida, contestada e até considerada imperfeita, porque amar muitas vezes exige reconhecer o erro e pedir perdão. Dentro da história, entretanto, ela possui outro sentido. Jenny não deseja que Oliver carregue culpa pelo que não pôde impedir. Não quer que ele transforme o amor vivido numa condenação íntima, nem que procure no passado uma falha capaz de explicar o inexplicável. O que ela lhe oferece é a absolvição de quem sabe que foi verdadeiramente amada. Nenhum dos dois teve poder sobre o tempo, mas ambos tiveram liberdade para escolher o que fariam com o tempo que receberam.
Ao final, Oliver retorna sozinho ao lugar onde Jenny o observara patinar, enquanto a neve cobre a paisagem e a música volta a ocupar o espaço deixado por tudo o que já não pode ser pronunciado. A cena não precisa de excesso. O corpo imóvel do personagem diante do branco do inverno contém a dimensão inteira da perda. O rapaz que desafiara o pai, recusara a fortuna e acreditara que o amor bastaria para derrotar qualquer obstáculo descobre que amar não impede a finitude. Mas também descobre, ainda que essa compreensão lhe custe quase tudo, que a brevidade não diminui a grandeza do que foi vivido.
Mais de cinquenta anos depois, Love Story continua nos alcançando porque todos nós, em algum momento, já tivemos medo de que a felicidade não durasse o tempo que merecia. O filme nos recorda que a medida de um amor não está apenas na quantidade de anos que lhe foram concedidos, mas na intensidade de presença que ele foi capaz de produzir. Certos encontros atravessam uma vida inteira; outros recebem apenas uma estação. Alguns envelhecem conosco, enquanto outros permanecem para sempre jovens na fotografia guardada, na música reencontrada, no lugar onde estivemos juntos ou na lembrança de uma mão que um dia segurou a nossa.
Talvez seja por isso que, ao ouvirmos novamente a melodia de Francis Lai, não estejamos recordando somente Oliver e Jenny. Estamos procurando, dentro de nós, os rostos que o tempo afastou, as palavras que não dissemos, os abraços que poderiam ter durado um pouco mais e os amores que, mesmo não recebendo todos os anos que desejávamos, deixaram uma presença maior do que a própria ausência. Alguns amores não tiveram o tempo que mereciam, mas foram intensos o suficiente para permanecer. E permanecem porque o amor verdadeiro, quando encontra morada em nós, deixa de obedecer ao calendário: transforma-se em memória, música e silêncio, continuando a viver naquele último território que o tempo jamais consegue conquistar por inteiro, o coração.
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